A Guerra de Tróia – Jean-Pierre Vernant

A Guerra de Troia

Jean-Pierre Vernant[1]

Ao contrário do que pretendeu Jean Giraudoux, a guerra de Tróia realmente aconteceu. Contá-la depois do poeta que a fez conhecida, Homero, é quase inútil! Não poderia ser mais do que um mau resumo. Em compensação, talvez se possa tentar fazer o relato das razões dos significados desse conflito. O enfrentamento tem suas raízes num passado muito antigo. Para compreender, é preciso se deslocar até certas montanhas que figuram nas origens desse drama vivido pelos mortais. Há o Pélion, na Grécia, e também o monte Ida, em Troáda, e o Taígeto, em Esparta.

São montanhas altíssimas, isto é, lugares onde a distância entre os deuses e os homens é menor do que em outras partes, e onde, sem estarem totalmente apagadas, as fronteiras entre mortais e imortais tornam-se de certa forma porosas. Vez por outra dá-se um contato entre o divino e o humano. Ocasionalmente – e será o caso da guerra de Troia -, os deuses aproveitam essa proximidade, esses encontros nos cumes, para transmitir aos homens os males, as catástrofes das quais querem se livrar, expulsando-as do campo luminoso onde estabeleceram suas moradas e fixando-as na superfície da terra.

Assim, tudo começa no Pélion, com as bordas de Peleu, rei da Ftia, e de Tétis, a Nereida. Como suas cinquenta irmãs, que povoam com sua presença simpática e graciosa a superfície das águas do mar, Tétis é filha de Nereu, o chamado “velho do mar”. Nereu, por sua vez, é filho de Ponto, Onda do Mar, que Gaia gerou junto com Urano, na origem do universo. Por sua mãe Dóris, as Nereidas descendem de Oceano, o rio cósmico primordial, que envolve o universo mantendo-o apertado na rede circular de suas águas. Tétis é talvez, junto com Anfitride, uma das Nereidas mais representativas. Como outras deusas marinhas, possuí um incrível dom de metamorfose. Pode assumir todas as formas, virar leão, chama, palmeira, pássaro, peixe. Possui um vasto registro de transformações. Deusa marinha, ela é, como a água, toda fluida, nenhuma forma a cerceia. Pode sempre passar de uma aparência a outra, escapar do próprio aspecto, como a água que se esvai entre os dedos sem que se consiga retê-la. Essa deusa, talvez justamente por causa de sua extrema flexibilidade, de sua fluidez incapturável, representa aos olhos dos gregos uma força que só poucas divindades conseguiram herdar. É o caso, muito especial, da deusa Mêtis, que Zeus desposou em primeira núpcias. Como vimos, Zeus não só casou com Mêtis, entre outras deusas, mas fez dela sua primeira companheira, pois sabia que, exatamente por suas incríveis qualidades de flexibilidade, finura e fluidez, o filho que teria com Mêtis seria um dia mais esperto e poderoso que ele. Por isso é que, mal engravidou a deusa, Zeus tratou de engoli-la, apelando para todas as astúcias, a fim de que Mêtis ficasse dentro dele. É Atena que vai nascer dessa união, e não haverá nenhum outro filho.

A força ondulante e sutil que Mêtis representa está, pois, totalmente incorporada à pessoa de Zeus. Além disso, sendo Atena a única descendente direta, Zeus não terá filho homem que, chegada a hora, derrotará o pai. Assim se inverte o que propriamente a sina dos humanos: por mais forte, poderoso, inteligente e soberano que seja um homem, chega o dia em que o tempo o destrói, a idade lhe pesa e que, por conseguinte, o rebento por ele gerado, o menininho que pulava em seus joelhos, que ele protegia e alimentava, torna-se um homem mais forte que o pai e destinado a tomar o seu lugar. Enquanto isso, no mundo dos deuses, uma vez Zeus instalado e estabelecido, nada nem ninguém terá o poder para afastá-lo e ocupar seu trono.

Com seu dom e sua magia da metamorfose, Tétis é um encanto de criatura, extremamente sedutora. Dois deuses maiores são apaixonados por ela: Zeus e Posêidon. Brigan por Tétis e ambos esperam desposá-la. No conflito que opõe Zeus e Prometeu nesse mundo divino, a arma que o titã guarda em reserva, a carte que tem na manga, é que ele, e só ele, conhece o terrível segredo: se Zeus realizar seu desejo, se conseguir se unir a Tétis, o filho deles lhe infligirá um dia o que ele mesmo infligiu ao seu pai Crano, e este a seu pai Urano. E, nesse caso, a luta das gerações, a rivalidade que opõe moços e velhos, o filho e o pai, interviria para sempre no mundo divino e questionaria a ordem que Zeus quis que fosse imutável.

Como esse segredo chega aos ouvidos de Zeus? Um dos relatos diz que Prometeu se reconcilia com Zeus e Héracles[2], com a anuência dos deuses, vai soltar o Titã, com a condição de que aceite revelar o segredo. Assim, Zeus é avisado do perigo, e Posêidon também. E então os deuses desistem de se unir a Tétis. Será que a deusa ficará eternamente virgem e jamais conhecerá o amor? Não, os deuses são magnânimos, e vão jogar para cima dos homens essa fatalidade que faz com que, chegada a hora, seja preciso ceder lugar aos moços. Tétis gerará um filho mortal, extraordinário de todos os pontos de vista, e que em todos os aspectos superará o pai: um herói modelo, que representa, no mundo dos homens, o clímax das virtudes guerreiras. Ele será o melhor, o inigualável. Quem é essa criança? Aquiles, filho de Tétis e Peleu. É um dos personagens maiores da guerra de Troia, cujo estopim decorre de toda essa história.

O casamento de Peleu.

Assim, Zeus e os deuses resolvem por unanimidade que o tesálico Peleu, rei de Ftia, deve-se casar com Tétis. Como conseguir o acordo da deusa? Como convencê-la a decair ao se casar com um simples mortal, mesmo se tratando de um rei? Não cabe aos deuses intervir e impor a uma congênere um casamento tão desigual como esse. Portanto, Peleu tem de se arranjar sozinho e conquistar sua esposa, fazendo como os outros heróis que conseguiram subjugar divindades marinhas e delas arrancar o que desejavam. Assim fez Menelau, ao lutar vitoriosamente contra Proteu e suas metamorfoses. Peleu terá de sequestrar Tétis para que, conforme o rito, ela passe da morada marinha onde reside à casa, ao palácio, ao lar do futuro esposo.

Um belo dia, eis que Peleu vai até a beira do mar. Vê Tétis, fala com ela e agarra-a pelos braços, puxando-a contra si. Para escapar, ela assume todas as formas. Peleu está prevenido: com essas divindades ondulantes e dadas a metamorfoses, a única coisa a fazer é aprisioná-las com um abraço que não ceda. Para imobilizar a divindade, é preciso fazer um gesto circular com os braços, as duas mãos bem agarradas uma na outra, quaisquer que sejam as formas que ela possa assumir – um javali, um poderoso leão, uma chama ardente, ou a água – e, não largá-la em nenhuma hipótese. Só assim é que a divindade desiste de usar o arsenal de formas que dispõe, e que não é infinito. Depois de percorrer todo o ciclo das aparências que pode assumir, ela volta à sua forma primeira, autêntica, de jovem e bela deusa: é vencida. A última forma que Tétis assume para se livrar do abraço que prende é a de uma lula. Desde então, a lingueta da terra que avança pelo mar, e que o foi onde se travou a luta pré-nupcial de Peleu e Tétis, tem nome de cabo Sipíada. Por que uma sépia, ou seja, uma lula? Porque, na hora em que querem agarrá-la, ou quando um animal marinho a ameaça, ela costuma soltar na água em torno de si uma tinta preta que a esconde por completo, de tal modo que ela desaparece como que afogada numa escuridão produzida e espalhada por ela mesma. É o último trunfo de Tétis: assim como a lula, ela solta tinta. Envolto nesse negrume total, Peleu resiste, não larga a sua presa e, finalmente, Tétis é que tem de ceder. O casamento acaba se realizando. É celebrado, justamente, no alto do monte Pélion. Este não é apenas um monte que aproxima os deuses e os homens, que os reúne ao fim de um intercâmbio desigual. O que os deuses enviam a Peleu, por intermédio do privilégio de se unir a uma deusa, são todos os riscos que esse casamento representava para os imortais, e que eles não querem mais correr, preferindo, de um jeito ou de outro, despachá-los para o mundo humano. Todos os deuses desceram do Olimpo, isto é, do céu etéreo, e estão ali reunidos nos picos do Pélion, onde se celebra o casamento.

A montanha não é só o ponto de encontro entre deuses e humanos. É também um lugar ambíguo, a morada dos Centauros,  muito especialmente do Centauro Quíron, o mais velho e mais ilustre deles. Os Centauros tem um estatuto ambivalente, uma posição ambígua: possuem cabeça de homem, um peito que já lembra do cavalo, e um corpo de cavalo. São seres selvagens subumano, cruéis – capazes de se embriagar e raptores de mulheres – e ao mesmo tempo sobre-humanos, porque, como Quíron, representam um modelo de sabedoria, de coragem, de todas as virtudes que um jovem deve assimilar para se tornar um verdadeiro personagem heroico: caçar, saber manejar todas as armas, cantar, dançar, raciocinar, nunca perder o domínio de si. É isso que o centauro Quíron vai ensinar a diversos meninos e sobretudo a Aquiles. Assim, é nesse lugar onde os deuses se misturam aos homens, um lugar povoado de seres bestiais e também sobre-humanos, que se celebrará o casamento. Enquanto as Musas cantam o epitalâmio[3], canto nupcial, todos os deuses chegam com um presente. Peleu recebe uma lança de freixo, uma armadura que o próprio Hefesto forjou, dois cavalos maravilhosos, imortais – Bálio e Xanto. Nada pode atingi-los, são velozes como o vento, e ocasionalmente falam em vez de relinchar. Em certos momentos privilegiados, quando o destino de morte que os deuses quiseram para os homens surge  ameaçador no campo de batalha, eles se revelam dotados de voz humana e dizem palavras proféticas como se os deuses distantes falassem por eles, bem pertinho. No combate entre Aquiles e Heitor, depois da derrota e da morte de Heitor, os cavalos se dirigirão a Aquiles para lhe anunciar que breve ele também vai morrer.

Em meio à alegria, ao canto, à dança, à generosidade que os deuses manifestam a Peleu em seu casamento, chega a Pélion um personagem que não tinha sido convidado: a deusa Éris, a discórdia, o ciúme, o ódio. Ela surge em plenas núpcias e traz um magnífico presente de amor: uma maçã de ouro, garantia da paixão que se sente pelo ser amado. No meio da festa, diante de todos os deuses reunidos e se banqueteando, com os outros presentes bem visíveis, Éris atira no chão esse maravilhoso presente. Mas o fruto tem uma inscrição, um lema: “À mais bela”. Ora, ali estão três deusas, todas convencidas, com absoluta certeza, de que o pomo é seu: Atena, Hera e Afrodite. Quem ganhará o fruto?

Essa maçã de ouro, essa maravilhosa joia resplandecente e luminosa, fica ali no alto do Pélion, esperando que alguém o apanhe. Deuses e homens estão reunidos, Peleus conseguiu capturar Tétis no anel formado por seus braços unidos, apesar de todos os sortilégios da deusa. Nesse momento surge esse pomo, que vai levar à guerra de Troia. As raízes dessa guerra não estão apenas nos acasos da história humana, pois resultam de uma situação bem mais complexa, que decorre da natureza das relações entre os deuses e os homens. Os deuses não querem conhecer o envelhecimento, a luta entre as sucessivas gerações; destinam tudo isso aos homens, ao mesmo tempo, que lhes oferecem esposas divinas. Assim surge essa situação trágica: os homens não podem celebrar cerimônias de casamento independentemente das cerimônias de luto. No próprio matrimônio, na harmonia entre criaturas diferentes, como homens e mulheres, acham-se lado a lado Ares, deus da guerra, que separa e opõe, e Afrodite, que harmoniza e une. O amor, a paixão, a sedução e o prazer erótico são de certa forma a outra face da violência, do desejo de vencer o adversário. Se a união dos sexos produz renovação das gerações, se os homens se reproduzem, se a terra é povoada graças a esses casamentos, no outro prato da balança há o fato de que eles se tornam numerosos demais.

Quando os gregos forem refletir sobre a guerra de Troia, dirão eventualmente que a verdadeira razão dessa guerra foi o fato que, tendo os homens se multiplicado em massa, os deuses irritaram com essa multidão buliçosa e quiseram purgar a face da terra – como nas histórias babilônicas em que os deuses resolvem enviar o dilúvio. Os homens são barulhentos demais. Há zonas etérea, silenciosa, onde os deuses se recolhem e se olham uns aos outros, e depois há esses humanos que se agitam, que se mexem sem parar, que se esgoelam e brigam. Então, aos olhos dos deuses, vez por outra uma boa guerra resolve o problema: retorna-se à calma.


[1] Este texto integra um dos capítulos da obra do citado autor: VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os homens, os deuses. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (Nota do Revisor).

[2] Ou, mais conhecido, a partir da língua latina e em toda cultura ocidental moderna como Hércules (Nota do revisor).

[3] Canto nupcial de caráter religioso realizado nos ritos matrimoniais gregos, o qual conduz a benção dos deuses ao noivo (Nota do revisor).

Anúncios

2 comentários sobre “A Guerra de Tróia – Jean-Pierre Vernant

  1. Texto fabuloso, experiência enriquecedora e gratificante não apenas para os trabalhos didáticos, mas para o conhecimento filosófico!
    Afetuosamente,
    Gabriel Araújo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s