Metafísica e teoria das ideias em Platão – Bertrand Russell

Metafísica e teoria das ideias em Platão.

Bertrand Russell.*

Quando se menciona Platão, pensa-se de imediato na teoria das ideias, expostas por Sócrates em vários diálogos. Durante muito tem tem sido objeto de controvérsia se esta teoria se deve mais a Sócrates do que a Platão. No Parmênides – que, embora tenha sido um dos últimos diálogos, descreve uma cena em que Sócrates era jovem e Platão ainda não nascera – vemos Sócrates tentando sustentar a teoria das ideais frente a Zenão e a Parmênides. Em outros trechos encontramos Sócrates falando as pessoas supostamente familiarizadas com a teoria, cujas origens são pitagóricas. Vejamos como essa teoria é explicada em A República.

Comecemos pela pergunta: o que é um filósofo? Literalmente, a palavra significa amante da sabedoria. Mas nem todo aquele que tem curiosidade por saber é filósofo. A definição precisa ser reduzida: um filósofo é alguém que ama a visão da verdade. Um colecionador de arte ama coisas belas, mas isso não o torna um filósofo. O filósofo ama a beleza em si. O amante das coisas belas está sonhando, mas o amante da beleza está acordado. Enquanto o amante da arte só tem opinião, o amante da beleza possui conhecimento. Ora, o conhecimento precisa ter um objeto, precisa ser de algo que é, ou então não é nada, como diria Parmênides. O conhecimento é fixo e, certo, e a verdade livre de erro. Por outro lado, a opinião pode estar equivocada. Mas, como a opinião não é conhecimento do que é, nem tampouco nada, precisa ser tanto do que é quanto que não é, como proporia Heráclito.

Assim, Sócrates acha que todas as coisas particulares, que captamos através dos nossos sentidos possuem traços opostos. Uma estátua particularmente bela também tem alguns aspectos feios. Uma determinada coisa, grande sob um certo ponto de vista, também é pequena sob outro. Tudo isso é objeto de opinião. Mas a beleza e a extensão, como tais, não nos chegam através dos nossos sentidos, são imutáveis e eternas, são objetos do conhecimento. Ao reunir Parmênides e Heráclito, Sócrates elabora a sua teoria das “ideias” ou “formas”, algo novo que não está em nenhum dos dois pensadores anteriores. A palavra grega “ideia” significa “imagem” ou “modelo”.

Essa teoria apresenta um lado lógico e outro metafísico. No lado lógico, temos a distinção entre objetos particulares de algum tipo e as palavras gerais com que os designamos. Assim, a palavra geral “cavalo” refere-se não a este ou àquele cavalo, mas a qualquer cavalo. O seu significa independe dos cavalos particulares e do que lhes acontece, não está no espaço nem no tempo, mas é eterno. No lado metafísico, significa que em algum lugar existe um cavalo “ideal”, o cavalo como tal, único e imutável, e é a isto que se refere a palavra geral “cavalo”. Os cavalos particulares o são na medida em que estão compreendidos no cavalo “ideal”, ou têm uma parte dele. A ideia é perfeita e real, o particular é falho e aparente.

Para nos ajudar a compreender a teoria das ideias, Sócrates esboça a famosa símile da caverna. Os desprovidos de filosofia são como prisioneiros numa caverna. Estão acorrentados e não podem se virar.  Por trás existe um fogo, e diante deles ergue-se a parede nua do fundo da caverna vazia. Nessa parede, como numa tela, eles veem suas próprias sombras e as dos objetos existentes entre eles e o fogo. Como não podem ver nada mais, creem que as sombras são os objetos reais. Afinal, um deles se livra dos grilhões e tateia rumo à boca da caverna. Ali, pela primeira vez, ele vê a luz do sol brilhando sobre os pletóricos objetos do mundo real. Volta à caverna para contar aos companheiros as suas descobertas, e tenta mostrar-lhes que  o seu mundo não é mais do que um tênue reflexo da realidade, um mundo de meras sobras. Mas, tendo visto a luz do sol, a sua visão ficou deslumbrada com aquele brilho e agora ele acha mais difícil perceber as sombras. Tenta mostrar aos outros o caminho da luz, mas estes consideram-no mais tolo do que antes e, portanto, convencê-los não é tarefa fácil. Se somos estranhos perante a filosofia, então somos como esses prisioneiros. Vemos apenas sombras, aparência das coisas. Mas, quando somos filósofos, vemos as coisas fora, à luz do sol da razão e da verdade, e isto é realidade. Esta luz, que nos dá a verdade e a faculdade de conhecer representa a ideia do Bem.

A teoria aqui exposta inspira-se, principalmente, nas ideias pitagóricas […]. Que não é o próprio conceito de Platão, pelo menos no seu período posterior e mais maduro, é algo que parece estar solidamente atestado pelo fato de que, nos últimos diálogos, a teoria das ideias é a primeira destruída e logo desaparece completamente. A tarefa de refutá-la é um dos temas centrais do Parmênides. O encontro de Parmênides e Zenão com Sócrates é muito plausível e poder ser considerado histórico, embora, é claro, o que foi dito na ocasião é menos provável que seja relatado no diálogo. Ainda assim,  todos os oradores refletem as suas próprias personalidades e expressam pontos de vista alinhados com o que sabemos a respeito deles através de fontes independentes. É preciso lembrar que Parmênides, quando jovem, foi influenciado pelos pitagóricos e mais tarde rompeu os vínculos com os ensinamentos deles recebidos. A teoria das ideias, portanto, não é nova para ele, e ele encontra críticas prontas às formulações dadas à mesma pelo jovem Sócrates.

Para começar, Parmênides destaca que não há razão convincente para que Sócrates admita formas para objetos matemáticos e para noções como o bem e o belo e as negue para os elementos e coisas menores. Isto leva a uma questão muito séria. A dificuldade central da teoria socrática das formas é a conexão entre as formas e os particulares. Pois a forma é única e os particulares são muitos. A explicação de Sócrates para o este vínculo utiliza a ideia de participação, mas é um tanto difícil perceber como os particulares podem participar das formas. É claro que a forma inteira não pode estar presente em cada particular, porque então não seria uma forma. A alternativa consiste em que cada particular contenha uma parte da forma, mas então a forma não explica nada.

Porém o pior ainda está por vir. Para explicar a conexão entre a forma e os particulares a ela referentes, Sócrates precisa introduzir a participação, isto em si é uma forma, exemplificada em muitos casos. Mas então devemos perguntar de imediato como esta forma se relaciona, por um lado, com a forma original, e por outro, com o particular. Parece que são necessárias duas outras formas, e assim nos vemos envolvidos numa regressão infinita e viciosa. Cada vez que tentamos fechar uma lacuna introduzindo uma forma, aparecem duas novas lacunas. Preencher essas lacunas torna-se então uma tarefa hercúlea sem os dons de Hércules. Trata-se do famoso argumento do terceiro homem, assim chamado pelo caso especial em que a forma em questão é a do homem. Sócrates tenta evitar a dificuldade ao sugerir que as formas são modelos e que os particulares se parecem com eles. Mas isto também é vítima do argumento do terceiro homem. Assim, Sócrates não consegue explicar como as formas estão ligadas aos seus particulares. Porém isto também pode ser mostrado diretamente. Pois assumiu-se que as formas não são sensíveis, mas sim inteligíveis. Dentro do seu próprio âmbito, só podem se ligar entre si, e o mesmo ocorre com os particulares. Assim, as formas parecem ser incognoscíveis. Se as formas são incognoscíveis, então, naturalmente, são supérfulas , e novamente incapazes de explicar qualquer coisa. Podemos colocar a questão de modo diferente: se as formas, por si mesmas, não são relacionadas ao nosso mundo, são vácuo; se, por outro lado, são relacionadas ao nosso mundo, então não podem pertencer a um mundo próprio, e a doutrina metafísica das formas se torna insustentável.

Mais adiante veremos como o próprio Platão aborda o problema dos universais. Aqui nos limitaremos a observar que a doutrina socrática não suporta um exame minucioso. No diálogo Parmênides, esse assunto não é levado adiante. Parmênides se volta para um problema diferente: demonstrar que nem tudo está correto nem mesmo no âmbito das formas de Sócrates. A elaborada dialética, ao estilo de Zenão, expõe a fragilidade da argumentação original de Sócrates de que as formas são separadas umas das outras, e isto prepara o terreno para a solução de Platão.

No entanto, há outra dificuldade que remonta à origem pitagórica da teoria das ideias. Vimos antes como esse aspecto da teoria nasce da explicação dos objetos do argumento da matemática. Quando o matemático estabelece um teorema sobre os triângulos, aparentemente não se ocupa de nenhuma figura que possa ser desenhada no papel. Pois tal figura tem imperfeições que extrapolam as considerações matemáticas. Por mais que se tente traçar uma linha reta exata, nunca será perfeitamente exata. Donde se conclui que a linha reta perfeita pertence a um mundo diferente, e daí se extrai a ideia de que as formas pertencem a uma ordem de existência diferente da dos objetos sensíveis.

À primeira vista, esta ideia não deixa de ser plausível. Por exemplo, parece razoável sustentar que dois objetos sensíveis sejam quase iguais, mas não completamente, que tendem à igualdade sem jamais alcançá-la. De qualquer modo, pode ser difícil, se não impossível, concluir que são perfeitamente iguais. Por outro lado, tomemos duas coisas desiguais. Aqui, muitas vezes vemos de imediato como são desiguais, de modo que a forma de desigualdade parece se revelar abertamente no mundo sensível. Em vez de formular isto na terminologia das formas, vejamos como tratamos comumente dessas questões. Com naturalidade, dizemos que duas coisa são quase iguais mas não completamente. Porém não faz sentido dizer que duas coisas são quase desiguais, mas não completamente. Esse crítica refuta diretamente a teoria das formas.

Se a teoria das ideias sofrera crítica tão prejudicial por parte dos eleáticos, caberia perguntar: por que Sócrates continuou a sustentá-la sem fazer alterações? Pois com certeza ele deve ter conhecido a força do ataque. No entanto, parece mais apropriado inverter a questão. Foi precisamente devido às dificuldades que Sócrates, em seu interesse intelectual, retrocedeu às questões da ética e da estética. Em todo caso, a bondade humana não é vista no mesmo sentido que, por exemplo, a cor do cabelo. Mas, mesmo neste campo, Sócrates acabou ficando um tanto insatisfeito com a teoria da participação, embora nunca elaborasse outra. No entanto, insinua que a solução deveria ser procurada não nas coisas mas no que podemos dizer sobre elas, nos argumentos. E nessa direção se encaminharam os esforços de Platão sobre o problema dos universais.

*Texto originalmente publicado em: RUSSELL, Bertrand. História do Pensamento Ocidental. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
** Link para o livro “A República de Platão”: www.portalfil.ufsc.br/republica.pdf

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