A Potência do Pensamento – Giorgio Agamben

A Potência do Pensamento.

Giorgio Agamben.*

 

O QUE SIGNIFICA: “EU POSSO”?

O conceito de potência tem, na filosofia ocidental, uma longa história e, pelo menos a partir de Aristóteles, ocupa um lugar central dentro dela. Aristóteles opõe – e, ao mesmo tempo, vincula – a potência (dynamis) ao ato (energeia) e essa oposição, que atravessa tanto a sua metafísica quanto a sua física, foi transmitida por ele como hereditariedade primeiro à filosofia e depois à ciência medieval e moderna. Se decidi falar-lhes do conceito de potência, é porque o meu objetivo não é simplesmente historiográfico. Não se trata, para mim, de dar novamente atualidade a categorias filosóficas há muito caídas no esquecimento; estou convicto, ao contrário, de que esse conceito nunca parou de operar na vida e na história, no pensamento e na práxis daquela parte da humanidade que ampliou e desenvolveu de tal forma a sua “potência”, a ponto de impor o seu “poder” a todo o planeta. Antes, seguindo o conselho de Wittgenstein, segundo o qual os problemas filosóficos tornam-se mais claros se os reformulamos como perguntas sobre o significado das palavras, eu poderia enunciar o tema da minha pesquisa como uma tentativa de compreender o significado do sintagma “eu posso”. O que pretendemos dizer quando dizemos: “eu posso, eu não posso”?

Na breve introdução à coletânea Requiem, Anna Achmatova conta como aquelas poesias nasceram. Eram os anos da Ezovschina e havia meses a poetisa fazia fila em frente à prisão de Leningrado com a esperança de ter notícias do seu filho, preso por delitos políticos. Junto dela, estavam na fila dezenas de outras mulheres que se reencontravam todos os dias no mesmo lugar. Numa manhã, uma dessas mulheres a reconheceu e lhe fez esta única pergunta: “a senhora pode dizer isto”? Achmatova ficou muda por um instante e depois, sem saber por que, deparou-se com a resposta nos lábios: “sim, eu posso”.

Perguntei-me muitas vezes o que Achmatova pretendia dizer. Talvez que tivesse um talento poético tão grande, que soubesse manejar com tanta habilidade a linguagem, a ponto de poder descrever aquela experiência tão atroz, tão difícil de dizer? Não acredito, não era isso que ela queria dizer. Chega para todo homem o momento em que ele deve pronunciar este “eu posso”, que não se refere a uma certeza nem a uma capacidade específica, e que, no entanto, o compromete e o coloca inteiramente em jogo. Este “eu posso” além de qualquer faculdade e de qualquer savoir-faire, essa afirmação que não significa nada, coloca o sujeito imediatamente diante da experiência talvez, mais exigente – e, no entanto, ineludível – com a qual lhe seja dado medir-se: a experiência da potência.

 

O QUE É UMA FACULDADE?

“Há, porém, uma aporia: por que não há sensação dos próprios sentidos (ton aistheseon aisthesis)? Por que, na ausência de objetos externos, eles não provocam sensação, mesmo tendo em si o fogo, a água e os outros elementos dos quais há sensação? Isso ocorre porque a faculdade sensitiva (to aisthetikon) não é em ato, mas apenas em potência (dynamei monon). Por isso ela não sente sensação, assim como o combustível não queima por si só, sem um princípio de combustão; do contrário consumiria a si mesmo e não precisaria de fogo existente em ato (entelecheiai ontos)”.

Nós estamos tão acostumados a representar a sensibilidade como uma faculdade da alma, que esse fragmento do De anima (417a 2-9) não nos parece colocar problemas. O vocabulário da potência penetrou tão profundamente em nós que não nos damos conta de que, naquelas linhas, aparece pela primeira vez um problema fundamental que, como tal, vem à luz, na história do pensamento ocidental, apenas em alguns momentos decisivos (um desses momentos, no pensamento moderno, é a obra de Kant). Esse problema – que é o problema original da potência – enuncia-se na pergunta: “o que significa possuir uma faculdade? De que forma algo como uma ‘faculdade’ existe?”

A Grécia arcaica não concebia a sensibilidade, a inteligência (ou, menos ainda, a vontade) como “faculdades” de um sujeito. A própria palavra aisthesis é, na sua forma, um nome de ação em –sis, que expressa uma atividade real. Como pode existir, portanto, uma sensação na ausência de sensação, uma aisthesis no estado de anestesia? Essas perguntas nos introduzem imediatamente no problema daquilo que Aristóteles chama dynamis, potência (um termo – será bom lembrar – cujo significado é tanto o de potência quanto o de possibilidade, sendo que esses dois significados não deveriam jamais ser dissociados, como infelizmente acontece nas tradições modernas). Quando dizemos que um homem tem a “faculdade” de ver, a “faculdade” de falar (ou, como Hegel escreve e Heidegger repetirá a seu modo, a “faculdade” da morte), quando afirmamos simplesmente “isso não está dentro das minhas faculdades”, já nos movemos na esfera da potência. Ou seja, o termo “faculdade” exprime o modo em que uma certa atividade é separada de si mesma e destinada a um sujeito, o modo em que um ser vivo “tem” a sua práxis vital. Algo como uma “faculdade” de sentir é distinta do sentir em ato, a fim de que isso possa ser referido propriamente a um sujeito. Nesse sentido, a doutrina aristotélica da potência contém uma arqueologia da subjetividade, é a forma com a qual o problema do sujeito se anuncia a um pensamento que ainda não tem essa noção. Exis (de echo, ter), hábito, faculdade é o nome que Aristóteles dá a essa in-existência da sensação (e das outras “faculdades”) em um ser vivo. Aquilo que é assim “tido” não é uma simples ausência, mas tem na realidade a forma de uma privação (no vocabulário de Aristóteles, steresis, privação, está estrategicamente relacionada com exis), ou seja, de algo que atesta a presença daquilo que falta no ato. Ter uma potência, ter uma faculdade significa: ter uma privação. Por isso a sensação não sente a si mesma, como o combustível não queima a si mesmo. A potência é, portanto, a exis de uma steresis: “às vezes”, lê-se em Met. 1019 b, 5-8, “o potente é tal porque tem algo, às vezes porque lhe falta algo. Se a privação é de uma certa forma uma exis, o potente é tal ou porque tem uma certa exis, ou porque tem a steresis dela”.

 

TER UMA PRIVAÇÃO

Que interesse a Aristóteles essa segunda forma da potência (ter uma privação) é evidente na passagem do De anima que segue aquela da qual pegamos a deixa. Aristóteles distingue aqui (417 a 21 sq.) uma potência genérica – que é aquela segundo a qual dizemos que uma criança tem a potência da ciência, ou que é um arquiteto ou chefe de Estado em potência – da potência que compete a quem já tem a exis correspondente àquele certo saber ou àquela certa habilidade. É nesse segundo sentido que se diz que o arquiteto tem a potência de construir mesmo quando não está construindo, ou que o tocador de cítara tem a potência de tocar mesmo quando não toca. A potência que está em questão aqui difere essencialmente da potência genérica que compete à criança. A criança, escreve Aristóteles, é potente no sentido de que deverá sofrer uma alteração por meio do aprendizado; aquele que já possui uma técnica, ao contrário, não deve sofrer uma alteração, mas é potente a partir de uma exis, que pode não colocar em ato ou atuar, passando de um não ser em ato a um ser em ato (ek tou… me energein eis to energein – 417b, 1). Quer dizer, a potência é definida essencialmente pela possibilidade do seu não-exercício, assim como exis significa: disponibilidade de uma privação. Ou seja, o arquiteto é potente enquanto pode não-construir, e o tocador de cítara é tal porque, diferentemente daquele que se diz potente apenas em sentido genérico e que simplesmente não pode tocar a cítara, ele pode não-tocar a cítara.

É desse modo que Aristóteles responde, na Metafísica, à tese dos Megáricos, que afirmavam, aliás, não sem boas razões, que a potência existe apenas no ato (energei mono dynastai, otan me energei ou dynastai – 1046b, 29-30). Se isso fosse verdade, objeta Aristóteles, nós não poderíamos considerar arquiteto o arquiteto mesmo quando não constrói, nem chamar o médico de médico no momento em que ele não está exercitando a sua arte. Isto é, está em questão o modo de ser da potência, que existe na forma da exis, da soberania sobre uma privação. Há uma forma, uma presença daquilo que não é em ato, e essa presença privativa é a potência. Como Aristóteles afirma sem reservas numa passagem extraordinária da sua Física: “a steresis, a privação, é como uma forma (eidos ti, uma espécie de rosto: eidos de edenai, ver)” (193b 19-20).

 

DO ESCURO

Uma das figuras mais significativas dessa presença privativa da potência é, no De anima, o escuro (skotos). Aristóteles trata aqui da sensação e, particularmente, da visão (418a, 26 – 418b, 31). Objeto da vista, ele escreve, é a cor e mais alguma outra coisa para a qual não temos um nome, mas que ele sugere chamar de o diáfano (diaphanes). O termo aqui não se refere simplesmente aos corpos transparentes, como o ar ou a água, mas a uma certa “natureza” (physis) presente neles e que constitui aquilo que é propriamente visível em todos os corpos. Aristóteles não define essa natureza, mas se limita a postular sua existência (esti ti diaphanes, há o diáfano); ele afirma, porém, que o ato dessa natureza como tal é a luz e que as trevas são a sua potência (418b, 9-10). E se a luz é, como ele acrescenta logo depois, a cor do diáfano em ato (chroma… tou diaphanous otan ei entelecheiai diaphanes), então não seria errado definir o escuro, que é a steresis da luz, como a cor da potência. De qualquer forma, é apenas uma e a mesma natureza que se apresenta ora como as trevas e ora como luz (e gar aute physis ote men skotos ote de phos estin – 418b, 31).

(O lugar comum que sustenta que a metafísica antiga seja uma metafísica da luz não é, portanto, correto. Trata-se, na verdade, de uma metafísica do diáfano, dessa physis anônima capaz tanto das trevas quanto da luz).

Algumas páginas depois, fa-lando do senso comum, Aristóteles se pergunta como se dá o fato de, enquanto vemos, sentimos que vemos (aisthanometha oti oromen) ou, enquanto ouvimos, sentimos que ouvimos. No que concerne à vista, isso pode acontecer ou porque sentimos ver com um outro sentido ou com a própria vista. A resposta de Aristóteles é a de que nós sentimos ver com o mesmo sentido com o qual vemos. Isso implica, porém, uma aporia: “dado que sentir com a vista significa ver, e aquilo que se vê é a cor mais aquilo que a cor tem, então, se aquilo que vemos é aqui o próprio vidente, é preciso que o princípio do ver (to oron proton) seja, por sua vez, colorido. É claro, portanto, que ‘sentir com a vista’ tem mais de um significado, já que mesmo quando não vemos, distinguimos com a vista as trevas da luz. Portanto, o princípio da visão é de algum modo colorido” (425b 17-25).

Nessa passagem extraordinária, na qual o problema da potência mostra a sua relação essencial com o da auto-afecção, Aristóteles retoma e desenvolve a pergunta inicial: “por que, na ausência de objetos externos, não há sensação dos próprios sentidos?”, à qual tinha respondido afirmando que isso ocorre porque a sensação é em potência, e não em ato. As considerações seguintes permitem uma melhor compreensão do significado dessa resposta. Quando não vemos (quer dizer: quando a nossa vista permanece em potência), ainda assim nós distinguimos o escuro da luz, vemos, por assim dizer, as trevas como cor da visão em potência. O princípio da visão “é, de alguma forma, colorido”, e as suas cores são o escuro e a luz, a potência e o ato, a privação e a presença. Isso significa que sentir ver é possível porque o princípio da visão existe tanto como potência de ver quanto como potência de não-ver, e esta última não é uma simples ausência, mas algo existente, a exis de uma privação. A neurofisiologia moderna parece, neste ponto, estar de acordo com Aristóteles. Quando, pela ausência de fontes luminosas ou porque estamos com os olhos fechados, não vemos objetos externos, isso não significa para a retina a ausência de todas as atividades. O que acontece, ao contrário, é que a falta de luz coloca em função uma série de células periféricas chamadas off-cells, que produzem aquela auto-afecção particular da retina que nós chamamos de escuro. A escuridão é realmente a cor da potência, e a potência é essencialmente a disponibilidade de uma steresis, potência de não-ver.

 

POTÊNCIA PARA AS TREVAS

Em seu comentário ao De anima, Temístio nota com singular perspicácia todas as implicações dessa passagem. “Se a sensação não tivesse uma potência tanto para o ato como para o não-ser-em-ato, se ela fosse sempre e somente em ato, ela não poderia jamais distinguir o escuro (skotos) nem ouvir o silêncio; da mesma forma, se o pensamento (nous) não fosse capaz tanto do pensamento quanto do não-pensamento (anoia), não poderia jamais conhecer o sem-forma (amorphon), o mal, o sem-figura (aneideon)… Se o pensamento não tivesse algo em comum com a potência, não conheceria a privação (steresis)”.

A grandeza – mas também a miséria – da potência humana está no fato de ela ser, também e sobretudo, potência de não passar ao ato, potência para as trevas. Se se considera que skotos, no grego homérico, é antes de tudo as trevas que invadem o homem no momento da morte, é possível medir todas as conseqüências dessa vocação anfíbia da potência. A dimensão que ela destina ao homem é o conhecimento da privação, ou seja, nada menos que a mística como fundamento secreto de todo o seu saber e de todo o seu agir (a idéia medieval de um Aristoteles mysticus mostra, aqui, a sua pertinência). Se a potência fosse, de fato, apenas potência de ver ou fazer, se ela existisse como tal apenas no ato que a realiza (e uma potência assim é aquela que Aristóteles chama de natural e destina aos elementos e aos animais alógicos), então nunca poderíamos ter a experiência do escuro e da anestesia, nunca poderíamos conhecer e, portanto, dominar a steresis. O homem é o senhor da privação porque mais que qualquer outro ser vivo ele está, no seu ser, destinado à potência. Mas isso significa que ele está, também, destinado e abandonado a ela, no sentido de que todo o seu poder de agir é constitutivamente um poder de não-agir e todo o seu conhecer; um poder de não-conhecer.

 

TODA POTÊNCIA É IMPOTÊNCIA

É no livro theta da Metafísica que Aristóteles procurou confrontar-se exaustivamente com as ambigüidades e as aporias da sua teoria da potência. O momento talvez decisivo desse confronto está nas passagens em que ele define o co-pertencer constitutivo da potência e da impotência. “A impotência (adynamia)”, ele escreve (1046a 29-32), “é uma privação contrária à potência (dynamis). Toda potência é impotência do mesmo e em relação ao mesmo (do qual é potência) (tou autou kai kata to auto pasa dynamis adynamia)”. Adynamia, impotência não significa aqui ausência de toda potência, mas potência de não (-passar ao ato), dynamis me energein. A tese define, assim, a ambivalência específica de toda potência humana, que, na sua estrutura originária, se mantém relacionada com a própria privação, é sempre – e em relação à mesma coisa – potência de ser e de não ser, de fazer e de não fazer. É essa relação que constitui, para Aristóteles, a essência da potência. O ser vivo, que existe no modo da potência, pode a própria impotência, e apenas dessa forma possui a própria potência. Ele pode ser e fazer porque se mantém relacionado ao próprio não ser e não-fazer. Na potência, a sensação é constitutivamente anestesia, o pensamento não-pensamento, a obra inoperosidade. Poucas linhas depois, Aristóteles precisa ainda mais esse estatuto anfibólico da potência humana: “Aquilo que é potente (dynatos) pode (endechetai) não ser em ato (me energein). Aquilo que é potente de ser pode tanto ser quanto não ser. O mesmo é, de fato, potente de ser e de não ser (to auto ara dynaton kai einai kai me einai)” (1050b 10-). Dechomai significa “acolho, recebo, admito”. Potente é aquilo que acolhe e deixa acontecer o não ser e esse acolher do não ser define a potência como passividade e paixão fundamental. E é nesse dúplice caráter da potência que, como é evidente no próprio termo com o qual Aristóteles expressa o contingente (to endechomenon), radica-se o problema da contingência, da possibilidade de não ser.

Se lembramos que, na Metafísica, os exemplos da potência-de-não são quase sempre retirados do âmbito das técnicas e dos saberes humanos (a gramática, a música, a arquitetura, a medicina etc.), podemos então dizer que o homem é o ser vivo que existe em modo eminente na dimensão da potência, do poder e do poder-não. Toda potência humana é, cooriginariamente, impotência; todo poder-ser ou -fazer está constitutivamente relacionado, para o homem, com a própria privação. E essa é a origem da incomensurabilidade da potência humana, muito mais violenta e eficaz que aquela dos outros seres vivos. Os outros seres vivos podem apenas a potência específica deles, podem apenas este ou aquele comportamento inscrito na vocação biológica deles; o homem é o animal que pode a própria impotência. A grandeza da sua potência é medida pelo abismo da sua impotência.

 

POTÊNCIA, NÃO LIBERDADE

Poder-se-ia sentir a tentação de reconhecer nessa doutrina da natureza anfibólica de toda potência o lugar no qual o problema moderno da liberdade poderia encontrar o seu fundamento. Isso ocorre porque a liberdade como problema nasce justamente do fato de que todo poder é também, imediatamente, um poder-não, toda potência também uma impotência. Autenticamente livre, nesse sentido, seria não quem pode simplesmente realizar esse ou aquele ato, nem simplesmente quem pode não realizá-lo, mas aquele que, mantendo-se relacionado com a privação, pode a própria impotência.

Como, então, Aristóteles, além de não mencionar nunca nesse contexto o termo “liberdade”, também não evoca de nenhuma forma o problema da vontade e da decisão? É evidente, como Schlomo Pines mostrou com clareza, que para um grego o conceito de liberdade define um status e uma condição social e não, como para os modernos, algo que possa se referir à experiência e à vontade de um sujeito. Mas decisivo é o fato de que, para Aristóteles, a potência, enquanto se determina como exis de uma privação, como potência de não-fazer e de não-ser, não pode ser destinada a um sujeito como um direito ou como uma propriedade. No dicionário filosófico contido no livro delta da Metafísica (1022b, 7-10), lê-se que se a exis é uma relação entre aquele que tem e aquilo que é tido, então “é impossível ter uma exis (echein exin; exis, habitus é o deverbal de “ter”), já que se chegaria ao infinito, se fosse possível ter o hábito daquilo que se tem”.

Que a exis de uma potência não possa ser, por sua vez, possuída, isso significa a impossibilidade de um sujeito no sentido moderno, isto é, de uma consciência auto-reflexiva como centro de imputação das faculdades e dos hábitos. Mas isso significa também que o problema da potência não tem, para um grego – e provavelmente com razão -, nada a ver com o problema da liberdade de um sujeito.

 

NADA HAVERÁ DE IMPOTENTE

Chegou o momento de questionar mais de perto a relação entre potência e impotência, entre poder e poder-não. Como pode, de fato, uma potência passar ao ato, se toda potência já é sempre potência de não passar ao ato? E como podemos pensar o ato da potência-de-não? O ato da potência de tocar piano é certamente, para o pianista, a execução de um trecho no piano; mas qual será, para ele, o ato da sua potência de não tocar? E o que acontece com essa potência de não tocar no momento em que ele começa a tocar? Assim, o ato da potência de pensar será pensar este ou aquele pensamento; mas como pensar o ato da potência de não-pensar? Será que as duas potências são tão assimétricas e heterogêneas que essas perguntas simplesmente não têm sentido? E, no entanto, se nas palavras de Aristóteles, “toda potência é impotência do mesmo e em relação ao mesmo”, o problema do destino da impotência na passagem ao ato não pode simplesmente ser deixado de lado.

A resposta que Aristóteles dá a essas perguntas constitui, mesmo na sua drástica brevidade, um dos resultados mais extraordinários do seu gênio filosófico; e, todavia, não foi ouvida na tradição da filosofia:

Esti de dynaton touto, hoi ean yparxei he energeia hou legetai echein ten dynamin, ouden estai adynaton. (Met. 1047a, p. 24-25).

É potente aquilo para o qual, se ocorre o ato do qual é dito haver a potência, nada haverá de impotente.

A leitura comum entende essa frase como se Aristóteles quisesse dizer: é possível, isto em relação a que não há nada de impossível. Já Heidegger, no seu curso sobre o livro theta da Metafísica, tinha ironizado sobre a “vácua sutileza” dos intérpretes que, com um “sentimento de triunfo mal dissimulado”, atribuem a Aristóteles uma semelhante tautologia. A impotência, da qual se diz que no momento do ato não será nada, não pode ser, na verdade, senão aquela adynamia que, segundo Aristóteles, pertence a toda dynamis: a potência de não (ser ou fazer). A tradução correta é, portanto: “é potente aquilo para o qual, se ocorre o ato do qual é dito haver a potência, nada haverá de potente não (ser ou fazer)”. Mas como entender, então: “nada haverá de potente não -“? Como a potência pode neutralizar a impotência que lhe co-pertence?

Uma passagem do De Interpretatione fornece algumas indicações preciosas. Em relação às negações dos enunciados modais, Aristóteles distingue, e ao mesmo tempo relaciona, o problema da potência e o da enunciação modal. Enquanto a negação de um enunciado modal deve negar o modo e não o dictum (por isso a negação de “possível que seja” é “não possível que seja” e a negação de “possível que não seja” é “não possível que não seja”), no plano da potência as coisas não são diferentes e negação e afirmação não se excluem. “Já que aquilo que é potente não é sempre em ato”, escreve Aristóteles, “a negação também lhe pertence: de fato, pode até não caminhar aquilo que é capaz de caminhar, e pode não ver aquilo que pode ver” (21b, 14-16). Por isso, no livro theta e no De anima, a negação da potência (ou melhor, a sua privação) tem, como vimos, sempre a forma: “pode não” (e nunca a forma: “não pode”). “Por isso parece que as expressões ‘possível que seja’ e ‘possível que não seja’ sucedem uma à outra, já que a mesma coisa pode ser e não ser. As enunciações desse gênero não são, portanto, contraditórias. Por outro lado, ‘possível que seja’ e ‘não possível que seja’ nunca estão juntas” (21b, 35-22a, 2).

Se chamamos de privação o estatuto da negação na potência, como entender em modo privativo a dupla negação contida na frase: “nada haverá de potente não (ser ou fazer)”? Enquanto não contraditória em relação à potência de ser, a potência de não ser não deve aqui se anular simplesmente, mas, voltando-se para si mesma, deverá assumir a forma de um poder não-não ser. A negação privativa de “potente não ser” é “potente não-não ser” (e não “não potente de não ser”).

Aquilo que Aristóteles diz na passagem em questão é, portanto, algo muito diferente e mais interessante do que aquilo que a leitura tautológica dos comentadores modernos lhe faz dizer. Se uma potência de não ser pertence originalmente a toda potência, será verdadeiramente potente apenas quem, no momento da passagem ao ato, não anulará simplesmente a própria potência de não, nem a deixará para trás em relação ao ato, mas fará com que ela passe integralmente nele como tal, isto é, poderá não-não passar ao ato”.

 

DOAÇÃO E SALVAÇÃO

Podemos agora responder às perguntas que tínhamos feito: o que acontece com a potência de não, no momento em que o ato se realiza? Como pensar o ato de uma potência de não – ? A interpretação que propomos obriga-nos a pensar, de uma forma nova e não banal, a relação entre potência e ato. A passagem ao ato não anula nem exaure a potência, mas esta se conserva no ato como tal e marcadamente na sua forma eminente de potência de não (ser ou fazer). É o que Aristóteles diz com clareza numa passagem do De anima (417b, 2-16), da qual podemos agora compreender todas as implicações decisivas.

“Padecer (paschein) não é um termo simples, mas, em um certo sentido, significa uma certa destruição por obra do contrário, em um outro, significa na verdade a conservação (soteria) daquilo que é em potência naquilo que é em ato e se parece com ele, da mesma forma que a potência (se conserva) em relação ao ato. De fato, aquele que possui a ciência torna-se contemplante em ato (theoroun) e isso não é uma alteração (alloiusthai, tornar-se outro), visto que há doação para si mesmo (epidosis eis eauto) e para o ato”.

A potência (a única potência que interessa a Aristóteles, aquela que parte de uma exis) não passa ao ato sofrendo uma destruição ou uma alteração; o seu paschein, a sua passividade consiste, na verdade, em uma conservação e em um aperfeiçoamento de si (epidosis, literalmente “doação acrescida”, significa também “acréscimo”: Willem van Moerbeke traduz in ipsum id additio, e Temístio glosa teleiosis, cumprimento).

Nós devemos ainda medir todas as conseqüências dessa figura da potência que, doando-se a si mesma, se salva e cresce no ato. Ela obriga-nos a repensar do zero não apenas a relação entre a potência e o ato, entre o possível e o real, mas também a considerar de uma forma nova, na estética, o estatuto do ato de criação e da obra, e na política, o problema da conservação do poder constituinte no poder constituído. Mas é toda a compreensão do ser vivo que deve ser revogada em questão, se é verdade que a vida deve ser pensada como uma potência que excede incessantemente as suas formas e as suas realizações. Talvez apenas sob essa perspectiva podemos enfim entender a natureza do pensamento, se é verdade, como Aristóteles não se cansa de repetir, que é a potência que define a sua essência. Como ele escreve numa passagem ampliada do De anima (429b, 6-10):

Quando (o pensamento) tornou-se cada coisa, no sentido em que aquele que sabe é dito tal em ato (e isso acontece quando pode passar ao ato por si), então de alguma forma ele permanece também em potência… e pode portanto pensar a si mesmo.

Aquilo que a tradição filosófica habituou-nos a considerar como o vértice do pensamento e, ao mesmo tempo, como o próprio cânone da energeia e do ato puro – o pensamento do pensamento – é, na verdade, a doação extrema da potência a si mesma, a figura completa da potência do pensamento.

*Originalmente publicado em: Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006.

**Link para o texto: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100002&script=sci_arttext

 

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