A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana. – Gaston Bachelard

A casa. Do porão ao sótão. O sentido da cabana.

Gaston Bachelard.*

Quem virá bater àporta?

Numa porta aberta se entra

Numa porta fechada um antro

O mundo bate do outro lado de minha porta.

Pierre Albert-Birot

Les Amusements Naturels, pág. 21 7.

I

Para um estudo fenômeno lógico dos valores da intimidade do espaço inte­rior, a casa é, evidentemente, um ser privilegiado, sob a condição, bem entendido, de tomarmos, ao mesmo tempo, a sua unidade e a sua complexidade, tentando integrar todos os seus valores particulares num valor fundamental. A casa nos fornecerá simultaneamente imagens dispersas e um corpo de imagens. Num e noutro caso, provaremos que a imaginação aumenta os valores da realidade. Uma espécie de atração concentra as imagens em torno da casa. Através das lem­branças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas em que já desejamos morar, podemos isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificativa para o valor singular que atribuímos a todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central.

 

Para resolvê-lo, não basta considerar a casa como um “objeto” sobre o qual pudéssemos fazer reagir julgamentos e devaneios. Para um fenomenólogo, para um psicanalista, para um psicólogo (estando os três pontos de vista dispostos numa ordem de interesses decrescentes), não se trata de descrever casas, de deta­lhar os seus aspectos pitorescos e de analisar as razões de seu conforto. É preciso, ao contrário, superar os problemas da descrição — seja essa descrição objetiva ou subjetiva, isto é, que ela diga fatos ou impressões — para atingir as virtudes primeiras, aquelas em que se revela uma adesão, de qualquer forma, inerente à função primeira de habitar. O geógrafo, o etnógrafo, podem descrever bem os tipos mais variados de habitação. Sob essa variedade, o fenomenólogo faz o esforço preciso para compreender o germe da felicidade central, seguro e imedia­to. Encontrar a concha inicial, em toda moradia, mesmo no castelo, eis a tarefa primeira do fenomenólogo.

Mas quantos problemas conexos encontraremos se quisermos determinar a realidade profunda de cada um dos matizes de nossa atração por um lugar esco­lhido ! Para um fenomenólogo, o matiz deve ser tomado como um fenômeno psicológico de primeira ordem. O matiz não é uma coloração superficial suple­mentar. É preciso dizer então como habitamos nosso espaço vital de acordo com todas as dialéticas da vida, como nos enraizámos, dia a dia, num “canto do mundo”.

Pois a casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz freqüentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acep­ção do termo. Até a mais modesta habitação, vista intimamente, é bela. Os escri­tores de “aposentos simples” evocam com freqüência esse elemento da poética do espaço. Mas essa evocação é sucinta demais. Tendo pouco a descrever no apo­sento modesto, tais escritores quase não se detêm nele. Caracterizam o aposento simples em sua atualidade, sem viver na verdade a sua primitividade, uma primi­tividade que pertence a todos, ricos e pobres, se aceitarem sonhar.

 

Mas nossa vida adulta é tão despojada dos primeiros bens, as ligações antropocósmicas se encontram tão desguarnecidas, que não sentimos seu primeiro vín­culo no universo da casa. Filósofos não faltam que “mundificam” abstratamente, que encontram um universo pelo jogo, dialético do eu e do não-eu. Eles conhecem precisamente o universo antes da casa, o horizonte antes da pousada. Ao contrá­rio, os verdadeiros pontos de partida da imagem, se os estudarmos fenomenologi­camente, poderão dizer-nos concretamente quais são os valores do espaço habita do, o não-eu que protege o eu.

 

Chegamos aqui a uma recíproca cujas imagens deveremos explorar: todo espaço verdadeiramente habitado traz a essência da noção de casa. Veremos, no decorrer de nossa obra, como a imaginação trabalha nesse sentido quando o ser encontrou o menor abrigo: veremos a imaginação construir “paredes” com som­bras impalpáveis, reconfortar-se com ilusões de proteção ou, inversamente, tre­mer atrás de um grande muro, duvidar das mais sólidas muralhas. Em suma, na mais interminável dialética, o ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo. Vive a casa em sua realidade e em sua virtualidade, através do pensamento e dos sonhos.

 

Por conseqüência, todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm valores de onirismo consoante. Não é mais em sua positividade que a casa é verdadeiramente “vivida”, não é só na hora presente que se reconhecem os seus benefícios. O verdadeiro bem-estar tem um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova. A velha locução: “Carregamos na casa nossos deu­ses domésticos” tem mil variantes. E o devaneio se aprofunda a tal ponto que um domínio imemorial, para além da mais antiga memória, se abre para o sonhador do lar. A casa, como o fogo, como a água, nos permitirá_evocar no prossegui­r mento de nossa obra, luzes fugidias de devaneio que clareiam a síntese memo­rial e da lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar. Uma e outra trabalham_para_seu aprofundamento mútuo. Uma e a outra constituem, na ordem dos valores, a comunhãoda lemhrança e da imagem.

Assim, a casa não vive somente o dia-a-dia, no fio de uma história, na narrativa de nossa história. Pelos sonhos, as diversas moradas de nossa vida se interpene­tram e guardam os tesouros dos dias antigos. Quando, na nova casa, voltam as lembranças das antigas moradias, viajamos até o país da Infância Imóvel, imóvel como o Imemorial. Vivemos fixações, fixações de felicidade. (1) Reconfortamo­-nos revivendo lembranças de proteção. Alguma coisa fechada deve guardar as lembranças deixando-lhes seus valores de imagens. As lembranças do mundo exterior nunca terão a mesma tonalidade das lembranças da casa.. Evocando as lembranças da casa, acrescentamos valores de sonho; nunca somos verdadeiros historiadores, somos sempre um pouco poetas e nossa emoção traduz apenas, quem sabe, a poesia perdida.

 

Assim, abordando as imagens da casa com o cuidado de não romper a soli­dariedade da memória e da imaginação, esperamos fazer sentir toda a elastici­dade psicológica de uma imagem que nos comove a graus de profundidade insus­peitos. Pelos poemas, talvez mais do que pelas lembranças, tocamos o fundo poético do espaço da casa.

 

Nessas condições, se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz. Somente os pensamentos e as experiências sancionam os valores humanos. Ao devaneio pertencem os valores que marcam o homem em sua profundidade. O devaneio tem mesmo um privilégio de autovalorização. Ele desfruta diretamente seu ser. Então, os lugares… onde se vê o devaneio se reconstituem por si mesmos num novo devaneio. É justamente porque as lem­branças das antigas moradias são revividas como devaneios que as moradias do passado são em nós imperecíveis.

 

Nosso objetivo está claro agora: é necessário mostrar que a casa é um dos maiores poderes de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio que faz a ligação é o devaneio. O passa­do, o presente e o futuro dão à casa dinamismos diferentes, dinamismos que freqüentemente intervém, às vezes se opondo, às vezes estimulando-se um ao outro. A casa, na vida do homem, afasta contingências, multiplica seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. Ela é corpo e alma.

 

É o primeiro mundo do ser humano. Antes de ser “atirado ao mundo”, como o pro­fessam os metafísicos apressados, o homem é colocado no berço da casa. E sem pre, em nossos devaneios, a casa é um grande berço. Uma metafísica concreta não pode deixar de lado esse fato, esse simples fato, na medida em que esse fato é um valor, um grande valor ao qual voltamos em nossos devaneios. O ser é imediatamente um valor. A vida começa bem; começa fechada, protegida, agasa­lhada no seio da casa.

 

Do nosso ponto de vista, do ponto de vista do fenomenólogo que vive das origens, a metafísica consciente que toma seu lugar no momento em que o ser é “atirado no mundo”, é uma metafísica de segunda categoria. Ela passa superfi­cialmente pelas preliminares onde o ser é o estar-bem, onde o ser humano é colo­cado num estar-bem no bem-estar associado primitivamente ao ser. Para ilustrar a metafísica da consciência, será preciso esperar as experiências em que o ser é atirado fora, isto é, no estilo de imagem que estudávamos: posto na porta, fora do ser da casa, circunstância em que se acumulam a hostilidade dos homens e a hostilidade do universo. Mas uma metafísica completa, que englobe a consciência e o inconsciente, deve deixar no interior o privilégio de seus valores. No interior do ser, no ser interior, um calor acolhe o ser, envolve o ser. O ser reina numa espécie de paraíso terrestre da matéria, fundido na doçura de uma matéria ade­quada. Parece que, nesse paraíso material, o ser mergulha na fartura, é cumulado de todos os bens essenciais.

Quando se sonha com a casa natal, na profundidade extrema do devaneio, participa-se desse calor primeiro, dessa matéria bem temperada do paraíso mate­rial. É nesse ambiente que vivem os seres protetores. Teremos que voltar a falar sobre a maternidade da casa. No momento, gostaríamos de indicar a plenitude essencial do ser da casa. Nossos devaneios nos levam até aí. E o poeta bem sabe que a casa mantém a infância imóvel ”em seus braços” (2):

Casa, deusa da pradaria, ó luz do entardecer, De súbito alcanças uma face quase humana. Estás perto de nós, abraçando, abraçados.

II

Bem entendido, é graças à casa que um grande número de nossas lembran­ças estão guardadas e se a casa se complica um pouco, se tem porão e sótão, can­tos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracteri­zados. Voltamos a eles durante toda a vida em nossos devaneios. Um psicanalista deveria portanto dar atenção a essa simples localização das lembranças. Como indicamos em nossa Introdução, daríamos a essa análise auxiliar da psicanálise o nome de topoanálise. A topoanálise seria então o estudo psicológico sistemático dos lugares físicos de nossa vida íntima. No teatro do passado que é a nossa memória, o cenário mantém os personagens em seu papel dominante. Às vezes acreditamos conhecer-nos no tempo, ao passo que se conhece apenas uma série de fixações nos espaços da estabilidade do ser, de um ser que não quer passar no tempo, que no próprio passado, quando vai em busca do tempo perdido, quer “suspender” o vôo do tempo. Em seus mil alvéolos, o espaço retém o tempo comprimido. O espaço serve para isso.

 

Se quisermos ir além da história, ou mesmo permanecendo na história, sepa­rar da nossa história a história sempre contingente demais dos seres que a obstruíram, observaremos que o calendário de nossa vida só pode ser estabele­cido na sua imaginária. Para analisar nosso ser na hierarquia de uma ontologia, para psicanalisar nosso inconsciente entrincheirado nas moradias primitivas, é preciso, à margem da psicanálise normal, dessocializar nossas grandes lembranças e atingir o plano dos devaneios que trazíamos conosco nos espaços de nossas solidões. Para tais indagações, os devaneios são mais úteis que os sonhos. E tais indagações mostram que os devaneios podem ser bem diferentes dos sonhos (3).

 

Então, diante dessas solidões, o topoanalista pergunta: O aposento era grande? O sótão era cheio de coisas? O canto era quente? De onde vinha a luz? Como, também nesses espaços, o ser sentia o silêncio? Como saboreava ele os silêncios tão especiais das moradias diversas do devaneio solitário? Aqui o espaço é tudo. porque o tempo não mais anima a memória. A memó­ria — coisa estranha! — não registra a duração concreta, a duração no sentido bergsoniano. Não se podem reviver as durações abolidas. Só se pode pensá-lãs na linha de um tempo abstrato privado de toda densidade. É pelo espaço, é no espa­ço que encontramos os belos fósseis de uma duração concretizados em longos estágios. O inconsciente estagia. As lembranças são imóveis e tanto mais sólidas í quanto mais bem espacializadas. Localizar uma lembrança no tempo não é uma preocupação de biógrafo e quase corresponde exclusivamente a uma espécie de história externa, a uma história para uso externo, para comunicar aos outros. Mais profunda que a biografia, a hermenêutica deve determinar os centros de des­tino, desembaraçando a história de seu tecido temporal conjuntivo sem ação sobre nosso destino. Mais urgente que a determinação das datas é, para o conhe­cimento da intimidade, a localização nos espaços de nossa intimidade.

 

A psicanálise situa freqüentemente as paixões “no século”. De fato, as pai­xões são curtidas na solidão. É fechado na sua solidão que o ser de paixão prepa­ra suas explosões ou suas façanhas. E todos os espaços de nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são em nós indeléveis. E é o ser precisamente que não quer apagá-los. Ele sabe por instinto que os espaços da sua solidão são constitutivos. Mesmo quando esses espaços estão para sempre riscados do presente, estranhos a todas as promessas de futuro, mesmo quando não se tem mais nenhum sótão, mesmo quando a água-furtada desapareceu, ficará para sempre o fato de termos amado um sótão, de ter­mos vivido numa água-furtada. Voltamos a esses lugares nos sonhos noturnos. E esses redutos têm valor de concha. E, quando vamos ao fundo dos labirintos do sono, quando tocamos nas regiões de sono profundo, conhecemos talvez uma tranqüilidade ante-humana. O ante-humano atinge nesse ponto o imemorial. Mas. no devaneio do dia, a lembrança de solidões estreitas, simples, comprimidas, são

para nós experiências do espaço reconfortante, de um espaço que não deseja alar­gar-se, mas que sobretudo desejaria ser possuído ainda. Podíamos outrora achar a água-furtada pequena demais, fria no inverno, quente no verão. Mas agora, na lembrança reencontrada pelo devaneio, não se sabe por que sincretismo, a água-furtada é pequena e grande, quente e fresca, sempre reconfortante.

III

Por conseqüência, na base mesma da topoanálise, temos que introduzir um matiz. Fazíamos notar que o inconsciente é localizado. Devemos acrescentar agora que o inconsciente está bem localizado, tranqüilamente instalado. Está no espaço da sua felicidade. O inconsciente normal sabe estar à vontade em qualquer lugar. A psicanálise ajuda os inconscientes deslocados, inconscientes brutalmente ou insidiosamente deslocados. Mas a psicanálise prefere colocar o ser em movi­mento a tranqüilizá-lo. Ela convida o ser a viver fora dos abrigos do inconsciente, a entrar nas aventuras da vida, a sair de si. E, naturalmente, sua ação é salutar. Uma vez que também é preciso dar um destino de exterior ao ser do interior. Para acompanhar a psicanálise nessa ação salutar, seria preciso empreender uma topoanálise de todos os espaços que nos chamam fora de nós mesmos. Ainda que centremos nossas pesquisas nos devaneios da tranqüilidade, não devemos esque­cer que há um devaneio do homem que anda, um devaneio do caminho.

 

Levai-me, caminhos. . .

 

diz Marceline Desbordes-Valmore, pensando na Flandres natal, Un ruisseau de Ia Scarpe (Um Riacho do Scarpe).

 

E que belo objeto dinâmico é um caminho! Como permanecem precisos para a consciência muscular os caminhos familiares da colina! Um poeta evoca todo esse dinamismo num único verso:

 

O ‘meus caminhos e sua cadência

(Jean Caubère, Déserts, ed. Debresse. pág. 38.)

 

Quandjjj^ejvivp_dinamicamente o caminho que “percorria penosamente” a colina, estou certo de que aquele caminho tinha músculos e contra músculos. Em meu quarto parisiense, é um bom exercício lembrar-me assim do caminho. Escre­vendo essa página, sinto-me liberado de meu dever de passear: estou certo de ter saído de minha casa.

 

Encontraríamos ainda mil intermediários entre a realidade e os símbolos se déssemos às coisas todos os movimentos que elas sugerem. George Sand, sonhando nas margens de um caminho de areia amarela, vê passar a vida. Ela escreve: “Que haverá de mais belo que um caminho? É o símbolo e a imagem da vida ativa e variada”. (Consuelo, II, pág. 116.)

Cada pessoa então deveria falar de suas estradas, de seus entroncamentos, de seus bancos. Cada pessoa deveria preparar o cadastro de seus campos per­didos. Thoreau tem — é ele que o diz — o plano dos campos inscrito em sua alma. E Jean Wahl pode escrever:

 

O recorte das cercas É em mim que o tenho

(Poèmes, pág. 46.)

 

Cobrimos assim o universo de nossos desenhos vividos. Esses desenhos não precisam ser exatos. Apenas é preciso que sejam tonalizados pelo modo de ser do nosso espaço interno. Mas que livro seria necessário escrever para esclarecer todos esses problemas! O espaço chama a ação, e antes da ação a imaginação trabalha. Ela ceifa e lavra. Seria preciso falar dos benefícios prestados por todas essas ações imaginárias. A psicanálise multiplicou suas observações sobre o comportamento projetivo, sobre os caracteres extrovertidos sempre prontos a exteriorizar suas impressões íntimas. Uma topoanálise exteriorista precisaria tal­vez esse comportamento projetivo definindo os devaneios de objetos. Mas, na pre­sente obra, não podemos fazer, como conviria, a geometria dupla, a dupla físico-imaginária da extroversão e da introversão. Aliás, não acreditamos que essas duas físicas tenham a mesma carga psíquica. É à região de intimidade, na região em que a carga psíquica é dominante, que consagramos nossas pesquisas.

 

Vamos então nos dedicar ao poder de atração de todas as regiões de intimi­dade. Não há intimidade verdadeira que afaste. Xodós os espaços de intimidade se caracterizam por uma atração. Repitamos uma vez mais que seu ser é o bem-estar. Nessas condições, a topoanálise tem a marca de uma topofilia. É no sentido dessa valorização que devemos estudar os abrigos e os aposentos.

IV

Os valores de abrigo são tão simples, tão profundamente enraizados no inconsciente, que os encontramos mais facilmente por uma simples evocação do que por uma descrição minuciosa. Nesse caso o matiz exprime a cor. A palavra de um poeta, já que ele toca o ponto exato, sacode as camadas profundas de nosso ser.

O pitoresco excessivo de uma moradia pode esconder sua intimidade. É ver­dadeiro na vida. Mais verdadeiro ainda no devaneio. As verdadeiras casas da lembrança, as casas aonde os nossos sonhos nos levam, as casas ricas de um oni­rismo fiel, são avessas a qualquer descrição. Descrevê-las seria fazê-las visitar. Do presente, pode-se talvez dizer tudo, mas do passado ! A casa primeira e oniri­camente definitiva deve guardar sua penumbra. Ela surge da literatura em profun­didade, isto é, da poesia, e não da literatura eloqüente que tem necessidade do romanceados outros para analisar a intimidade. Tudo o que devo dizer da casa da minha infância é justamente o que me é necessário para me colocar numa situa­ção de onirismo, para me colocar no bojo de um devaneio em que vou repousar no meu passado. Então, posso esperar que minha página contenha algumas sonoridades verdadeiras, ou seja, uma voz tão distante em mim mesmo que será a voz que todos ouvem quando escutam a fundo a memória, no extremo da memória, além talvez da memória no campo do imemorial. Não comunicamos aos outros senão urna orientação, visando ao segredo sem entretanto nunca poder dizê-lo objetivamente. O segredo nunca tem uma totalidade objetiva. Por esse caminho, orientamos o onirismo, não o concluímos (4).

 

Para que serviria, por exemplo, dar a planta do aposento que foi realmente o meu quarto, descrever o pequeno quarto no fundo de um sótão, dizer que da janela, através de um buraco no teto, via-se a colina? Só eu, nas minhas lembran­ças de outro século, posso abrir o armário que guarda ainda, só para mim, o chei­ro único, o cheiro das uvas que secam sobre a sebe. O cheiro das uvas! Cheiro-li­mite, é preciso muita imaginação para senti-lo. Mas já falei demais sobre ele. Se eu dissesse mais, o leitor não abriria, em seu quarto de novo revelado, o armário único, o armário com cheiro único, que assinala uma intimidade. Para evocar os valores de intimidade, é preciso, paradoxalmente, induzir o leitor ao estado de lei­tura suspensa. É no momento em que os olhos do leitor deixam o livro que a evo­cação do meu quarto pode transformar-se num limite de onirismo para outrem. Quando é um poeta que fala, a alma do leitor ecoa, ela conhece essa repercussão que, como diz Minkowski, dá ao ser a energia de uma origem.

 

Portanto, há um sentido em dizer, no plano de uma filosofia da literatura e da poesia em que nos colocamos, que se “escreve um quarto”, que se “lê um quar­to”, que se “lê uma casa”. Assim, rapidamente, desde as primeiras palavras, à pri­meira abertura poética, o leitor que “leu um quarto” suspende sua leitura e come­ça a pensar em qualquer antiga morada. Você quereria dizer tudo sobre o seu quarto. Quereria interessar o leitor em você mesmo no momento em que você entreabre a porta do devaneio. Os valores de intimidade são tão absorventes que o leitor não lê mais seu quarto: revê o quarto dele. O próprio leitor já foi ouvir as lembranças de um pai, de um ancestral, de uma mãe, de uma empregada, uma “empregada de coração grande”, em suma, do ser que domina os lugares de suas lembranças mais valorizadas.

 

A casa da lembrança se torna psicologicamente complexa. A seus abrigos de solidão se associam o quarto e a sala em que reinaram os seres dominantes. A casa natal é uma casa habitada. Os valores de intimidade aí se dispersam, não se tornam estáveis, passam por dialéticas. Quantas narrativas de infância — se as narrativas de infância fossem sinceras — nos diriam que a criança, por falta de seu próprio quarto, vai aboletar-se em seu canto!

 

Mas, além das lembranças, a casa natal está fisicamente inscrita em nós. Ela é um grupo de hábitos orgânicos. A cada vinte anos, apesar de todas as escadas anônimas, reencontraríamos os reflexos da “primeira escada”, não teimaríamos em permanecer num degrau um pouco alto. Todo o ser da casa se desdobraria, fiel a nosso ser. Empurraríamos com o mesmo gesto a porta que range e iríamos sem luz até o sótão distante. Mesmo o menor trinco ficou em nossas mãos.

 

As casas sucessivas em que habitamos mais tarde tomaram banais os nos­sos gestos. Mas ficamos surpreendidos quando voltamos à velha casa, depois de décadas de odisséia, com que os gestos mais hábeis, os gestos primeiros fiquem vivos, perfeitos para sempre. Em suma, a casa natal inscreveu em nós a hierar­quia das diversas funções de habitar. Somos o diagrama das funções de habitar aquela casa e todas as outras não são mais que variações de um tema fundamen­tal. A palavra hábito é uma palavra usada demais para explicar essa ligação apaixonada de nosso corpo que não esquece a casa inolvidável.

 

Mas essa região das lembranças bem detalhadas, facilmente guardadas pelos nomes das coisas e dos seres que viveram na casa natal, pode ser estudada pela psicologia corrente. Mais confusas, menos bem delineadas, são as lembranças dos sonhos que só a meditação poética nos pode ajudar a encontrar. A poésis, em sua função maior, nos faz reviver as situações do sonho. A casa natal, mais que um protótipo de casa, é um corpo de sonhos. Cada um desses redutos foi um abri­go de sonhos. E o abrigo muitas vezes particularizou o sonho. Nela aprendemos hábitos de devaneio particular. A casa, o quarto, o sótão em que estivemos sozi­nhos, dão os quadros para um devaneio interminável, para um devaneio que só a poesia poderia, por uma obra, acabar, perfazer. Se damos a todos esses retiros sua função que foi abrigar sonhos, podemos dizer, como eu indicava em livro anterior (5), que existe para cada um de nós uma casa onírica, uma casa de lembrança-sonho, perdida na sombra de um além do passado verdadeiro. Essa casa onírica é, dizia eu então, a cripta da casa natal. Estamos diante de um ponto importante em torno do qual giram as interpretações recíprocas do sonho pelo pensamento e do pensamento pelo sonho. A palavra interpretação torna excessi­vamente rígida essa mudança repentina de opinião. De fato, estamos tratando agora da unidade da imagem e da lembrança, no misto funcional da imaginação e da memória. A positividade da história e da geografia psicológicas não pode servir de pedra de toque para determinar o ser verdadeiro de nossa infância. A infância é certamente maior que a realidade. Para explicar, pela vida afora, nossa atração pela casa natal, o sonho é mais poderoso que o pensamento. São os pode­res do inconsciente que fixam as lembranças mais distantes. Se não houvesse um centro compacto de devaneios do repouso na casa natal, as circunstâncias tão diferentes que envolvem a vida verdadeira teriam confundido as lembranças. Afora algumas medalhas feitas à semelhança de nossos ancestrais, nossas memó­rias da infância só contêm moedas usadas. É no plano de devaneio e não no plano dos fatos que a infância permanece viva em nós e poeticamente útil. Por essa infância permanente, mantemos a poesia do passado. Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida como nós sonhamos.

 

Que privilégio de profundidade há nos sonhos da criança! Feliz a criança que possuí, realmente, as suas solidões! É bom, é são que uma criança tenha suas horas de aborrecimentos, que conheça a dialética do brinquedo exagerado e dos aborrecimentos sem causa, aborrecimentos puros. Em suas Memórias, Alexandre Dumas diz que era um menino aborrecido, tão aborrecido que chegava a ser cho­rão. Quando a mãe o encontrava chorando de tédio, perguntava-lhe:

— Por que é que Dumas está chorando?

— Dumas está chorando, porque Dumas tem lágrimas — respondia o me­nino de seis anos. Isso é sem dúvida uma anedota como as que se contam nas Memórias. Mas como ela marca bem o tédio absoluto, o tédio que não é o corre­lativo de uma falta de amigos para brincar! Mas não há crianças que deixam a brincadeira para ir amochar-se num canto do sótão. Sótão dos meus tédios, quan­tas vezes senti falta de ti quando a vida múltipla me fazia perder o germe de toda liberdade!

 

Assim, além de todos os valores positivos de proteção, na casa natal se esta­belecem valores de sonho, últimos valores que permanecem quando a casa já não existe mais. Centros de tédio, centros de solidão, centros de sonhos se agrupam para constituir a casa onírica mais durável que os sonhos dispersos na casa natal. Seriam precisas longas pesquisas fenomenólogicas para determinar todos os valo­res de sonho, para revelar a profundidade desse terreno dos sonhos em que estão enraizadas as lembranças.

 

Não esqueçamos que são esses valores de sonho que se comunicam poetica­mente de alma em alma. A leitura dos poetas é essencialmente devaneio.

A casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de esta­bilidade. Reimaginamos constantemente sua realidade: distinguir todas as ima­gens seria revelar a alma da casa; seria desenvolver uma verdadeira psicologia da casa.

Para pôr em ordem essas imagens, é preciso, acreditamos, enfocar dois temas principais de ligação: 1) A casa é imaginada como um ser vertical. Ela se eleva. Ela se diferencia no sentido de sua verticalidade. É um dos apelos à nossa consciência de verticalidade; 2) A casa é imaginada como um ser concentrado. Ela nos convida a uma consciência de centralidade (6).

 

Esses temas estão sendo enunciados, sem dúvida, bem abstratamente. Mas já não é difícil reconhecer-lhes o caráter psicologicamente concreto através de exemplos.

 

A verticalidade é assegurada pela polaridade do porão e do sótão. As mar­cas dessa polaridade são tão profundas que abrem, de alguma forma, duas pers­pectivas muito diferentes para uma fenomenologia da imaginação. Com efeito, quase sem comentário, pode-se opor a racionalidade do telhado à irracionalidade do porão. O telhado revela imediatamente sua razão de ser: cobre o homem que tem medo infernava e do sol. Os geógrafos não deixam de lembrar que, em cada país, a inclinação do telhado é um dos sinais mais seguros do clima. “Compreen­de-se” a inclinação do telhado. O próprio sonhador sonha racionalmente; para ele, o telhado pontiagudo corta as nuvens. Todos os pensamentos que se ligam ao telhado são claros. No sótão, vê-se, com prazer, a forte ossatura dos vigamentos. Participa-se da sólida geometria do carpinteiro.

 

Para o porão também encontraremos, sem dúvida, utilidade. Nós o raciona­lizaremos enumerando suas comodidades. Mas ele é em primeiro lugar o ser obs­curo da casa, o ser que participa das potências subterrâneas. Sonhando com ele, concordamos com a irracionalidade das profundezas.

 

Nós nos tornaremos sensíveis a essa dupla polaridade vertical da casa, se nos tornarmos sensíveis à função de habitar até o ponto de fazer disso uma ré­plica imaginária da função de construir. Os andares mais altos, o sótão, o sonha­dor os “edifica”, e os reedifica bem edificados. Com os sonhos na altitude clara estamos, repitamo-lo, na zona racional dos projetos intelectualizados. Mas o habitante apaixonado aprofunda o porão cada vez mais, tornando-lhe ativa a profundidade. O fato não basta, o devaneio trabalha. Ao lado da terra cavada, os sonhos não têm limite. Revelaremos em seguida devaneios de além-porão. Fique­mos inicialmente no espaço polarizado pelo porão e pelo sótão e vejamos como esse espaço polarizado pode servir para ilustrar os matizes psicológicos mais sutis.

 

Eis como o psicanalista C. G. Jung se serve da imagem dupla do porão e do sótão para analisar os medos que moram na casa. Encontraremos no livro de Jung: L “Homme à Ia Découverte de Son Âme (O Homem na Descoberta de Sua Alma), tradução francesa, página 203, uma comparação que deve tornar clara a esperança que tem o ser consciente “de aniquilar a autonomia dos complexos desbatizando-os”. A imagem é a seguinte: “A consciência se comporta então como um homem que, ouvindo um barulho suspeito no porão, se precipita para o sótão para constatar que aí não há ladrões e que, por conseqüência, o barulho era pura imaginação. Na realidade, esse homem prudente não ousou aventurar-se ao porão”.

 

A medida que a imagem explicativa empregada por Jung nos convence, nós, leitores, revivemos fenomenologicamente os dois medos: o medo no sótão e o medo no porão. Em lugar de enfrentar o porão (o inconsciente), “o homem pru­dente” de Jung busca coragem nos álibis do sótão. No sótão, camundongos e ratos podem fazer seu alvoroço. Quando o dono da casa chegar, eles voltarão ao silêncio de seu buraco. No porão seres mais lentos se agitam, menos apressados, mais misteriosos. No sótão, os medos se “racionalizam” facilmente. No porão, mesmo mora um ser mais corajoso que o homem evocado por Jung, a “racionali­zação” é menos rápida e menos clara; não é nunca definitiva. No sótão, a expe­riência do dia pode sempre apagar os medos da noite. No porão há escuridão dia e noite. Mesmo com uma vela na mão, o homem vê as sombras dançarem na muralha negra do porão.

 

Se seguirmos a inspiração do exemplo explicativo de Jung até a apreensão total da realidade psicológica, iremos achar uma cooperação possível entre a psicanálise e a fenomenologia, cooperação que será preciso sempre acentuar se quisermos dominar o fenômeno humano. De fato, é preciso compreender fenome­nologicamente a imagem para lhe dar uma eficácia psicanalítica. O fenomenó­logo aceitará aqui a imagem do psicanalista com uma inclinação receosa. Revive­rá a primitividade e a especificidade dos medos. Em nossa civilização que põe luz em todos os cantos, que põe eletricidade no porão, não se vai mais ao porão segu­rando uma vela. O inconsciente não se civiliza: apanha o castiçal para descer ao porão. O psicanalista não pode ficar na superficialidade das metáforas ou compa­rações e o fenomenólogo deve ir até o fundo das imagens. Aqui, longe de reduzir e de explicar, longe de comparar, o fenomenólogo exagerará o exagero. Então, se lerem os Contos de Edgar Poe, o fenomenólogo e o psicanalista poderão compreender juntos o valor de sua mútua colaboração. Os contos são medos da infância que se cumprem. O leitor que se “dá” à sua leitura ouvirá o gato maldito, sinal de faltas não-remidas, miar atrás do muro (7).O sonhador de porões sabe que as paredes do porão são paredes enterradas, paredes com um lado só, que têm toda a terra do outro lado. E por isso o drama aumenta, e o medo se exagera. Mas o que será um medo que deixa de exagerar?

 

Numa tal inclinação medrosa, o fenomenólogo aguça os ouvidos, como escreve o poeta Thoby Marcelin, “até as raias da loucura”. O porão é pois a lou­cura enterrada, dramas murados. As narrações dos porões criminais deixam na memória marcas indeléveis, marcas a que não gostamos de nos referir; quem desejaria reler A Barrica de Amontillado? O drama é muito fácil aí, mas explora os medos naturais, medos que existem na dupla natureza do homem e da casa.

 

Mas sem fazer um relatório dos dramas humanos, vamos estudar alguns além-porões que provam facilmente que o sonho do porão aumenta invencivel­mente a realidade.

 

Se a casa do sonhador está situada na cidade, não é raro que o sonho seja de dominar, pela profundidade, os porões da vizinhança. Sua moradia deseja os subterrâneos dos castelos-fortes da lenda em que misteriosos caminhos faziam comunicar por baixo de todos os recintos fechados, de todas as muralhas, de todos os fossos, o centro do castelo com a floresta distante. O castelo plantado no alto da colina tinha raízes numa rede de subterrâneos. Que poder para uma sim­ples casa ser construída sobre um emaranhado de subterrâneos!

Nos romances de Henri Bosco, grande sonhador da casa, encontramos tais além-porões. Sob a casa de L ‘Antiquaire (O Antiquário), pág. 60, se encontra “uma rotunda arqueada de onde se abrem quatro portas”. Das quatro portas saem corredores que dominam de alguma forma os quatro pontos cardeais de um horizonte subterrâneo. A porta do leste se abre e então “subterraneamente vamos muito longe, sob as casas desse quarteirão… ” As páginas trazem a marca de so­nhos labirínticos. Mas aos labirintos dos corredores onde existe um “‘ar pesado” se associam rotundas e capelas, os santuários do segredo. Assim o porão de L ‘Antiquaire é, por assim dizer, oniricamente complexo. O leitor deve explorá-lo com sonhos capazes de abranger o sofrimento dos corredores e o espanto pela existência de palácios subterrâneos. O leitor pode perder-se aí (no sentido próprio e no figurado). A princípio não vê claramente a necessidade literária de uma geo­metria tão complicada. É aqui que o estudo fenomenológico vai revelar sua eficá­cia. O que aconselha então a atitude fenomenológica? Pede-nos que criemos em nós um orgulho pela leitura que nos dê a ilusão de participar do trabalho de cria­ção do livro. Tal atitude não se pode assumir facilmente na primeira leitura. A primeira leitura é feita com excessiva passividade. O leitor é ainda um pouco criança, uma criança que a leitura distrai. Mas todo livro bom, mal acabado de ler, deve ser relido imediatamente. Depois do esboço que é a primeira leitura, vem a obra da leitura. É preciso então conhecer o problema do autor. A segunda leitu­ra, a terceira…, nos ensinam pouco a pouco a solucionar esse problema. Insen­sivelmente, temos a ilusão de que o problema e a solução são os nossos. Esse matiz psicológico: “Devíamos ter escrito isso”, nos faz posar como fenomenó­logo da leitura. Enquanto não acendermos a esse matiz, ficaremos sendo psicó­logo ou psicanalista.

 

Qual é então o problema literário de Henri Bosco na descrição do além-po­rão? É concretizar uma imagem central do romance que é, em sua linha geral, o romance das intrigas subterrâneas. Essa metáfora usada é aqui ilustrada por porões múltiplos, por uma rede de galerias, por um grupo de celas com portas muitas vezes trancadas a cadeado. Meditamos então sobre os segredos; prepara­mos projetos. E a ação, debaixo da terra, se encaminha. Estamos realmente no es­paço íntimo das intrigas subterrâneas.

 

É em tal subsolo que os antiquários que dirigem o romance pretendem ligar destinos. O porão de Henri Bosco com ramais geométricos é um tecedor do desti­no. O herói que conta suas aventuras traz consigo um anel do destino, um anel cuja pedra é marcada com sinais de uma idade antiga. O trabalho propriamente subterrâneo, propriamente infernal, dos Antiquários irá fracassar. No momento em que dois grandes destinos do amor iam afogar-se, morreu no cérebro da casa maldita uma das mais belas sílfides do romancista, um ser do jardim e da torre,

o ser que devia dar a felicidade. O leitor um pouco atento ao acompanhamento de poesia cósmica sempre ativa sob a narrativa psicológica dos romances de Bosco, tal leitor terá em muitas páginas do livro testemunhos do drama do aéreo e do ter­restre. Mas, para viver tais dramas, é preciso reler, é preciso poder deslocar o interesse ou ler com o duplo interesse do homem e das coisas, não negligenciando nada do tecido antropocósmico de uma vida humana.

Numa outra moradia a que nos conduz o romancista, o além-porão não está mais sob o signo dos lúgubres projetos dos homens infernais. Ela é realmente natural, inscrita na natureza de um mundo subterrâneo. Vamos viver, seguindo Henri Bosco, uma casa com raízes cósmicas.

 

Essa casa com raízes cósmicas vai-nos aparecer como uma planta de pedra que cresce do rochedo até o azul de uma torre.

 

O herói do romance L ‘Antiquaire surpreendido numa visita indiscreta teve que se meter no subsolo de uma casa. Mas, imediatamente, o interesse da narra­tiva real passa à narrativa cósmica. As realidades servem aqui para expor os sonhos. A princípio, estamos ainda no labirinto dos corredores talhados na pedra. Depois, subitamente, é encontrada uma água noturna. Então, a descrição dos acontecimentos do romance é, para nós, suspensa. Não receberemos a recom­pensa da página se não participarmos com nossos sonhos da noite. Com efeito, um grande sonho que tem a sinceridade dos elementos se intercala na narrativa. Leiamos este poema do porão cósmico (8):

 

“Aos meus pés a água saía da escuridão. A água!. . . um lago imenso!. . . e que água!. . . Uma água negra, para­da, tão perfeitamente plana que nenhuma ruga, nenhuma bolha de ar, turvava a superfície. Nenhuma fonte, nenhuma origem. Estava aí havia milênios, represada pelas rochas, e se estendia num único lençol insensível e se tornara, na sua ganga de pedra, a própria pedra negra, imóvel, cativa do mundo mineral. Desse mundo opressor ela suportara a massa esmagante, o acúmulo enorme. Sob esse peso, dir-se-ia que ela mudara de natureza, infiltrando-se nas fissuras das lajes de calcá­rio que lhe guardavam o segredo. Transformara-se dessa forma no elemento flui­do mais denso da montanha subterrânea. Sua opacidade e consistência insóli­tas (9) faziam-na como que matéria desconhecida e carregada de fosforescências de que só afloravam à superfície fulgurações fugidias. Sinais dos poderes obscu­ros em repouso nas profundezas, essas colorações elétricas manifestavam a vida latente e o temível poder desse elemento ainda adormecido. Eu tremia”.

 

Esse calafrio, sentimo-lo bem, não é mais um medo humano, é um medo cós­mico, um medo antropocósmico que faz eco à grande lenda do homem diante das situações primitivas. Do porão talhado na rocha no subterrâneo, do subterrâneo à água parada, passamos do mundo construído ao mundo sonhado; passamos do romance à poesia. Mas o real e o sonho são agora uma unidade. A casa, o porão, a terra profunda encontram uma totalidade pela profundidade. A casa se trans­formou num ser da natureza. Está solidária com a montanha e as águas que tra­balham a terra. A grande planta de pedra que é a casa cresceria mal se não tivesse as águas dos subterrâneos na sua base. Assim vão os sonhos em sua grandeza sem limite.

 

A página de Bosco por seu sonho cósmico traz ao leitor uma grande tranqüi­lidade de leitura pedindo-lhe para participar da tranqüilidade que dá todo o oni­rismo profundo. A narrativa fica agora num tempo suspenso propício ao aprofun­damento psicológico. Agora, a narrativa dos acontecimentos reais pode ser retomada: recebeu sua provisão de cosmicidade e de sonho. De fato, além da água subterrânea, o porão de Bosco encontra suas escadas. A descrição, depois da pausa poética, pode desenrolar de novo seu itinerário: “Uma escada afundava na rocha e, subindo, serpenteava. Era estreita e abrupta. Segui-a” (pág. ’55). Por essa escada em caracol, o sonhador sai das profundezas da terra e entra nas aven­turas do alto. Com efeito, no fim de tantos desfiladeiros tortuosos e estreitos, o leitor desemboca numa torre. Essa torre é a torre ideal que encanta todo o sonha­dor de uma moradia antiga: é “perfeitamente redonda”; cercada por uma “luz tênue” que entra “por uma janela estreita”. E o teto é em abóbada. Que grande princípio de sonho da intimidade é um teto em abóbada! Reflete sempre a intimi­dade em seu centro. Não nos surpreenderemos se o quarto da torre for a moradia de uma doce jovem e se for habitado pelas lembranças de um antepassado apai­xonado. O quarto circular e em abóbada está isolado nas alturas. Guarda o pas­sado assim como domina o espaço.

 

Sobre o missal da jovem, missal que vem de ancestral distante, pode-se ler a divisa:

 

A flor fica sempre na semente.

 

Por essa divisa admirável, eis a casa, eis o quarto marcado por uma intimi­dade inesquecível. Haverá imagem de intimidade mais condensada, mais certa de seu centro que o sonho do porvir de uma flor ainda fechada e encolhida em sua semente? Como se há de querer que não a felicidade, mas a antefelicidade, per­maneça fechada no quarto circular!

 

Assim, a casa evocada por Bosco vai da terra ao céu. Tem a verticalidade da torre elevando-se das mais terrestres e aquáticas profundezas até a morada de uma alma crente no céu. Tal casa, construída por um escritor, ilustra a verticali­dade do humano. E é oniricamente completa. Dramatiza os dois pólos dos sonhos da casa. Faz a caridade de uma torre àqueles que talvez nem tenham conhecido um pombal. A torre é a obra de outro século. Sem passado, não é nada. Que zom­baria é uma torre nova! Mas os livros estão aí para nos darem mil moradas aos nossos devaneios. Na torre dos livros, quem não viveu horas românticas? Essas horas voltam. O devaneio tem necessidade disso. Na pauta de uma vasta leitura tocante à função de habitar, a torre é uma nota para os grandes sonhos. Quantas vezes, desde que eu li L ‘Antiquaire, fui habitar a torre de Henri Bosco!

 

A torre e os subterrâneos das além-profundezas se alongam pelos dois senti­dos da casa que acabamos de estudar. Essa casa é, para nós, uma ampliação da verticalidade das casas mais modestas que da mesma forma, para satisfazer nos­sos devaneios, têm necessidade de se diferenciar em altitude. Se tivéssemos que ser o arquiteto da casa onírica, hesitaríamos entre a casa de três e a de quatro pisos. A casa de três, a mais simples com referência à altura essencial, tem um porão, um pavimento térreo e um sótão. A casa de quatro pisos tem um andar entre o pavimento térreo e o sótão. Um andar a mais, um segundo andar, e os so­nhos senconfundem. Na casa onírica, a topoanálise só sabe contar até três ou quatro.

 

De um até três ou quatro ficam as escadas. Todas diferentes. A escada que vai até o porão, descemo-la sempre. É a sua descida que fixamos em nossas lembranças, é a descida que caracteriza o seu onirismo. A escada que sobe ao quarto, nós a subimos ou a descemos. É uma via mais banal. É familiar. O meni­no de doze anos faz escalas de subida, ensaiando lances de três e de quatro degraus, tentando lances de cinco, mas gostando mais de subir de quatro em qua­tro. Subir uma escada de quatro degraus, que felicidade para os músculos!

 

Enfim, a escada do sótão mais abrupta, mais gasta, nós a subimos sempre. Há o sinal de subida para a mais tranqüila solidão. Quando volto a sonhar nos sótãos de outrora, não desço mais.

 

A psicanálise encontrou o sonho da escada. Mas como precisa de um simbo­lismo globalizante para fixar sua interpretação, a psicanálise deu pouca atenção à complexidade da miscelânea do devaneio com a lembrança. Eis por que, nesse ponto, como em outros, a psicanálise está mais apta a estudar os sonhos que o devaneio. A fenomenologia do devaneio pode desmontar o complexo da memória e da imaginação. Ela se tornan ecessariamente sensível às diferenciações do sím­bolo. O devaneio poético, criador de símbolos, dá à nossa intimidade uma ativi­dade polissimbólica. E as lembranças se depuram. A casa onírica, no devaneio, atinge uma sensibilidade extrema. Às vezes, alguns degraus inscreveram na memória uma pequena desnivelação da casa natal (10). Tal quarto não é somente uma porta, é uma porta e três degraus. Quando nos pomos a pensar no detalhe da altura da velha casa, tudo o que sobe e desce começa a viver dinamicamente. Não podemos ser mais um homem de um só andar, como dizia Joè Bousquet: “É um homem de um só andar: tem seu porão em seu sótão” (11).

 

Sob forma de antítese, façamos algumas observações sobre as casas oniri­camente incompletas.

 

Em Paris, não há casas. Em caixas superpostas vivem os habitantes da gran­de cidade:

 

“Nosso quarto parisiense”, diz Paul Claudel, (12)”entre suas quatro paredes, é uma espécie de lugar geométrico, um buraco convencional que mobi­liamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário”. O número da rua, o algarismo do andar, fixam a localização de nosso “buraco convencio­nal”, mas nossa moradia não tem nem espaço a seu redor nem verticalidade em si mesma. “Sobre o solo, as casas se fixam com o asfalto para não afundarem na terra” (13). A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para quem sonha com casas: os arranha-céus não têm porão. Da calçada até o teto, os cômodos se acumulam e a tenda de um céu sem horizontes encerra a cidade inteira. Os edifícios só têm na cidade uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já quase não há mérito em morar perto do céu. E o em nossa casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta aos diferentes cômodos um abrigo num canto do andar, um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade.

 

À falta de valores íntimos de verticalidade, é preciso juntar a falta de cosmi­cidade da casa das grandes cidades. As casas não estão mais na natureza. As relações da moradia com o espaço se tornam fictícias. Tudo é máquina e a vida íntima foge por todos os lados. “As ruas são como tubos onde são aspirados os homens.” (Max Picard, loc. cit., pág. 119.).

 

E a casa não conhece mais os dramas do universo. Às vezes o vento quebra uma telha do telhado para matar um pedestre na rua. Esse crime do telhado só visa ao pedestre atrasado. O relâmpago põe fogo por um instante nos vidros das janelas. Mas a casa não treme sob o ribombar dos trovões. Não treme conosco e por nós. Em nossas casas grudadas umas às outras, temos menos medo. A tem­pestade sobre Paris não tem contra o sonhador a mesma capacidade ofensiva que contra a casa de um solitário. Compreenderemos isso melhor quando tivermos estudado, em parágrafos posteriores, a situação da casa no mundo, situação que nos dá, de uma maneira concreta, uma variante da situação, com freqüência tão metafisicamente resumida, do homem no mundo.

Mas, aqui, permanece em aberto um problema para o filósofo que crê no caráter salutar dos vastos devaneios: como se pode ajudar a cosmização do espa­ço exterior no quarto das cidades. A título de exemplo, citamos a solução de um sonhador para os barulhos de Paris.

 

Quando a insônia, mal dos filósofos, aumenta pelo nervosismo devido aos barulhos da cidade, quando, na Praça Maubert, tarde da noite, os automóveis fazem barulho e o roncar dos caminhões me faz maldizer meu destino de cidadão, encontro paz em viver as metáforas do oceano. Sabe-se que a cidade é um mar barulhento, já se disse muitas vezes que Paris faz ouvir, no meio da noite, o mur­múrio incessante das ondas e das marés. Dessa banalidade, faço então uma ima­gem sincera, uma imagem que é minha, como se eu tivesse inventado, seguindo a minha doce mania de acreditar que sempre sou o sujeito do que penso. Se o baru­lho dos carros se torna mais aflitivo, esforço-me para ver nele o barulho do tro­vão, de um trovão que me ameaça e que ralha. E tenho pena de mim mesmo. Eis o pobre filósofo de novo na tempestade, nas tempestades da vida! Sonho abstra­to-concreto. Minha poltrona é uma barca perdida nas ondas; o silvo súbito, é o vento nas velas. O ar em fúria buzina de toda parte. E falo a mim mesmo, para me confortar: vê, teu esquife permanece sólido, estás seguro em teu barco de pedra. Dormes, apesar da tempestade. Dormes na tempestade. Dormes em tua coragem, feliz por seres um homem que já enfrentou as vagas.

 

E durmo então, embalado pelos barulhos de Paris. (14)

 

Tudo me confirma aliás que a imagem dos barulhos oceânicos da cidade está na “natureza das coisas”, que essa é uma imagem verdadeira, que é salutar tornar naturais os barulhos para fazê-los menos hostis. De passagem, noto na jovem poesia dos nossos tempos esse matiz delicado da imagem benfazeja. Yvon­ne Caroutch (15) ouve a aurora da cidade quando a cidade tem “rumores de conchas vazias”. Essa imagem me ajuda, ser madrugador que sou, a despertar suave­mente, naturalmente. Todas as imagens são boas desde que saibamos servir-nos delas.

 

Encontraríamos muitas outras imagens sobre a cidade-oceano. Notemos, porém, esta que se impõe a um pintor. Courbet, encerrado em Sainte-Pélagie, ti­vera a idéia de representar Paris vista dos píncaros da prisão, diz-nos Pierre Courthion (16). Courbet escreve a um de seus amigos: “Eu teria pintado isso no gê­nero das minhas marinhas, com um céu de uma profundeza imensa, com seus movimentos, suas casas, suas cúpulas simulando as vagas revoltosas do oceano…”

 

Seguindo nosso método, quisemos guardar a colagem das imagens que recu­sa uma anatomia absoluta. Tivemos que evocar incidentalmente a cosmicidade da casa. Mas será preciso ainda voltar a esse caráter. Devemos agora, depois de ter examinado a verticalidade da casa onírica, estudar, como anunciamos anteriormente, na página 30, os centros de condensação de intimidade em que se acumula o devaneio.

 

VI

 

É preciso procurar na casa múltipla centros de simplicidade. Como diz Baudelaire: num palácio, “não há nenhum lugarzinho para a intimidade”.

 

Mas a simplicidade, às vezes elogiada racionalmente demais, não é uma fonte de onirismo de grande força. É preciso tocarmos na primitividade do refú­gio. E, além das situações vividas, descobrir situações sonhadas. Além das lem­branças positivas que são materiais para uma psicologia positiva, devemos rea­brir o campo das imagens primitivas que foram talvez os centros de fixação das lembranças deixadas na memória.

 

Pode-se fazer a demonstração das primitividades imaginárias mesmo sobre esse ser, sólido na memória, que é a casa natal.

 

Por exemplo, em sua própria casa, na sala familiar, um sonhador dos refú­gios sonha com a cabana, com o ninho, com os cantos em que gostaria de se encolher como um animal em seu buraco. Ele vive assim no além das imagens humanas. Se o fenomenólogo chegasse a viver a primitividade de tais imagens, talvez deslocasse os problemas que se referem à poesia da casa. Encontraremos um exemplo bem claro dessa concentração da alegria de morar lendo uma página admirável do livro em que Henri Bachelin conta a vida de seu pai (17).

A casa da infância de Henri Bachelin é a mais simples de todas. É a casa rústica de uma povoação do Morvan. É entretanto, com suas dependências cam­ponesas e graças ao trabalho e à economia do pai, uma moradia em que a vida da família encontrou a segurança e a felicidade. É no quarto clareado pela lâmpada junto à qual o pai, jornaleiro e sacristão, lê de noite a vida dos santos, é nesse quarto que o menino tem seu devaneio de primitividade, um devaneio que acentua a solidão até o ponto de imaginar viver numa cabana perdida na floresta. Para um fenomenólogo que busca as raízes da função de morar, a página de Henri Bachelin é um documento de grande pureza. Eis a passagem essencial (pág. 97): “Eram horas em que com força, juro, eu nos sentia como que eliminados da cida­dezinha, da França e do mundo. E eu me enchia de prazer — guardava para mim as minhas sensações — quando nos imaginava vivendo no meio dos bosques numa cabana de carvoeiros bem aquecida: eu gostaria de ter ouvido os lobos agu­çar as unhas no granito sem fim da soleira da nossa porta. Nossa casa fazia para mim as vezes de cabana. Nela eu me sentia seguro contra a fome e contra a sede. Se eu tremia, era só de bem-estar”. E evocando seu pai, num romance sempre escrito na segunda pessoa, Henri Bachelin acrescenta: “Bem escorado na rainha cadeira, eu me embebia no sentimento de tua força”.

 

Assim, o escritor nos chama ao centro da casa como a um centro de força, numa zona de proteção maior. Ele aprofunda esse “sonho de cabana” que aqueles que gostam das imagens legendárias das casas primitivas conhecem muito bem. Mas na maioria dos nossos sonhos de cabanas desejamos viver em outro lado, longe da casa obstruída, longe dos cuidados citadinos. Fugimos em pensamento para procurar um verdadeiro refúgio. Mais feliz que os sonhadores de evasões longínquas, Bachelin encontra na casa a raiz do devaneio da cabana. Para isso não teve senão que trabalhar um pouco o espetáculo do quarto de família, que escutar, em silêncio velado, a lareira que crepita, enquanto que a névoa sitia a casa, para saber que no centro da casa, debaixo do círculo de luz da lâmpada, ele vive numa casa circular, na cabana primitiva. Quantos abrigos encaixados uns nos outros verificaríamos, se registrássemos, em seus detalhes e em sua hierar­quia, todas as imagens pelas quais vivemos nossos devaneios de intimidade. Quantos valores dispersos poderíamos concentrar se vivêssemos, com toda a sinceridade, as imagens de nossos devaneios!

 

A cabana, na página de Bachelin, aparece como a raiz que sustenta a função de habitar. Ela é a planta humana mais simples, aquela que não precisa de ramifi­cações para subsistir. É tão simples que não pertence mais às lembranças, às vezes demasiadamente cheias de imagens. Pertence às lendas. É um centro de len­das. Diante de uma luz longínqua, perdida na noite, quem não sonhou com a palhoça, quem não sonhou, mais comprometido ainda com as lendas, com a ca­bana do eremita?

 

A cabana do eremita, eis uma gravura-príncipe ! As verdadeiras imagens são gravuras. A imaginação grava-se em nossa memória. Elas aprofundam lembran­ças vividas, deslocam recordações vividas, para se tornarem lembranças da imaginação. A cabana do eremita é um tema que não precisa de variações. Desde a mais simples evocação, a “repercussão fenomenológica” apaga as ressonâncias medíocres. A cabana do eremita é uma gravura que se ressentiria de um excesso de pitoresco. Deve receber a verdade da intensidade de sua essência, essência do verbo habitar. Logo, a cabana é uma solidão centrada. Na terra das lendas, não há cabana a meias. O geógrafo bem nos pode revelar fotografias de aldeias de cabanas, tiradas em suas longínquas viagens. Nosso passado lendário transcende tudo o que foi visto, tudo o que tenhamos vivido pessoalmente. A imagem nos leva. Vamos até a solidão extrema. O eremita está diante de Deus. A cabana do eremita é o antitipo do mosteiro. Em torno dessa solidão centrada irradia um universo que medita e que faz preces, um universo fora do universo. A cabana não pode receber nenhuma riqueza “desse mundo”. Ela tem uma feliz intensidade de pobreza. A cabana do eremita é uma glória da pobreza. De despojamento em despojamento, ela nos dá acesso ao absoluto do refúgio.

 

Essa valorização de um centro de solidão concentrada é tão forte, tão primi­tiva, tão indiscutida quanto a imagem da luz distante que serve de referência para imagens menos claramente localizadas. Henry David Thoreau não é capaz até de ouvir o “toque da cometa de caça no fundo do bosque”? Essa “imagem” com centro mal determinado, essa imagem sonora que enche a natureza noturna lhe sugere uma imagem de descanso e de confiança: “Este som”, diz ele, “é tão amigo quanto a candeia distante do eremita” (18). E nós, que nos lembramos, de que vale íntimo ainda ressoam as cometas de outrora e por que será que aceitamos de ime­diato a comum amizade do mundo sonoro despertado pela cometa e do mundo do eremita clareado pela luz distante? Como imagens tão raras na vida terão um tal poder sobre a imaginação?

 

As grandes imagens têm ao mesmo tempo uma história e uma pré-história. São sempre lembrança e lenda ao mesmo tempo. Nunca se vive a imagem em pri­meira infância. Qualquer grande imagem tem um fundo onírico insondável e é sobre esse fundo onírico que o passado pessoal põe cores particulares. Assim também, só quando já se passou pela vida é que se venera realmente uma imagem descobrindo suas raízes além da história fixada na memória. No reino da imagi­nação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo verdadeiramente, para vivê-lo na realidade de suas imagens, na subli­mação absoluta que transcende qualquer paixão. Um poeta, meditando sobre a vida de um grande poeta, Victor-Émile Michelet meditando a obra de Villier de 1’Isle-Adam, escreve: “Que pena ! Precisamos avançar na idade para conquistar a juventude, para livrá-la dos entraves, para viver segundo seu impulso inicial”.

 

A poesia nos dá não tanto a nostalgia da juventude, que seria vulgar, mas a nostalgia das expre’ssões da juventude. Ela nos oferece imagens como deveríamos tê-las imaginado no “impulso inicial” da juventude. As imagens-príncipes, as gra­vuras simples, os devaneios da cabana, são também convites a recomeçar a ima­ginar. Elas nos transmitem estágios do ser, casas do ser, em que se concentra uma certeza de ser. Parece que habitando tais imagens, imagens que nos tornam está­veis também, recomeçaríamos outra vida, uma vida que seria nossa, na« profun­dezas do nosso ser. Ao contemplar tais imagens, ao ler as imagens do livro de Bachelin, ruminamos primitividade. Por essa primitividade restituída, desejada, vivida em imagens simples, um álbum de cabanas seria um manual de exercícios simples para a fenomenologia da imaginação.

 

Além da luz distante da cabana do eremita, símbolo do homem em vigília, um levantamento considerável de documentos literários relativos à poesia da casa poderia ser explorado sob o signo da lâmpada que brilha à janela. Seria preciso colocar essa imagem sob a dependência de um dos maiores teoremas da imagina­ção do mundo da luz: “Tudo que brilha vê” (19). Rimbaud revelou também esse teore­ma cósmico em seis sílabas: “Madrepérola vê”. A lâmpada vigia, logo supervi­siona. Quanto mais fino é o filete de luz, mais penetrante é a vigilância.

 

A lâmpada à janela é o olho da casa. A lâmpada, no reino da imaginação, não se acende nunca ao lado de fora. É luz enclausurada que só pode filtrar do lado de fora. Um poema que tem por título Amurado começa assim:

 

Uma lâmpada acesa atrás da janela

Vigia no coração secreto da noite.

 

Alguns versos antes o poeta fala:

 

Do olhar aprisionado

Entre suas quatro paredes de pedra. (20)

 

No romance de Henri Bosco, Hyacinthe, que com outra narrativa, Le Jar-din d’Hyacinthe, constitui um dos mais surpreendentes romances psíquicos do nosso tempo, uma lâmpada espreita à janela. Através dela a casa espreita. A lâm­pada é o signo de uma grande espreita.

 

Pela luz distante da casa, a casa vê, vigia, supervisiona, espreita.

 

Quando me deixo ir ao sabor das inversões entre o devaneio e a realidade, surge-me esta imagem: a casa distante e sua luz é para mim, diante de mim, a casa que olha para fora — bem a seu modo! — pelo buraco da fechadura. Sim, alguém está na casa que vigia, um homem está trabalhando lá, enquanto eu sonho, é uma existência obstinada enquanto eu persigo sonhos fúteis. Pela sua própria luz, a casa é humana. Ela vê como um homem. Ela é um olho aberto sobre a noite.

 

E outras imagens sem fim vêm florir a poesia da casa na noite. Às vezes bri­lha como um verme luzente no meio da erva, o ser com sua luz solitária.

 

Verei vossas casas como vermes luzentes nas escarpas das colinas. (21)

 

Outro poeta chama as casas que brilham sobre a terra “estrelas de erva”. Christiane Barucoa diz ainda da lâmpada na casa humana:

 

Estrela prisioneira vista no gelo do instante.

 

Parece que, em tais imagens, as estrelas do céu vêm habitar a terra. As casas dos homens formam constelações sobre a terra.

 

G.-E. Clancier, com dez aldeias e suas luzes, fixa uma constelação do Levia­tã sobre a terra:

Uma noite, dez aldeias, uma montanha Um leviatã negro trabalhado a ouro.

(G. E. Clancier, Une voix, ed. Gallimard, pág. 172.)

 

Erich Neumann estudou o sonho de um paciente que, olhando do alto de uma torre, via estrelas nascerem e brilharem na terra. Saíam do seio da terra; a terra não era nessa obsessão uma simples imagem do céu estrelado. Era a grande mãe geradora do mundo, que gerou a noite e as estrelas (22). No sonho de seu paciente, Neumann mostra a força do arquétipo da terra-mãe, da Mutter-Erde. A poesia naturalmente vem de um devaneio que insiste menos que o sonho noturno. Não se trata senão do “gelo de um instante”. Mas o documento poético não é menos indi­cativo disso. Um signo terrestre repousa num ser do céu. A arqueologia das ima­gens é pois esclarecida pela imagem rápida, pela imagem instantânea do poeta.

 

Demos todo esse desenvolvimento a uma imagem que pode parecer banal, para mostrar que as imagens não podem manter-se paradas. O devaneio poético, ao contrário do sonho de sonolência, não adormece nunca. É sempre preciso, a partir da imagem mais simples, fazer irradiar ondas de imaginação. Mas por mais cósmica que se torne a casa isolada clareada pela estrela de sua lâmpada, ela se impõe sempre como uma solidão: vamos dar um último texto que acentua essa solidão.

 

Nos Fragments d’ un Journal Intime (Fragmentos de um Diário íntimo) reproduzidos no início de uma antologia de cartas de Rilke, encontramos a cena seguinte: Rilke (23) e dois de seus companheiros percebem na noite profunda “as vidraças iluminadas de uma cabana distante, a última cabana, aquela que está sozinha no horizonte diante dos campos e dos banhados”. Essa imagem de uma solidão simbolizada por um única luz comove o coração do poeta, comove-o tão pessoalmente que o isola de seus companheiros. Rilke acrescenta, falando do grupo de três amigos: “Era inútil estarmos bem perto um do outro, permane­cíamos como três seres isolados que vêem a noite pela primeira vez”. Expressão que não meditaremos nunca o bastante, já que a mais banal das imagens, uma imagem que o poeta viu certamente centenas de vezes, recebe de súbito o sinal da “primeira vez” e transmite esse sinal à noite familiar. Não se poderá dizer que a luz vinda de uma vigia solitária, de uma vigia obstinada, toma força de hip­notismo. Somos hipnotizados pela solidão, hipnotizados pelo olhar da casa soli­tária. Entre ela e nós a ligação é tão forte que não sonhamos senão com uma casi­nha solitária na noite:

 

O Licht im schlafenden Haus! (24) ó luz da casa adormecida!

 

Com a cabana, com a luz que vigia no horizonte distante, acabamos de indi­car sob sua forma mais simplificada a condensação da intimidade do refúgio. Tí­nhamos primeiramente, no início deste capítulo, tentado diferenciar a casa segun­do sua verticalidade. É preciso agora, sempre com a ajuda de documentos literários apropriados, explicar melhor os valores de proteção da casa contra as forças que a sitiam. Depois de examinar essa dialética dinâmica da casa e do uni­verso, examinaremos poemas em que a casa é todo um mundo.

 

Notas

 

(1) Não será preciso dar à “fixação” suas virtudes, à margem da literatura psicanalítica que deve, juntamente com sua função terapêutica, registrar sobretudo processos de desfixação?

 

(2) Rilke. trad. fr. Claudc Vigéo. apudLes Lettres, ano 4, 14-15-16,pág. 11.

 

(3) Estudaremos as diferenças entre o sonho e o devaneio numa próxima obra.

 

(4) Tendo que descrever os domínios do Canaã (Volupté, pág. 30). Sainte-Beuve acrescenta: “E bem menos

para você. meu amigo, que não viu esses lugares, ou que, se os tivesse visto, não pode neste momento sentir

de novo, pelas minhas impressões e pelas minhas cores, que eu os percorro com todos estes detalhes, de que

preciso me desculpar. Não tente imaginá-los segundo tais detalhes; deixe flutuar a imagem em você; passe

levemente; a menor idéia bastará”.

 

(5) La Terre et les Réveries du Repôs, pág. 98.

 

(6) Sobre esta segunda parte, ver adiante, pág. 216.

 

(7) Edgar Poe. cf. Le Chat Noir.

 

(8) Henri Bosco, L ‘Antiquaire, pág. 154.

 

(9) Num estudo sobre a imaginação material: L”Eau et les Rêves, encontramos uma água densa e consistente,

uma água pesada. Era de um grande poeta, de Edgar Poe, cf. capitulo II.

 

(10) Cf. La Terre et les Rêveries du Repôs, págs. 105-106.

 

(11) Joè Bousquet, La Neige d’un AutreÂge, pág. 100.

 

(12) Paul Claudel, Olseau Noir dans le SoleilLevant, pág. 144.

 

(13) Max Picard, La Fuite Devant Dieu, trad. fr., pág. 121.

 

(14) Eu escrevera esta página quando li na obra de Balzac, Petites Misères de Ia Vie Conjugale (ed. Formes & Reflets. 1952. t. 12. pág. 1 302): “Quando sua casa treme em todos os seus membros e se agita sobre sua quilha, você acredita ser um marinheiro embalado pelo zéfiro”.

 

(15) Yvonne Caroutch. Veilleurs Endotmis, ed. Debresse, pág. 30.

 

(16) Pierre Courthion, Courbet Raconté par Lui-même et par ses Amis, ed. Cailler, 1948, t. I, pág. 278. O General Valentim não permitiu a Courbet pintar Paris-Oceano. Mandou dizer-lhe que “ele não estava na prisão para se divertir”.

 

(17) Henri Bachelin, Le Serviteur, 6.” ed., Mercure de France, com um belo prefácio de René Dumesnil, que fala da vida e da obra do romancista esquecido.

 

(18) Henry David Thoreau. Un Philosophe dans les Boi.

 

(19) Rimbaud, Oeuvres Completes, ed. Grand Chêne, Lausanne, pág. 321.

 

(20) Christiane Barucoa, Antée, Cahiers de Rochefort, pág. 5.

 

(21) Hélène Morange, Asphodèles et Pervenches, ed. Seghers, pág. 29.

 

(22) Erich Neumann, Eranos-Jahrbuch, 1955, págs. 40-41.

 

(23) Rilke, Choix de Lettres, ed. Stock, 1934, pág.

 

(24) Richard Von Schaukal, Anthologie de Ia Poésie Allemande, ed. Stock, II, pág. 125.

 

*Originalmente publicado em: BACHELARD, Gasto. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

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