Edilia, ou “faça disso o que quiser” – David Harvey

Edilia, ou “faça disso o que quiser”.

David Harvey.*

 

Em algum momento do ano de 1888, Ebenezer Howard leu o romance utópico recém-publicado de Edward Bellamy, Looking Backward [Olhando para trás]. Ele o fez de uma sentada, e viu-se. “deveras transportado” pela obra. Na manhã seguinte,

 

dirigi-me a algumas das partes de Londres em que se amontoava um maior número de pessoas, e, ao percorrer as estreitas ruas escuras, vi as lamentáveis habitações em que viviam a maioria das pessoas, observei por toda parte as manifestações de uma ordem da sociedade que só busca beneficiar a si mesma e refleti acerca da absoluta precariedade de nosso sistema econômico, sobrevindo-me uma sensação avassaladora da natureza temporária de tudo quanto via, e de sua completa impropriedade para a vida produtiva da nova ordem – a ordem da justiça, da unida­de e da amizade.

 

Howard fundiu os dois sentimentos. Ele se empenhou em concretizar a visão de Bellamy e em promover a “ordem da justiça, da unidade e da amizade” de que julgava tão carente a Londres de sua época. Em 1898, ele publicou, com recursos próprios (visto que as casas editoriais e os responsáveis pelas editarias de revistas se mostraram ou indiferentes ou hostis), o texto que viria a ser conhecido como Garden Cities of Tomorrow [Cidades-Jardins do Futuro]. E assim nasceu o movimento das novas cidades”,  movimento  que  mostrou  ser  uma  das  mais importantes intervenções de reengenharia urbana no século XX.

Final de outro século. Percorro as ruas de Baltimore e fico ainda mais constemado do que ficou Howard com a falta de justiça, unidade e amizade. Digo “mais consternado” porque, em nossos dias, as desigualdades são tão chocantes, tão flagrantemente desnecessárias, tão contrárias a todo tipo de razão e a tal ponto aceitas como parte de alguma imutável “ordem natural das coisas”, que mal consigo conter meu ultraje e minha frustração. O imenso conjunto de talentos de toda uma geração desceu pelo ralo e foi cair em pútridas sarjetas de alienação e de anomia, de raiva e de desespero, de desinteresse indiferente.

Não há alternativa? Onde foi parar a visão inspiradora do tipo ofere­cido por Bellamy? É a propósito prática valorizada nestes tempos procla­mar a morte da Utopia, insistir que o utopismo, seja de que tipo for, vai necessária e inevitavelmente culminar em totalitarismo e desastre. Diante disso, é natural que nossos problemas urbanos, quando vistos sob o prisma desse cinismo, se afigurem incorrigíveis, imunes a todo e qual­ quer remédio que esteja ao alcance de meros mortais como nós. Concluí­mos então que “não há alternativa” nesta terra. Ou buscamos solução no pós-vida, ou então, à maneira de Hamlet, damos humildemente preferência a aceitar esses males urbanos que temos “em vez de buscarmos refú­gio noutros males ignorados”.

Vou para meu gabinete e começo a pegar meus livros ao acaso. Leio acadêmico crítico da área jurídica Roberto Unger, que se queixa do fato de todos nos termos transformado em “importantes marionetes dos mundos institucionais e imaginativos que habitamos”. Damos a impressão de ser incapazes de pensar para além das estruturas e normas estabelecidas. Vemo-nos divididos, afirma ele, “entre sonhos que parecem irrealizáveis” (os mundos de fantasia que o   meios comunicação de massa nos oferecem) e “perspectivas que  mal parecem importar” (a vida cotidiana nas ruas).  Deponho o livro de Unger e pego outro, de autoria do filósofo Ernst Bloch, que fica a imaginar por que “a possibilidade não tem tido uma boa imagem”. Há, adverte ele de modo  incisivo, “um interesse  bem  claro que tem evitado que o mundo seja transformado no possível”.  E eis de vulta o “não há alternativa”. Retorno à freqüência com que  Margareth  Thatcher usou  repetidamente essa frase. Caio em transe: “não há alternativa, não há alternativa, não há alternativa” ecoa em minha mente. Isso me faz mergulhar no sono, e, nele, toda uma hoste de figuras utópicas retoma para me assombrar num inquieto sonho. Eis o que me dizem elas:

***

 

Vai sem dúvida surpreendê-lo saber que a revolução acabou por volta do ano 2020. Em meros sete anos, a sociedade passou por uma reestruturação tão radical que ficou irreconhecível.

O colapso teve início no começo de 2013. Seu epicentro foi o mercado de ações, que alcançou na primeira década do século o nível de 85.000 pontos no índice Dow – nível necessário, como assinalaram muitos analistas, para atender de forma adequada às aspirações de membros da ge­ração do pós-guerra [1945-1961] como você, cuja poupança acumulada estava alimentando a subida do índice.

Mas eram inúmeros os outros sinais de problemas. O aquecimento global fez sentir seus efeitos de forma ainda mais virulenta em 2005, criando em algumas regiões desastres ambientais e a perda de colheitas. Isso desencadeou uma pandemia de doenças infecciosas, criou milhões de refugiados ambientais e gerou uma avalanche de solicitações de cobertura cada vez mais onerosa de valores segurados. A desigualdade social era em sua época bastante pronunciada (você se lembra de que, 1990, 358 milionários detinham ativos equivalentes aos de 2,7 bilhões das pessoas mais pobres do mundo?). Por vulta do ano 2010, contudo, 10 por cento da população mundial controlava 98 por cento da renda e da riqueza do mundo.

Boa parte dessa riqueza era gasta na construção de formidáveis barreiras contra os pobres (bem mais rigorosas do que as modestas comuni­dades fechadas por muros de sua época). Na verdade, a construção de barreiras destinadas a manter eles mesmos de fora passou a ser naqueles anos a principal ocupação das pessoas afortunadas o bastante para en­contrar emprego como trabalhadores não-especializados. Não obstante, quanto maiores as barreiras, tanto mais os miseráveis da terra pareciam constituir um perigo em constante aumento.

Foi porém mercado de ações que fez o mundo saltar dos gonzos. Ninguém sabe bem como aconteceu (e em algum momento se sabe?). Os mercados ele ações da Rússia sofreram um súbito colapso, mas na época o mundo estava acostumado com eventos desse tipo (você se lembra da Indonésia ou mesmo da Rússia em 1998?). A expectativa geral era a de que mais uma rodada de austeridade forçada (imposta pelos bancos centrais do mundo), associada com truques financeiros, fosse suficiente para resolver o problema.

Não obstante, alguns abastados membros da geração do pós-guerra decidiram que era hora de realizar seus lucros. Quando eles o fizeram, o mercado caiu; e quanto mais este caía tanto mais outros investidores ten­tavam realizar os seus antes que fosse tarde demais.

Por um período de aproximadamente quatro meses, governo s e ban­cos centrais injetaram recursos suficientes para gerar uma liquidez que mantivesse os mercados estáveis (o índice Dow estacionou perto de 50.000). Mas o mundo se viu de súbito inundado por papel moeda inútil. A inflação acelerou-se e fez que latas de atum e pacotes de arroz passassem a ser meios de troca mais legítimos do que dólares, ienes ou euros. As taxas de juros dispararam, alcançando a faixa de mil por cento.

As empresas – mesmo as lucrativas – foram à falência na esteira do colapso financeiro; e o desemprego (nos lugares em que essas medidas ainda tinham relevância) se elevou a níveis bem superiores aos já conhe­cidos, alcançando até mesmo os abastados (vocês professores ficaram de fato em péssima situação).

O poder político dissolveu-se lentamente sob o peso avassalador da rápida depreciação das moedas. Os governo s foram alvo de falta de confi­ança e de desorganização. Se o melhor governo tem como limite aquilo que o dinheiro pode comprar, logicamente um dinheiro privado de valor só pode comprar um governo imprestável.

Os direitos de propriedade privada e as escassezes artificiais que eles sustentam começaram a erodir sob o efeito da força bruta dos anseios c necessidades humanos. O aparato legal perdeu boa parte de seu signifi­cado à medida que o poder de fazer cumprir contratos privados desapare­ceu no turbilhão de um endividamento incontrolável. O sistema legal cedeu lentamente lugar à força bruta, pois o poder de polícia não tinha condições de distinguir entre o certo e o errado numa multiplicidade de contratos que não se podia fazer cumprir.

As comportas estouraram finalmente no começo do outono [no he­misfério norte] de 2013. No final desse ano, o Dow estava abaixo de 2.000. Os fundos de pensão e as companhias de seguros caíram por terra, o mes­mo ocorrendo com bancos e a maioria das outras instituições financeiras. Os mercados de ações fecharam. A riqueza expressa em papéis perdeu todo o valor. Membros da geração do pós-guerra como você perderam a segurança financeira (por exemplo, seus direitos de aposentadoria sumi­ram completamente do mapa).

Todos perderam, visto que, na grande re­forma de 2005, as pessoas tinham aceito tolamente a idéia de que esque­mas de seguridade social ancorados em recursos privados eram melhores do que os mantidos pelos governo s. Isso tanto alimentara o avanço do mercado de ações como o tomava agora vítima de seu colapso. A tomada militar do poder em 2014 foi violenta. Concebeu-se uma rígida hierarquia de poder e de administração. A lei e a ordem militares foram impostas impiedosamente ao mundo. Dissidentes foram captura­ dos e mantidos sob vigilância, e os miseráveis da terra reconduz idos aos seus compartimentos e deixados ali para sofrer e morrer sob o olho atemorizante e malevolente do aparato militar.

Os generais divulgaram proclamações afirmando que o problema essencial era o excesso de população: um número demasiado de pessoas disputava uma quantidade excessivamente pequena de recursos. A razão entre população e recursos era violada em toda parte, e os níveis popu­lacionais ótimos (calculados por certos ecologistas de sua época como devendo não ultrapassar mais de 100 milhões de pessoas nos Estados Unidos) estavam sendo excedidos em muito. Por mais lamentável que fosse, disseram os generais, as medidas de contenção do crescimento da população que Malthus descrevera em seu famoso ensaio sobre a população (publicado pela primeira vez em 1798), principalmente a fome, a doença e a guerra, constituíam os únicos meios adequados para restaurar o equilíbrio entre nível populacional e oferta de recursos. Só quando a natureza (“revestida de vermelho, com unhas e dentes”)[1] tiver realizado seu trabalho poderá a sustentabilidade ser alcançada e a ordem natural restabelecida.

E assim já se previu, se justificou e se administrou a anarquia que iria sobrevir. Não obstante, os militares assentaram as bases para uma completa reorganização e racionalização da vida social.

À altura de 2010, os bancos de dados sobre os indivíduos, compila­ dos pelas instituições de crédito (bem mais amplamente desenvolvidos em sua época do que vocês podiam suspeitar) tinham sido consolidados num sistema de vigilância unificado. A fim de se proteger, os ricos tinham insistido na implantação de artefatos de vigilância eletrônica no corpo das pessoas que os serviam a fim de ter certeza de que nenhum indesejado pudesse em algum momento chegar à sua presença. Tornou-se possível rastrear todo o corpo dos indivíduos e obter um “bio” [histórico biológi­co] instantâneo de cada um deles (imagine os usos a que isso se prestou!).

Os militares universalizaram esse sistema. Todas as pessoas nas quais eles puderam pôr as mãos sofreram implantes eletrônicos e foram identificadas por um dado código. Era possível controlar do espaço os movimentos de todos. Tratava-se do “Grande Irmão” de George Orwell elevado à enésima potência. Entre os indivíduos de mentalidade revolucionária, o sistema foi considerado algo a ser suprimido em nome da liberdade de escolha e da liberdade de ação.

Os militares também se apossaram de toda tecnologia disponível, a que adicionaram algumas outras, para criar um notável sistema de comunicação imune a ataques mesmo dos mais talentosos especialistas em computação. Do mesmo modo, estabeleceram sistemas de transporte de alta eficiência e bem mais ecologicamente compatíveis. Usados para for mas de vigilância e controle cada vez mais rigorosos, esses sistemas puderam mais tarde ser convertidos para atender a diferentes necessidades.

Privados de qualquer autoridade moral ou legitimidade popular cla­ra, os militares firmaram alianças com forças religiosas, criando um siste­ma global de governo equivalente a teocracias militarizadas, divididas Regionalmente segundo afiliação religiosa (uma divisão que no início de­sencadeou amplos e destruidores movimentos populares que fizeram os ocorridos em 1947 no subcontinente indiano parecer insignificantes).

Essas tecnocracias militares chegaram mesmo a negociar por um curto tempo um período de governo mundial unitário, reconvocando George Soros de seu envelhecimento para ser o primeiro presidente  do Concerto do Mundo. Mas isso logo se desfez. Quanto mais centralizadas e hierarquicamente rígidas se tornavam as teocracias militares, tanto mais darwiniana ficava a luta entre elas, o que fez disparar custosas guerras de desgaste em todos os recantos do mundo.

No início, essas batalhas, invariavelmente descritas por ambos os lados como combate a algum outro império do mal, ajudaram a consolidar controles internos ao mobilizar fervores nacionalistas e ódios religiosos. Não obstante, o desmantelamento das forças internas de provisão dificul­tou cada vez mais o exercício do controle por autoridades centrais em localidades nas quais as pessoas travavam a amarga mas crucial batalha econômica  pela  sobrevivência  diária.

À medida que as autoridades se apropriavam de um número cada vez maior de recursos, o número de descontentes locais se multiplicava. Pipocaram minimovimentos de oposição em todo lugar imaginável, movimentos que militavam contra as corrupções e políticas dos poderes hie­rárquicos, criticando as autoridades por não conseguirem tratar premen­tes problemas de sobrevivência. Esses movimentos começaram a organizar-se em bases localizadas. Construíram pioneiras estruturas coletivas tanto de sobrevivência como de resistência. Contudo, desarmados, eram com freqüência sujeitos a uma violenta repressão.

Permanece obscuro o modo como veio a ocorrer, mas em 2019 esses movimentos díspares e fragmentados unificaram-se de uma hora para a outra (alguns mais tarde disseram que isso decorreu de maquinações de alguma sociedade secreta de organizadores revolucionários, embora hou­vesse poucas provas disso na época).

Os miseráveis da terra se sublevaram espontânea e coletivamente. Criaram um amplo movimento de resistência não-violenta, ocupando si­lenciosamente um número cada vez maior de espaços na economia glo­bal, ao mesmo tempo que faziam incessantes exigências de maior igual­dade, de desmantelamento do poder militar e de impeachnent de líderes militares e religiosos.

As autoridades encararam isso como loucura coletiva. Frustrada s e assustadas, lançaram-se numa violência irracional e incontrolável, e ata­caram num clima de temor e de abominação tanto seus próprios povos como umas às outras. Essas ações reforçaram, em vez de reduzir, a determinação dos despossuídos no sentido de assumir o controle. E em muitos desses enclaves de oposição e de auto-apoio, as pessoas já haviam alcan­çado níveis de convívio, de compreensão e de solidariedade sem prece­dentes na história humana.

Enojados com a violência generalizada, membros das forças milita­res desertaram, tal como o fizeram muitos santos homens que havia muito tempo simpatizavam com os pobres em oposição às autoridades. A reli­gião e o militarismo hierárquicos começaram a entrar em colapso. Seu apoio mútuo corrupto e sua hipocrisia e sua venalidade flagrantes provaram ser a razão de seu fracasso.

Muitos cientistas, médicos e técnicos desistiram de apoiar as teocracias militarizadas e puseram suas habilidades a serviço do novo movimento, de início subversivamente e mais tarde abertamente à medida que começaram a se definir territórios libertados. Desertando de seus cargos como bases de apoio privilegiados de uma teocracia militar corrupta, esses indivíduos lançaram um movimento de reafirmação da missão emancipatória e humanizadora da ciência, da medicina e do conhecimento.

Isso veio a se configurar como um extraordinário momento cultural (momento que seria memorável para todos os que dele participaram). Ao mesmo tempo que a autoridade religiosa se autodestruía e as forças hie­rárquicas de uma ciência militarizada absolutista vinham abaixo, as duas forças reais potentes de que são dotados os seres humanos, a dos compro­missos espirituais e a da inquirição científica, fundiram-se para fundar uma sensibilidade científica humanizada e politicamente consciente que iria formar os pilares da revolução política.

A rebelião recebeu a adesão de muitos intelectuais e artistas. Alguns gerentes e técnicos (particularmente aqueles que tinham a seu cargo fabricas ociosas) apaixonaram-se pelas perspectivas de uma real mudança e lideravam esporadicamente a ocupação de seus locais de trabalho (fábricas, fazendas e escritórios), comprometendo-se em fazer o aparato pro­dutivo vultar a funcionar para fins sociais diferentes dos anteriores.

Depois que as teocracias militares foram reduzidas a um grupelho ilegítimo de poder que brandia armas de destruição em massa – e que chegou a usá-las em algumas terríveis ocasiões -, um movimento de massa pacífico, não-violento, liderado quase inteiramente por mulheres, se disseminou pelo globo.

Esse movimento desarmou tanto os militares como a multiplicidade incongruente de bandos de saqueadores, mafiosos e milícias privadas que surgiam aqui e ali a fim de ocupar o vácuo deixado pelo poder militar em seu ocaso. Esses bandos de assaltantes ameaçavam formar uma ordem social anarconiilista inteiramente nova em que a violência masculina e o patriarcado constituiriam a fonte primordial de autoridade política.

O movimento de mulheres que se contrapôs a essa ameaça surgiu entre as cerca de um bilhão de mulheres que formavam, por vulta de 2010, a maioria do proletariado. Foi esse proletariado feminizado que veio a ser o agente da transformação histórica. Essas mulheres trabalha­vam sob condições insuportáveis de opressão c continuavam a ter a seu cargo todas as responsabilidades-chave da reprodução (ao mesmo tempo que eram excluídas, particularmente nos regimes teocráticos militares, do poder público).

Elas passaram a se chamar em toda parte “Mães dos Ainda Não Nascidos” (nome retirado do primeiro manifesto de um movimento como esse, surgido em Buenos Aires, publicado em junho de 2019). Elas iam de casa a casa, e de lugar a lugar, destruindo todo tipo de armas que podiam encontrar, terminando por galvanizar todo um exército de técni­cos recém-recrutados – tanto homens como mulheres – para neutrali­zar e eliminar todas as armas de violência e de destruição em massa. Foi um movimento não-violento que combinou resistência passiva a ação de massa. Foi o mais potente golpe já dado em favor da igualdade social e do respeito mútuo, mesmo em meio à turbulência revolucionária.

Esse movimento veio a se constituir no catalisador que afastou o mundo de hierarquias centralizadas de poder e implantou uma política de força de massa igualitária que reunia localidades, indivíduos e todo tipo de grupo social numa rede complexa e interativa de intercâmbio global.

À altura de 2020, grande parcela do mundo estava desarmada. As autoridades militares e religiosas tinham aos poucos se asfixiado mutua­ mente num abraço mortal. Todos os interesses que evitariam a realização do possível foram subjugados. As pessoas podiam refletir sobre suas vi­sões alternativas, discuti-las e comunicá-las umas às outras.

E essa é a sociedade com que os miseráveis da terra, liderados pelo movimento Mães dos Ainda Não Nascidos, tinham sonhado e que vieram então a realizar, em aliança com os cientistas, intelectuais, pensadores espirituais e artistas que se haviam liberto de sua subserviência política e ideológica  mortal ao poder de classe c à autoridade  militar-teocrátia.

 ***

 

A unidade básica de habitação recebe o nome de Lar [Hearth]. É formada por algum número entre 20 e 30 adultos e todas as crianças vinculadas a coletividades parentais chamadas Pradashas (como já ocorrera no passado) que são parte integrante dos Lares. Cada Lar forma um arranjo coletivo ele convivência organizado como uma economia comum em favor do auto-apoio mútuo.

Os membros do Lar fazem refeições e trabalham juntos, tomando decisões coletivas acerca de sua auto-organização interna e de formas de “ganhar a vida” por meio de trocas com outros Lares. Um Bairro abarca cerca de dez Lares, e uma unidade organizacional mais ampla, denomina­ da Edilia, coordena sem rigidez atividades que recobrem 200 ou mais Lares (mais ou menos 60 mil pessoas). A unidade política contínua mais ampla é uma Regiona, que compreende algo entre 20 e 50 Edilias (no máximo 3 milhões de pessoas). O objetivo é que essa estrutura forme uma biorregião de habitação humana que se empenhe em ser o mais autossuficiente que puder, dando cuidadosa atenção a problemas e sustentabilidades ambientais.

Para além das Regionas, há a Nationa, que é uma federação frouxa­mente organizada de Regionas que se unem para propósitos de escambo e comércio mútuos. Abrange tipicamente ao menos duas Regionas em cada uma das partes tropicais, subtrópicas, temperadas e subárticas do mundo, respectivamente, com uma diversificação semelhante entre Regionas continentais e marítimas, áridas e bem providas de água. Os estatutos da federação são periodicamente renegociados, e por vezes Regionas mudam de Nationa conforme suas necessidades. Além disso, como novas Nationas podem se formar à vontade enquanto outras se dissolvem, não há uma escala fixa de população nem alguma organização política fixada além dos estatutos da federação.

Como o livre fluxo de bens entre essas Regionas ecologicamente definidas é fundamental para o apoio a um padrão de vida razoável (prote­gendo o máximo possível da inanição e da escassez localizadas), ele se traduz igualmente na livre circulação de pessoas. Em conseqüência, os graus de mistura racial, étnica e econômica (que já ocorrera em larga medida no período revolucionário) tornam sobremodo sem sentido todo tipo de definição da Nationa segundo as linhas antigas de raça, etnia ou mesmo de herança e cultural comum.

Isso não implica a homogeneização. Na verdade, são notáveis os ní­veis de diversificação econômica, política e cultural em comparação com sua época. Isso ocorre, no entanto, no âmbito de u complexo sistema de auto-apoio mútuo e de práticas não-excludentes que cobrem toda a Nationa.

Foi por  conseguinte formulado  algum  tipo  de solução ainda  por aper­feiçoar para o dilema configurado como, de um lado, construir um siste­ma bem organizado para propósitos da garantia de adequadas oportunidades de vida para todos, e, de outro, permitir o tipo de desordem caótica que  proporciona a  base  para  as  interações  criativas e a  auto-realização pessoal.

É digno de nota, no tocante aos Lares e Bairros, por exemplo, o fato de terem alcançado um alto grau de auto-suficiência e se tornado eles mesmos centros de criação de diversidade cultural e de estilos de vida. Trata-se de centros onde reina grande sociabilidade e de experimentação cultural, lugares nos quais a arte da conversação depois do jantar, as apresentações musicais e os saraus de poesia, bem como a “conversa com o espírito” e a narração de histórias são cultivados com tanta dedicação amorosa que faz deles sedes de um contínuo envolvimento social (que, a propósito, não se mostra harmonioso em todos os aspectos!).

Os Lares e Bairros são locais em que as pessoas que desejam ser diferentes podem exprimir esse seu anseio com a maior liberdade.

Sua forma geral ele organização é simbolizada pela distribuição físi­ca. A residência da família nuclear que dominava a forma urbana em sua época e em seus países teve de ser substituída por arranjos mais coletivos (descobriu-se que o protótipo foram algumas estruturas implantadas na região oeste norte-americana pelos mórmons, que praticavam a poligamia, no final do século XX). Segmentos inteiros de cidades foram conver­tidos. Fizeram-se passagens no meio elas paredes divisórias entre casas geminadas, ou, no caso de habitações separadas e dos subúrbios, com amplos espaços entre as residências, construíram-se calçadas e cômodos para aproveitamento de espaços vazios entre as estruturas já existentes a fim ele, ligando-as, transformá-las numa unidade contínua ele moradia de alta densidade (liberando alguns terrenos suburbanos antes inúteis para o cultivo intensivo). Ainda que tenham sido criados espaços para servir de cozinhas comuns e de salões de refeições, todos têm seu quarto particular dotado de equipamentos básicos e, neles, podem usar seu espaço como bem o entenderem.

Ligam-se vários Lares ao redor de um centro de Bairro que abriga serviço gerais de educação e de assistência à saúde. Em alguns casos, adaptamos centros velhos de cidades e mesmo de metrópoles para essas tardas (embora nossa virulenta oposição a toda e qualquer estrutura com mais de quatro ou no máximo sete andares tenha implicado grandes trans­formações no projeto urbano na região que se costumava chamar de Oes­te). Em outros lugares, formas e modos ele vida tradicionais específicos foram adaptadas, de acordo com a necessidade, às nova circunstâncias. Os Bairros são igualmente pontos de intensa interação social e de diver­são (a loja centralizada de vídeos e gravações de cada Edilia pode aqui ser aproveitada à vontade).

As áreas protegidas no interior dos setores reorganizados das cida­des foram em sua maioria transformadas em jardins murados – com al­guns espaços apropriados para as crianças brincarem e alguns repousantes caramanchões para os adultos -,jardins nos quais se faz todo tipo de cultivo intensivo (produzindo uma profusão de frutas e legumes) suplementados por estufas e sistemas hidropônicos [em água] de cultivo que garantem o suprimento para todo um ano de produtos que variam de legumes usados em saladas a uma excelente maconha de alta qualidade (a principal droga recreativa preferida).

A agricultura e a jardinagem urbanas são um aspecto proeminente (certos terrenos devolutos da cidade de Nova York eram usados dessa maneira em sua época). Isso tem importância tanto econômica como social, dado que muitas pessoas se comprazem claramente em dedicar-se a essas atividades. Em dias agradáveis, os jardins se tornam palco de muitos contatos sociais e de “conversas com o espírito”.

A produção de adubo de restos orgânicos se combina com uma adaptação de um antigo sistema chinês de circulação noturna do solo (um triunfo da engenharia bioquímica), o que permite a reciclagem de nutri­entes tanto na escala dos Bairros como na das Edilias. Você sem dúvida se lembra do comentário de Victor Hugo segundo o qual “a história da civilização está em seus esgotos” – bem, apresentamos  nosso sistema como prova de que somos uma sociedade que dá passos na direção da formação de um tipo radicalmente distinto de civilização!

Os tetos das habitações são adornados por painéis de captação de energia solar e pequenas velas como as de barcos (o efeito é um tanto semelhante a obras de Heath-Robinson [cartunista inglês] e provavelmente não agradaria em termos estéticos a vocês). Potentes baterias armazenam energia nas áreas dos porões, sendo suplementadas por um elaborado sistema de células de energia (uma inovação aprimorada pelos militares). Mobiliza-se ainda uma variedade de outras fontes locais de energia.

Considera-se de modo geral a dependência de energia gerada por fontes extemas algo debilitante c degradante. Cada Bairro tem sua reser­va subterrânea de petróleo para emergências. Mas é uma questão de or­gulho não usar essas reservas (a reposição é cara). As pessoas com fre­qüência preferem se achegar umas às outras (ou se abraçar!) a usar esse petróleo.

No interior dos Lares, as tarefas são compartilhadas. Cozinhar, fazer limpeza e todas as outras tarefas domésticas são divididas de acordo com uma escala rotativa. A maioria dos Bairros conta com indivíduos treina­dos para fazer a necessária manutenção da estrutura física e de seus sis­temas eletrônicos.

Além disso, cada Lar se especializa em algum tipo especifico de produção (assados, bebidas, costuras, confecção de vestidos e camisas, fabricação de massas, molhos, conservas etc.), que troca com outros. (Suas habilidades de preparação de assados e de conservas teria grande utili­dade!) O sistema de comunicações é aqui crucial. Pode-se fazer pedidos eletronicamente e a produção excedente é anunciada em listas de discus­são. O trabalho e as trocas podem assim ser organizados de modo eficien­te e com a redução de perdas ao mínimo.

Lares específicos usam com freqüência seus créditos de trabalho (que logo vão ser explicados) para acumular um estoque especializado de ma­térias-primas (feijão desidratado, arroz, farinha de trigo, açúcar, café, te­cidos e linhas e assim por diante) que podem ser trocadas por produtos de outros Lares. Um estoque coletivo formado pela produção excedente é distribuído entre os Lares, de modo que a Edilia fique bem suprida de uma quantidade de bens não-perecíveis  que duram vários meses.

Os Lares fazem troca de trabalhos. Por exemplo, grandes projetos de construção ou de renovação a ser realizados no âmbito do Bairro ficam a cargo de trabalhadores de diferentes especialidades vindos de vários Lares, ainda que em algum; casos se “importe” trabalho de outros Bairros em troca da participação em empreendimentos ulteriores. Balanços de créditos de trabalho elaborados por computador constituem um recurso básico de registro destiná-lo a garantir uma troca justa. Os Lares também adquirem fama e reputação de acordo com a gene­rosidade e a sofisticação da hospitalidade que oferecem.

As trocas recíprocas que ocorrem entre eles tornaram-se assim um aspecto vital da vida política e social. A competição no tocante à generosidade para com os outros é um importante valor.

Os Lares  podem  parecer  opressivos  para  o indivíduo.  Claro que eles não promovem o tipo de individualismo exacerbado com que você está acostumado. Mas os indivíduos podem mudar de Lar se o deseja­rem. Como o caráter elos Lares difere muito (eles variam de acordo com estilos de preparação elos alimentos, gostos musicais, expressão cultural, tradições, combinações de gêneros), o indivíduo tem ainda mais opções de tipo de Lar do que os nova-iorquinos de sua geração com respeito a restaurantes étnicos.

A única restrição é que a mudança de Lar oculta apenas anualmente c num dado momento (a primeira semana de novembro é a data geral de transferência). Exige-se que a comunicação da intenção de mudar seja feita com um mês de antecedência, de modo que seja possível anunciar vagas pelas listas de computador, e com sorte preenchê-las. A maioria das pessoas prefere não se mudam mas os indivíduos que se sentem oprimidos têm a oportunidade de fazê-lo, e alguns indivíduos inquietos (você prova­velmente seria um deles) nunca ficam muito tempo num mesmo Lar.

Esse modo de organização é suplementado por outra importante inovação- a instituição de “anos sabáticos”. A cada sele anos (depois que a pessoa tiver chegado aos 17 anos), todos os indivíduos têm o direito de passar um ano em outro lugar (praticamente em qualquer lugar do mundo).

Os indivíduos que o fazem têm de se comprometer com a plena par­ticipação nos Lares em que venham a estar. Mas os anos sabáticos propor­cionam uma notável oportunidade de aprender e de explorar o mundo de uma maneira diferente. Muitos preferem não aproveitar essa oportunida­de (mais do que, digamos, uma vez em toda a vida), mas um número quase igual usa regularmente seus anos sabáticos com benefícios o prazer, por vezes aproveitando a oportunidade pura se aperfeiçoarem em ha­bilidades as mais diversas.

Os indivíduos também contam com seu orçamento pessoal privado, que lhes confere direitos limitados de trocar bens e serviços por si mes­mos fora do âmbito da economia dos Lares. Trata-se de um resquício dos muitos sistemas de trocas econômicas loca is [LETS – Local Economic Trading Systems] que surgiram por toda parte na época do colapso (você até já conta com alguns deles em sua época).

Essa prática equivale numa ampla rede computadorizada de escambo. Os indivíduos têm de ganhar seus pontos mediante o fornecimento de bens e serviços específicos noutros indivíduos, podendo então usar os pontos obtidos para adquirir coisas ou serviços de que precisam pessoalmente. Entra-se no sistema aos 17 anos, quando cada pessoa recebe uma dotação social inicial, estabelecida pela comunidade da Edilia, que lhes concede um número inicial de pontos para que comecem a comerciar. A herança passa assim a ser um bem coletivo, em vez de pessoal e individual.

Como grande parcela da organização básica da sobrevivência foi absorvida pelas atividades coletivas dos Lares, a importância das trocas individuais sofreu um certo declínio. Mas há todo gênero de itens, como objetos para coleções e itens vinculados com a vaidade pessoal, que são trocados dessa maneira. O apetite de negociação, de fazer trocas, é assim satisfeito. Os inúmeros “mercados das pulgas” e outros mercados informais distribuídos pelos territórios das Edilias provam a importância des­sa atividade. Deve-se contudo dizer que “ir ao mercado” é considerado hoje mais uma oportunidade de contato social do que propriamente de comércio. Trocam-se objetos, com muita freqüência, mais pela oportunidade da conversação e do contato social do que por alguma motivação de vantagem econômica.

A forma mais disseminada dessa atividade (e provavelmente a mais chocante aos seus olhos lascivos) é a troca de favores sexuais, prática que merece uma explicação um pouco mais completa e franca. Na verdade, todos os anúncios “pessoais” e “redes de encontros” que atulhavam os meios de comunicação de sua época transformaram-se num sistema computadorizado de organização do intercâmbio sexual (e terão eles de fato sido algum dia mais do que isso?).

Reconhecemos plenamente algo que há muito deveria ser óbvio: que a relação entre a atividade sexual, de um lado, e a organização da parentagem, de outro, é inteiramente acidental.

Os recursos de última instância que as forças teocráticas usaram para manter viva a família como o fundamento da ordem social foram sendo vistos cada vez mui como um exercício de controle social por meio do controle dos desejos, disposições e mesmo funções de corpos individuais. A queda da teocracia coincidiu com o colapso desses controles.

Seguiu-se então a isso um intenso debate sobre como seria possível organizar a vida sexual e as atividades parentais de modo a substituir as estruturas antigas e disfuncionais da família (instituição que por vezes funcionou bem em sua época, mas que na maioria dos casos era o centro da violência, dos maus-tratos, da alienação e, o que era ainda pior, da negligência das reais necessidades das crianças – de crescer num ambiente seguro, amoroso e que lhes dê apoio).

A solução a que chegamos é mais ou menos o que descrevemos aqui. Aquilo que recebe o nome de pradashas compreende certo número de indivíduos que se unem por meio de um contrato irrevogável com o propósito de criar filhos. A unidade pode ter qualquer tamanho, mas o mínimo é de seis adultos, ficando a média entre oito e nove. Há casos de pradashas só masculinas ou só femininas, sendo porém mais comuns as que apresentam alguma combinação de sexos. Os “agregados” podem igualmente participar da parentagem, embora não tenham nenhuma liga­ção irrevogável com a unidade. Agem da maneira como avós e avôs, tios e tias agiam um dia, e podem ser chamados a ajudar quando necessário. O todo se assemelha à grande família estendida de tempos imemoriais, em bora se baseie agora em vínculos voluntários, em vez de em relações de consangüinidade.

A formação de uma pradasha requer muitas negociações preparató­rias. Ela reúne pessoas que têm grande prazer em gerar e criar filhos, e produz um ambiente de apoio a essa atividade. A concentração exclusiva no cuidado dos filhos vai, temos toda certeza, trazer compensações em pou­co tempo, educando crianças cuja estrutura psíquica e cujas atitudes são totalmente diferentes daquelas com que vocês estavam acostumados.

Relações baseadas na afeição, no amor e no respeito são fundamentais para o bem-estar da pradasha, o que também envolve relações sexuais. Mas os indivíduos ficam completamente livres para fruir relações sexuais (de todo tipo) com outras pessoas. Com esse objetivo, há um amplo mercado computadorizado para a troca de serviços sexuais, mercado no qual os indi­víduos podem ganhar pontos ao prestar serviços sexuais a outras pessoas e usar os pontos para conseguir favores sexuais de outras pessoas.

Essa liberdade é acompanhada por certas medidas que vocês consideraram draconianas. Por volta de 2005, conseguiu-se finalmente produzir um contraceptivo para os homens, tornando-se possível inserir na corrente sanguínea uma pequena cápsula que tem a duração de um ano.

Todos os homens que desejam ser incluídos na rede de encontros têm de se submeter a esse procedimento médico a partir da puberdade. Além disso, passou a ser obrigatório um cuidadoso acompanhamento da vida sexual (principalmente de doenças sexualmente transmissíveis). Um histórico completo da saúde sexual de todo parceiro potencial é registrado na rede de encontros e fica disponível para inspeção.

Isso vai naturalmente ser anátema para seu modo de pensamento. Não obstante, se se consideram as incríveis liberdades que o sistema proporcio­na sob outros aspectos, essa idéia vai se tornar mais palatável. Na verdade, parece-nos que sua intensa preocupação com a privacidade nessas questões tinha muito mais relação com o controle dos comportamentos sexuais mediante o medo do que com a real proteção dos direitos individuais. Os intercâmbios sexuais desse tipo têm alguns benefícios imprevis­tos, a par de problemas igualmente imprevistos. Do lado positivo, o sistema leva a uma maior igualdade entre os sexos no tocante às práticas sexuais.

Os homens, por exemplo, a fim de ganhar pontos, têm de construir uma reputação com respeito à satisfação das mulheres, e, por conseguinte, a sexualidade delas tornou-se bem mais dominante. Foi na realidade o movimento das mulheres – que teve muitos membros forçados a participar do comércio sexual a fim de conseguir as coisas em sua época – que assumiu a liderança no estabelecimento desse sistema mais igualitário durante sua campanha em favor do desarmamento. Foram também seus membros que constituíram a vanguarda, em larga medida por necessidade, do desenvolvimento de sistemas coletivos de cuidado das crianças que mais tarde tiveram como evolução as pradashas.

A exploração de todo tipo de relações sexuais significa igualmente o desaparecimento de categorias como “heterossexual”, “gay” e “queer” (sexualidades alternativas), dado que ninguém mais se vincula de modo particular a uma dessas identidades, mas percorre livremente práticas sexuais ao seu bel-prazer.

O maior perigo é o da obsessão sexual – a incapacidade de tratar a  sexualidade como fonte de prazer e o desejo de usá-la para obter a posse do outro ou para promover a total fusão de personalidades. Este mostrou ser um dos mais profundos problemas, tendo requerido muito esforço e um cuidadoso aconselhamento para limitar os prejuízos potenciais advindos de semelhantes maus hábitos.

O equilíbrio  que hoje conseguimos  entre intercâmbios sexuais e parentagem funciona muito bem. As crianças são criadas da maneira cor­reta, recebendo todo o amor e toda a atenção, e a alegria de fazê-lo é a mais ampla que se poderia esperar. Elas deixaram de ser vistas como propriedade, como posses, e seu desenvolvimento ocorre em oposição às tenebrosas adulações da economia da mercadoria e da batalha pelas van­tagens pessoais que tanto ensombreceram a vida que vocês levavam em sua época. O universo da parentagem é protegido dos efeitos potencialmente disruptivos e destrutivos  da busca e da liberação de desejos se­xuais (o que torna todos os divórcios, atividades extraconjungais, assim como a moralidade  pública lasciva de sua época coisas do passado).

A parentagem também se acha imune aos danos causados em sua época pelas esmagadoras exigências de um mercado de trabalho orienta­ do exclusivamente para a produção do lucro em vez de para o atendimento dos anseios e necessidades públicos.

Isso ilustra, no entanto, um princípio mais geral. Em nenhuma sociedade pode haver uma condição de total liberdade. É preciso chegar sempre a algum tipo de equilíbrio entre os direitos individuais e a busca pessoal de desejos, de um lado, e os direitos, regras e obrigações coletivos, de outro. A revolução de 2020 simplesmente alterou o equilíbrio que havia no sistema que você conhece. Ela libera o individualismo e a busca da auto-realização em certas direções justamente por não temer restringi-los em outras.

Essa mudança tem como sua manifestação mais evidente a conver­são do sistema -de identificações pessoais de início estabelecido pelos órgãos de crédito e acentuado pelos militares. Os libertários queriam aboli-lo por completo.

As mulheres, porém, alegaram que não era ruim poder saber instantaneamente, fazendo uma busca, com quem estavam lidando. Alguém lem­brou uma proposta segundo a qual a democracia poderia ser mais beneficiada tornando disponíveis os bancos de dados a todas as pessoas, em vez de tentar passar sem eles ou, o que é pior, fingir que não existiam. Todos sabem agora, acerca de todos, aquilo que todas as instituições de crédito, todos os órgãos governamentais sabiam em sua época (e bem mais elementos). Essas informações são instantaneamente tornadas disponíveis com qualquer contato entre duas pessoas, de modo que ninguém pode usá-las com propósitos privilegiados ou autoritários.

A perda de uma privacidade presumida (mas, na prática, em larga medida fictícia) tem de ser aceita, mas os benefícios em termos de segurança pessoal são imensos. Por exemplo, a identidade de todo autor de atos violentos é imediatamente conhecida. Os Lares e Bairros podem tornar-se abertos a todos, dado que todos os que vêm de fora são facilmente identificados. Todos os espaços sociais se acham agora abertos de maneira antes inconcebíveis – a segurança já não depende de paredes, portas, fechaduras, cercas, barreiras eletrônicas. Ela tem como base o co­nhecimento simples, disponível para todos, acerca de quem está onde.

Tomemos outro exemplo. O transporte gratuito está disponível para todos. Os sistemas de transporte eficazes e ecologicamente compatíveis que os militares conceberam são usados otimamente para facilitar o intercâmbio e o deslocamento ao redor do mundo.

No plano local, pequenos carros elétricos (projetados para não per­ correr mais do que 30 quilômetros e não ir mais rápido do que 30 quilô­metros por hora) e bicicletas ficam nas extremidades de todo Bairro. A inserção de um cartão-chave de ignição permite que todo adulto dirija qualquer veículo e o ligue outra vez na rede ao chegar ao destino (o imprescindível cartão-chave de ignição só é liberado se se fizer adequada­ mente a religação, e o uso abusivo de qualquer equipamento pode facilmente ser rastreado).

A locomoção pode ser lenta e restrita, porém, tal como o sexo, é gratuita e segura.

Isso ilustra ainda outra importante característica de nossa sociedade: ela antes se desacelerou de modo geral do que adquiriu mais velocidade. Também se tornou bem mais notavelmente silenciosa: os violentos níveis de poluição sonora que eram um contratempo tão insuportável em sua época praticamente desapareceram. Claro que, nesse aspecto assim como em muitos outros, existe considerável variação entre Bairros e Edilias – algumas destas últimas muito apreciadas por alguns membros das gerações mais novas, são marcadas por um estilo de vida frenético, bem como por ruidosos e agitados festivais. Alguns membros das gerações mais novas também praticam seu amor ao movimento usando patins motorizados a veloci­dades fantásticas (e, de vez em quando, lamentamos informar, fatais).

A inovação tecnológica em sua época nunca se preocupou de fato em aliviar a carga de trabalho ou tornar mais fácil a vida de todos. O que a interessava era obter lucros e impor a populações inteiras comportamentos que as assemelhavam a ciborgues (apêndices humanos de máquinas tanto no local de trabalho como, o que é mais insidioso, em casa). Ela impunha aos níveis de estresse um aumento supremo por meio de sua busca incessante da aceleração e da intensificação. O objetivo dessa ino­vação tecnológica não em emancipar as pessoas ele anseios, pressões e necessidades. As perspectivas de humanização das relações técnicas es­tavam excluídas das possibilidades concebíveis. O modo como a vemos agora é descrito a seguir.

Sustentamos que a termologia tem de tornar a vida antes simples do que mais complicada. Não interrompemos a inovação tecnológica, haven­do na verdade muita ênfase nela (particularmente em áreas como a ele­trônica e a medicina genética, que consideramos a cura última de muitas doenças, bem como a ciência dos materiais), mas as regras que governam sua aplicação são bem rigorosas.

Comitês  avaliam  novas  tecnologias  da maneira a seguir. Essas tecnologias  têm  de:

 

  1. aliviar a carga de trabalho;
  2. ser ambientalmente compatíveis, se não benéficas (por exemplo, têm de gerar resíduos não-tóxicos e que possam ser facilmente reciclados);
  3. ser antes menos do que mais complicadas e, por conseguinte, de uso e manutenção mais fáceis da parte de todos; e
  4. ser coerentes com o ideal de que o trabalho é uma atividade tanto técnica como social (tecnologias que isolam as pessoas são menos favorecidas do que aquelas que as unem).

 

Por fim, a tecnologia deve funcionar em benefício de todos, com ênfase especial nos menos privilegiados.

Esses requisitos nem sempre são compatíveis (como você sem dúvi­da vai rapidamente objetar). Por isso, os comitês têm com freqüência di­ficuldades para chegar a uma decisão. Não podemos afirmar que sempre fazemos julgamentos corretos, mas a incerteza desse tipo nunca magoa ninguém e, para dizer a verdade, até gostamos do desafio.

Outro símbolo marcante de mudança é a reforma do calendário. Ten­tou-se executá-la muitas vezes antes (principalmente no curso da Revo­lução Francesa), mas só agora se alcançou sucesso. A abolição dos fins de semana vai sem dúvida ser um choque para você. Isso aconteceu por causa da importância religiosa dos sábados e do­mingos, e das maneiras abusivas como o poder teocrático manipulava populações inteiras ao convocá-las a se submeter e prestar culto nesses dias.

Temos agora semanas de cinco dias e meses de seis semanas, o que faz sobrar cinco dias (seis em anos bissextos), que inserimos entre junho e julho como “Dias Festivos”- ocasiões de estrondosas celebrações (para os quais as Edilias e os Bairros se preparam assiduamente no longo do uno). Isso torna eventos como o Mardi Gras [celebração da Quarta-Feira de Cinzas] e o carnaval do Rio de sua época bem menos majestosos.

Mas, voltando a assuntos mais sérios, espera-se que toda pessoa adulta “trabalhe” em três dos cinco dias da semana com uma jornada de “trabalho” de cinco horas por dia. Como a flexibilidade é intrínseca, os indivíduos podem trabalhar dois dias de sete horas e meia ou outra combinação qualquer. Isso significa uma carga de trabalho de mais ou menos 90 horas por mês, e, com um mês de férias por ano, e um ano sabático a cada sete anos, o tempo de trabalho formal de cada pessoa ao longo da vida sofre significativa redução.

Os Lares também podem designar dez outros dias como “Dias de Ritual”. A maioria dos Lares usa pelo menos quatro de seus dias para participar de celebrações dos Bairros e das Edilias (mais ou menos como os festivais de rua de vocês), porém os demais dias permanecem  no âmbi­to de cada Lar.

Escolhe-se todo tipo de ocasiões (embora seja notável que rituais religiosos e mitológicos mais antigos – como o dia dos mortos- são com freqüência preservados). A maneira de celebrar varia da calma con templação interior a estrondosos “dias de hóspedes” em que se convidam forasteiros para visitar, fazer refeições, beber, fazer apresentações artísti­cas ou seja lá o que for.

Há outro interessante ajuste no sistema de trabalho. Metade do labor coletivo de cada um dos Lares costuma ser alocada para atividades organi­zadas pelas Edilias ou Regionas em troca de materiais, direitos e serviços necessários (como transporte gratuito, máquinas e equipamentos, material de construção e assim por diante). A outra metade é dedicada a atividades internas dos Lares, destinadas a produzir bens para troca com outros Lares (os assados, bebidas, costuras e assim por diante já mencionados).

Uma das mais importantes discussões no interior dos Lares (e por vezes causa de amargas dissensões) é como introduzir variações nessas proporções. O fornecimento de horas de trabalho às Edilias ou Regionas pode ser reduzido se um Lar decidir fazer mudanças de estilo de vida ou a introdução de mecanismos de produção interna que o torne menos de­ pendente das trocas externas.

Se o Lar deseja materiais da Regiona ou o aumento de direitos de transporte, pode enviar um número proporcionalmente maior de unidades de trabalho à Regiona a fim de obtê-los. Mas o número de créditos de trabalho necessários para obter produtos ou serviços da Edilia ou Regiona varia. Quando falta trabalho no nível da Edil ia ou Regiona, são necessá­rios mais créditos de trabalho para obter materiais e serviços delas.

Surgiu um curioso tipo de mercado de trabalho. A proporção de tro­cas (medida em termos de créditos de trabalho) entre Edilias, Regionas e Lares flutua em bases semanais.

Esse sistema resulta em eventuais instabilidades, mas de modo geral funciona bem. A maioria dos Lares oferece um estoque regular de trabalho tanto às Regionas como às Edilias em troca de um estoque regular de créditos a ser usados para conseguir o que os Lares precisarem.

A eventual escassez resultante é ocasião de enfáticas queixas. Mas também tem o efeito positivo de estimular uma grande atividade de reciclagem (de tudo: pregos, plásticos, papéis e assim por diante) e de lembrar a todos que os maus velhos tempos (típicos de sua época) da sociedade do desperdício e da obsolescência instantânea ‘de modo algum devem voltar. Seja como for, o tipo de escassez que surge tem a virtude de afetar igualmente a todos, em vez de ser jogada para os menos afortuna­ dos (como acontecia em sua época).

Talvez o aspecto mais fascinante desse sistema seja no entanto a gradual dissolução da separação entre trabalho e brincadeira. Embora se reconheça comumente a necessidade de algum sistema formal de conta­bilidade para que a sociedade funcione, o fato é que as pessoas economicamente ativas o são porque gostam de o ser, e boa parte dessa atividade é agora canalizada para o trabalho agradável, mas produtivo.

O que antes era considerado hobby agora é parte da produção, e boa parte da produção é organizada como se fosse um hobby. A jardinagem e a administração de pomares, a educação de crianças pequenas, o cuidado do ambiente, a carpintaria e pequenos trabalhos estranhos de melhoria, e até grandes projetos de ampliação ou reforma de edificações, ao lado da culinária e da experimentação com formas culturais (a pintura, a matemática, a música, a poesia e assim por diante) são todas atividades organizadas que não têm nenhuma relação com  requisitos “formais” de traba­lho e tudo a ver com a busca de uma vida social satisfatória. Os Lares mantêm uma constante atividade de organização de projetos para seu próprio divertimento  e melhoria.

Assim, o número formal ele horas dedicadas a educação tão infantil so­freu grande redução. As crianças acompanham diariamente os adultos (e a maioria deles, embora nem todos, aprecia a experiência) nos jardins e pomares, nas estufas ou nos lagos piscosos, nas oficinas, a todos os lugares. Elas fazem trabalhos práticos enquanto aprendem botânica, biologia, princípios de agronomia, artes mecânicas e assim por diante

.Não mais existem locais formais de culto. As igrejas passaram a ter novos usos – as menores tornaram-se espaços de convivência comunitária, outras são centros de Bairros e outras ainda grandes salões recreativos (a ginástica é uma atividade muito favorecida) ou então lugares em que podem ser realizados concertos, eventos teatrais, leituras poéticas, competições  musicais e assim por diante. Assim, preserva-se a beleza desses espaços (você, que assiste com freqüência a eventos musicais em antigas catedrais vai apreciar isso).

Gosta-se muito de música, mas ela assume uma incrível variedade de formas. É notável que a matemática e a poesia tenham passado a for­mar com a música um conjunto, e que cada uma aprimore tanto a outra que se tenha criado uma concepção geral da poesia do universo que todos apreciam de uma ou de outra maneira. A música, a matemática e a poesia tomaram-se o foco das mais grandiosas celebrações públicas.

O colapso das religiões formais não implicou perda de espiritualidade. Na verdade, as pessoas apreciam e admiram todas as modalidades  de “conversas com o espírito”. E ainda podem ler e venerar os textos religiosos como belas histórias e narrativas morais que contêm tanto intensas percepções espirituais como lições práticas de vida.

Aquilo que denominamos “conversas com o espírito” não é província exclusiva de pregadores ou indivíduos eruditos. Trata-se de algo disponível a todos. Quando se sentem tocados, os indivíduos comunicam suas idéias em casa, no local de trabalho, nas ruas ou em qualquer espaço público.

Você sem dúvida vai encarar isso com horror, imaginando que o mundo inteiro foi tomado pelos pregadores das esquinas tão comuns na cidade de Nova York. Só que agora essa prática é intrínseca a um modo de vida centrado na convergência entre forças espirituais e organização racional. Os indivíduos podem explorar, com curiosidade infantil, os domínios dos pensamentos, sentimentos e sonhos. E podem fazê-lo numa atmosfera da maior espontaneidade.

Pode parecer que não há dissensões entre nós. Mas isso nada tem de verdadeiro. Os conflitos e disputas (e não apenas entre as pessoas que falam com o espírito, que costumam discutir veementemente) não são suprimidos, mas considerados fatores positivos. A dialética da discordância é amplamente considerada fundamental tanto à auto-realização como à mudança social. Há não obstante algumas notáveis diferenças no tocante à maneira como as disputas são formuladas, enfrentadas e resolvidas.

Para começo de conversa, a profissão de “advogado” desapareceu por completo (evento histórico que multidões de sua geração desejaram com fervor que acontecesse, ainda que os praticantes já estivessem se destruindo mutuamente em seu próprio espírito litigioso). Retrospectiva­mente, julgamos a comunidade legal a principal responsável pela acele­ração do retorno da geração anterior à barbárie.

Mas as tradições legais (assim como as da religião) foram preservadas, visto que são amplamente reconhecidas como preparação crucial para uma vida social civilizada. No passado, contudo, elas se limitavam a ser uma pre­paração para algo que nunca acontecia. Desse modo, preservamos as tradi­ções da lei, mas prescindimos das profissões de advogado e juiz.

Essa atitude alcança outras áreas. As universidades, por exemplo, foram desmanteladas. Sob o controle e a administração exclusivos de grandes forças corporativas nos primeiros anos do século XX, por vulta de 2010 tinham se tornado centros de pesquisa corporativa/militar ou centros de treinamento privilegiado de uma elite corporativa/estatal autoreprodutiva. O único tipo de conhecimento acadêmico tradicional tolerado por elas era um academicismo obscurecedor especificamente projetado (ou assim dava a impressão) para retirar da aprendizagem todo e qualquer prazer e para evitar a formação ou transmissão de idéias relevantes.

Não obstante, o amor ao conhecimento não desapareceu. Agora li­berto de sua profissionalização, passou ele por uma grande revivescência. Os indivíduos se dedicam ao seu amor à literatura, à poesia, à matemática, à história, à geografia, à ciência e às artes (tanto mecânicas e técnicas como tradicionais) de todas as maneiras possíveis. E o fazem numa atmosfera de intenso prazer, de júbilo e de disputa, ainda que sempre de um modo compatível com suas outras tarefas (de carpinteiros, projetistas gráficos, cozinheiros ou qualquer outra coisa). A arte suprema da tradução é altamente venerada e valorizada.

Muitos preferem tirar um ano sabático (ou mesmo mudar de uma vez para um) num Bairro ou Edilia específicos em que certos grupos de pes­soas se reuniram pura partilhar o amor comum a alguma espécie de apren­dizado. Outros o usam para aprender o humilde ofício da tradução por meio da total imersão nos modos de viela elos outros.

 

Os jovens, que quando alcançam 17 anos têm de passar no mínimo um uno fora de sua Pradasha, com frequência vão para um lugar em que alguns sábios notáveis estão reunidos para estudar; por exemplo, ciências, matemáticas, direito, religião, sistemas totêmicos ou as grandes literaturas da Índia, da China e da Europa. Embora a maioria das informações possam ser agora armazenadas eletronicamente, podem-se encontrar em algumas Edilias antigos livros e manuscritos, ao lado de técnicas locais de produção de livros que garantem a continuidade do antigo prazer que vem de se acon­chegar num canto com um bom livro.

A abolição da maioria das formas de propriedade privada e a transição para a propriedade comum eliminam boa parte dos conflitos legais que dominavam seu mundo, mas nem por isso as disputas são menos freqüentes, chegando a ser intensas. Foram desenvolvidos algumas regras e costumes não tão elaborados para a resolução de conflitos em diferentes arenas.

São vistas como muito graves, por exemplo, as disputas que se tor­nam conflitos raivosos e divisivos no interior das Pradashas. A sabedoria de indivíduos experientes no interior do Bairro ou da Edilia é rapidamente mobilizada para conter essas cisões.

Houve uma completa mudança na abordagem das reparações, da administração da justiça e da punição. Embora as transgressões contra os outros (em particular, a violência) tenham sofrido grande redução, dado que seu caldo de cultura desencadeador foi amplamente extinto, ainda ocorrem alguns casos. Estes são vistos em primeiro lugar como desarmonia o íntimo da pessoa que comete o ato. A reação (como se costumava fazer entre os Navaho) consiste em encontrar maneiras de desvendar os motivos da perturbação e restaurar a harmonia.

As transgressões persistentes podem levar a sanções, como a supres­ são de privilégios de troca. Em casos extremos de transgressões persistentes, é possível ocorrer o banimento para “terras perigosas” (uma deci­são que fica a cargo do Conselho da Edilia).

O banimento para “terras perigosas” significa a transferência  para áreas contaminadas durante as guerras revolucionárias e que ainda apresentam riscos. Não é possível abandonar essas áreas porque os resíduos tóxicos e as doenças ali fomentadas representam sérios perigos. Comis­sões c forças-tarefa escolhidas nas Nationas colaboram com relação a essas áreas, e a necessidade de equipes de trabalho não-voluntárias é em parte atendida mediante a escolha de indivíduos banidos de sua Edilia a fim de sofrer alguma punição por crimes e violência persistentes.

As disputas entre Edilias ou Regionas são arbitradas por comitês de negociação. No nível das Regionas, a maioria das divergências referem­ se às relações comerciais, que, por acordo universal, passaram a ter como base a igualdade, a não-coerção e a reciprocidade (demos caráter prático e concreto à teoria de Adam Smith dos mercados aprimorados, ainda que em larga medida mediante acordos bilaterais). As divergências sobre questões comerciais são resolvidas rotineiramente sem muito estardalhaço.

Há contudo Conselhos Globais com funções consultivas bem defini­das e divulgadas que examinam algumas questões bem mais difíceis, como os rumos da mudança tecnológica, os formatos de produção, problemas ambientais, a administração de recursos (como a biodiversidade e os ocea­nos) considerados parte dos bens comuns globais, assim como algumas questões pertinentes ao alívio de catástrofes, realocações de populações e assim por diante.

Espera-se que esses conselhos alertem todos, nos vários níveis, das Nationas aos Lares, para a existência de problemas globais comuns que talvez exijam soluções locais. Estabelecidos pela primeira vez no breve período do Governo Mundial, esses conselhos são agora principalmente consultivos e encarregados de tarefas de aconselhamento. Continuam con­tudo a desempenhar um papel altamente influente na formulação de acor­dos entre Nationas.

O sistema de representação política é extraordinariamente simples. Seremos breves para não entediá-lo em demasia.

Cada um dos Lares  escolhe um representante  para trabalhar num conselho de Bairro por um período não renovável de três anos. Cada Bairro escolhe uma pessoa para servir no conselho da Edilia por um período não renovável de três anos. E assim sucessivamente até chegar à escala da Nationa, que indica representantes para os Conselhos Globais.

Cada nível de governo acima do Bairro pode ceder pessoas (não mais do que 5 por cento da população) por um período de até dez anos para trabalhar num secretariado técnico/administrativo. Nesse cargo, os indivíduos podem atuar em comissões científicas/tecnológicas ou em pesqui­sa e desenvolvimento, bem como na melhoria dos sistemas de alocação/ distribuição realizá-los por meio dos sistemas de oferta e das listas de discussão computadorizados.

Mas é uma regra estrita que todas essas pessoas estejam ligadas a um Lar particular em que participam de atividades da maneira normal (os créditos de trabalho que recebem por suas atividades são muito apre­ciados nos Lares). A dispersão desses profissionais por muitos Lares (e a mudança geográfica periódica de comissões e secretariados de uma Edilia para outras) garante um grande contato entre pessoas dos Lares e as que trabalham em níveis mais elevados de governo. Evitamos por esse meio a prática, tão prejudicial em sua época, de permitir que uma elite burocrá­tica privilegiada se isole, perdendo contato com a vida cotidiana, os anseios, as necessidades e os desejos das pessoas.

Algumas atividades produtivas são organizadas por meio da Nationa. Referimo-nos aqui a coisas como produtos eletrônicos, placas de silício, trabalhos com metais, engenharia, transporte, sistemas de comunicação e produção de fibras têxteis. Esses são setores altamente automatizados que requerem pouca mão-de-obra. Costumam ser organizados para combinar economias de escala com economias de escopo, podendo alternar rapidamente entre categorias de produto (por exemplo, placas de silício para diferentes propósitos ou diferentes tipos de equipamentos eletrônicos).

Há por conseguinte uma forte presença daquilo que vocês um dia condenaram como “planejamento centralizado não-democrático” (des­cartado como “socialista” ou “comunista”). Boa parte desse planejamen­to está no nível da Regiona, e ele desempenha um importante papel na combinação da necessidade de ordem na produção com o desejo de desordem localizada como a fonte da renovação cultural.

A agricultura também se acha dividida entre sistemas de produção com pouco uso de mão-de-obra e de escala ampla para cereais, matérias­ primas, favas e legumes, e atividades trabalho-intensivas vinculadas com os lagos piscosos, os jardins e os sistemas hidropônicos de cultivo. Comitês de Administração do nível da Regiona se empenham em equilibrar esses dois tipos de agricultura tentando construir a sustentabilidade, a auto-suficiência e a sociabilidade de longo prazo.

Um excelente efeito colateral tem sido a mudança das preferências na direção de um regime alimentar bem mais saudável, baseado em ce­reais, favas, legumes, hortaliças, castanhas e frutas. O conteúdo de carnes (sempre uma reserva dos abastados e um meio terrivelmente ineficaz de alimentar as pessoas) sofreu grande redução. Isso permitiu a abolição de práticas ultrajantes c degradantes desenvolvidas em sua época para produzir carne bovina em suas várias modalidades e carne de frango.

Alguns dos hábitos e valores pessoais estabelecidos depois da revo­lução podem lhe parecer estranhos ou mesmo inaceitáveis. Muitas pessoas se acostumaram a estilos de vida um tanto espartanos, compatíveis com o grau local de auto-suficiência. Também adquiriram uma atitude mental bastante estóica com relação a ferimentos ou mutilações, porque isso exigiam as situações, ainda que se fizessem todos os esforços para proporcionar alívio físico a todos os que sentiam dor.

Essa atitude geral ajudou a evitar qualquer retorno à hipocondria autopiedosa (que beirava a histeria de massa) que caracterizava as classificações de elite engolidoras de pílulas de sua época (você também não está usando Prozac?). Isso também evita que os setores médicos promovam (como costumavam tão patentemente fazer) males imaginários em oposição a males reais. E obrigou os psicanalistas a voltar às raízes e aceitar que o tratamento das doenças mentais reside na arte das conversações íntimas, proveitosas e de exame pessoal. Um negócio profissionalizado passou a ser uma forma geral de arte.

Julgamos nossos sistemas de assistência médica altamente sofistica­ dos. Cada Lar tem pelo menos duas pessoas dotadas de conhecimentos sobre problemas comuns de saúde, e existe uma espécie de hierarquia de fluxo de informações e de instalações médicas que vão dos Bairros às Edilias e destas às Regionas. Muitos (embora não todos) hospitais em larga escala foram desmantelados em favor de unidades de assistência no nível dos Bairros.

A assistência médica é orientada mais para a prevenção do que para a cura. A demanda de drogas paliativas sofreu imensa redução (a indústria de medicamentos de vocês tipicamente se opunha à prevenção e mesmo à cura a fim de perpetuar os lucros por meio da dependência de drogas paliativas). A outra característica digna de nota é o fato de a assistência média, entendida como arte e como ciência da cura, com freqüência se diferenciar em termos de qualidades e de estilos de lugar para lugar.

Embora seja de modo geral aceito, por exemplo, que a morte com dignidade é um direito, a maneira de proporcioná-la varia muito, indo do relativamente privado e calmo ao socialmente intenso e mesmo estrondoso. A morte é, em vez de temida, compreendida como parte integrante da vida, e o costume estabelecido simplesmente não é o de envidar esforços extraordinários para evitá-la a todo custo (ao contrário do que se costumava fazer pura a elite privilegiada de sua época).

Considera-se a morte um momento de intensa tristeza e celebração, momento do eterno retorno do espírito humano a sua origem, bem como de transmissão de tudo aquilo que se realizou ao longo de toda uma vida a outra geração. É um momento para que todos reflitam sobre a vida e a considerem cuidadosamente, cheguem a um acordo com sua própria vida e sua própria morte e reafirmem seu compromisso com atividades e rela­cionamentos que valha a pena  transmitir às futuras gerações.

Talvez seja por isso que muitos de nós crêem hoje que os espíritos dos mortos continuam sempre a circular entre nós.

É porém  chegado o momento de concluir esta exposição! Entre as muitas outras coisas que poderíamos dizer, limitamo-nos às mais impor­tantes.

Pode ser que a coisa mais difícil de explicar (particularmente a toda uma geração de céticos e cínicos de seu tipo) seja o espírito que está presente em todos os quadrantes dessa nova ordem social. Não se trata de uma situação de repressão da vontade de poder, da excitação que causa o desempenho de atividades, a busca das paixões ou a curiosidade ousada de indivíduos e grupos. Muito pelo contrário! Todos esses elementos florescem, ainda que sejam canalizados para outras vias.

O que tem de fato sido relevante é a revolução dos valores. E, no tocante a isso, o aspecto mais importante foi deixado para o fim. A ausência do dinheiro em nosso mundo é espantosa. No tocante a isso, não temos nada de original a dizer, dado que tudo já o foi por Sir Thomas More (e já em 1516!). Você talvez se recorde. A sociedade existente, alegou ele, não é senão

 

Uma conspiração dos ricos para fins de promoção de seus próprios interesses a pretexto de organizar a sociedade. Eles imaginam todo tipo de tru­ques e artifícios, primeiramente para conservar seus ganhos mal obtidos e depois para explorar os pobres ao comprar sua força de trabalho aos valo­ res mais baixos que puderem. Uma vez que os ricos decidiram que esses ataques e artifícios têm de ser reconhecidos oficialmente pela sociedade – que inclui tanto os ricos como os pobres -, vêm eles a adquirir força de lei. Desse modo, uma minoria inescrupulosa é movida por sua ganância insaciável a monopolizar o que teria sido suficiente para atender às neces­sidades de toda a população.

 

Mas em Utopia ,

 

Com a abolição simultânea do dinheiro e da paixão pelo dinheiro, muitos outros problemas sociais tiveram solução, e muitos crimes foram erradicados!  Porque, obviamente, o fim do dinheiro significa supressão de todos esses comportamentos criminosos […]. E no momento em que o dinheiro desaparece pode-se dar adeus ao medo, à tensão, à ansiedade, ao excesso de trabalho e às noites sem dormir. Em verdade, a própria pobreza, o problema que sempre pareceu exigir o dinheiro a fim de ter solução, deixaria imediatamente de existir tão logo o dinheiro desaparecesse.

 

As transações financeiras computadorizadas de sua época, do tipo que teve as instituições financeiras como pioneiras, permitiram a abolição das próprias trocas via dinheiro que o sistema fora projetado para permitir. Hoje é possível se envolver em todo tipo de troca de serviços, de favores sexuais a panelas e frigideiras, sem usar dinheiro. Todo o mundo social sofreu uma completa reviravolta, e de maneira tal que a troca voltada para usos dotados de sentido, em oposição à busca sem sentido do poder do dinheiro, tomou-se o motivo dominante da ordem social.

O grande debate que ora travamos tem por objeto o que há de “sen­tido” num uso particular. E, no tocante a isso, a imensa questão não res­pondida que ainda anima inúmeras paixões é simplesmente esta: “Em que pode a verdadeira natureza da natureza humana vir a se tomar?”

 ***

 

Acordei suando frio. Tivera eu um sonho ou um pesadelo? Mantive meus olhos abertos à força e dei uma espiada pela janela. Ainda me encontrava na Baltimore de 1998. Mas não tinha certeza se esse fato me tranqüilizava ou deixava em desespero.

O sonho permaneceu comigo durante boa parte do dia. O quadro geral com que fiquei era terra-a-terra, cheio de senso comum e em alguns aspectos deveras atraente. Havia porém muitos elementos que me deixavam ansioso e nervoso quanto mais eu pensava neles.

Imagine-se um mundo sem bancos nem companhias de seguro para dirigir nossa vida, sem empresas multinacionais, advogados, corretores de ações, nenhuma vasta burocracia, nenhum professor disto ou daquilo, nem um aparato militar ou formas elaboradas de fazer vigir a lei.

Imagine-se todos os trabalhadores libertos da subserviência às atividades patéticas e parasíticas a que hoje estão sujeitos. Imagine-os liber­tos para se ocupar ele tarefas produtivas num mundo em que uma tecnologia ecologicamente compatível não requer mais do que poucas horas de tra­balho diário para garantir o atendimento das necessidades  básicas.

Imagine-se o fim do ritmo frenético da vida contemporânea e a trans­formação dos momentos de puro júbilo, que hoje só podemos ter rapidamente entre obrigações urgentes, em horas em plenitude.

Imagine-se sobretudo um mundo de respeitosa igualdade, não só de talentos ou realizações, mas de condições e oportunidades de vida, em suma, um mundo em que o condenável hábito de passar o ônus da nossa manutenção para os ombros dos outros tenha desaparecido.

Imagine-se um mundo em que a busca de vantagens pecuniárias não mais importa e em que o brilho de tudo o que é ouro perdeu seu encanto.

Essa visão foi num certo sentido enlevante. Mas a perda de todas essas coisas costumeiras da vida cotidiana também me assustou. Relaxei com meu capuccino. O mercado de ações, depois de um verão de altas e baixas, estava outra vez em alta. E me consolei com o fato de que tudo o que eu sonhara era obviamente tão estranho, de modo ultrajante e irreal, ao nosso modo contemporâneo de viver, que estava fora de toda e qualquer possibilidade. Toda discussão desse conjunto de possibi­lidades estava fadada a ser recebida com muita rejeição e, eu disse a mim mesmo, “com toda razão”. Afinal, tratava-se de uma narrativa não-dialética alimentada exatamente pelo tipo de cenário apocalíptico implausível que tanto me desagradava.

Ando nas ruas de Baltimore.

Imponentes monumentos aos ricos se agigantam opressivamente ao meu redor. Um elaborado sistema de bem-estar social subsidiado pelo Es­tado sustenta hotéis, corporações, condomínios de luxo, estádios de futebol e beisebol, centros de convenções, instituições médicas de elite e assim por diante. Os abastados constroem um sistema de escolas, universidades e instituições médicas privadas que são os melhores da nação, enquanto a massa de população excluída se afoga no miasma de um setor público que está tão ocupado subsidiando os ricos que não pode alcançar sequer padrões elementares de desempenho em favor da massa da população.

Os subúrbios estão cheios de expansões antiecológicas enquanto 40 mil casas vazias na cidade se desintegram e decaem. Uma suja nuvem de ozônio paira sobre a cidade em dias quentes de verão. Quarenta mil usuários de drogas contaminados vagam pelas ruas; os locais que fornecem refeições gratuitas já passam da plena capacidade (o mesmo ocorrendo com as prisões); os bancos de alimentos para os pobres estão vazios; e os espectros malthusianos da morte, da inanição, da doença e da “guerra de todos contra todos” pairam como um túmulo acima elas ruas da cidade.

Onde está a ordem de unidade, amizade e justiça que Howard invocou? Se meu sonho teve alguns aspectos de pesadelo, não é esta realidade em tudo e por tudo igualmente um pesadelo?

Sempre julguei que o propósito da Utopia de More fosse não fornecer uma matriz para algum futuro, mas manter sob escrutínio o desperdício e a insensatez ridículos ele sua época, insistir que as coisas poderiam ser e tinham de  ser  melhores.

E me lembrei de que o herói de Bellamy volta à Boston de 1888 e a vê ainda mais aterrorizante do que ele um dia julgara que o pudesse; ao mesmo tempo, ele é objeto de zombaria e alijado do convívio por falar acerca de alternativas. Sua realidade contemporânea mostrou ser justa­ mente seu pesadelo. Não será a nossa igualmente o nosso pesadelo? Se, como crê a maioria de nós, temos o poder de moldar o mundo de acordo com nossas concepções e nossos desejos, como então explicar que tenhamos coletivamente criado tamanho horror? Nosso mundo físico e social pode ser e tem de ser feito, refeito, e, se der errado, refeito de novo. Onde começar e o que fazer são as interrogações essenciais.

 Looking Backward, como observou Bellamy, foi escrito num momento “que augurava imensas transformações”. Foi escrito ainda

 

na crença de que a Idade do Ouro se acha diante, e não atrás, de nós, e não está distante. Nossos filhos por certo a vão ver, e também nós, que já somos homens e mulheres, caso o mereçamos por nossa fé e nossas obras.

 

E quando essa Idade do Ouro chegar, poderemos finalmente alimen­tar a esperança de “dizer adeus ao medo, à tensão, à ansiedade, ao excesso de trabalho e às noites sem dormir”.

 

Notas.

1. Referência ao trecho “Tho  Nature, red in tooth and claw”, do poema do inglês Tennyson, “In Memoriam”, fragmentos 54-56, de 1850. (N.T.).

 

*Esta poética foi originalmente publicado em: HARVEY, David. Espaços de Esperança. São Paulo: Edições Loyola, 2004. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves.

 

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2 comentários sobre “Edilia, ou “faça disso o que quiser” – David Harvey

  1. Um dos meus piores vícios – logo os melhores jamais são observados, ora porque o termo…, ora porque o conceito…, enfim, aprendemos que até Deus enfiou a mão no barro e nos fez sem os “caprichos” que sabemos.
    Li até “Não há alternativa? Onde foi parar a visão inspiradora do tipo ofere­cido por Bellamy?” E logo conclui que se trata de um texto fundamental, então, porque acredito que tudo tem seu tempo, o tempo de todos, sem excessão, resolvi prestar melhor atenção.
    Imagino que, se nosso Criador teve a humildade de meter a mão no barro, porque não acreditar que sou Sua imagem e semelhança?
    Embora uma pergunta coloco no ar, para quem aprecia a grandeza Dele, tentar responder: Como educar o outro sem criar um abominável Frankenstein???

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