A Estética dos Gêneros – Berenice Bento

A Estética dos Gêneros.

Berenice Bento.*

 

O grande ausente nas formulações de Butler e o próprio corpo, observou Preciado (2001), uma vez que a autora não trata dos processos específicos para a sua produção, reduzindo a identidade a um efeito do discurso, ignorando as formas de incorporação especificas que caracterizam distintas inscrições performativas da identidade.

Embora Butler afirme que não existe uma essência interior que e pasta em evidência por meio dos atos, não diz nada sabre a especificidade dos processos de construção dos corpos que buscam ajustar-se ao modelo dimórfico ou, ainda, sabre aqueles que jogam com as ambiguidades e reconstroem seus corpos com este objetivo, como os drag kings e as travestis.

Essa crítica e importante na medida em que aponta para a necessidade de se aprofundar a análise dos mecanismos específicos das mudanças corporais, alertando-nos para a sua plasticidade.[1] No entanto, há um outro nível de composição e visibilização dos gêneros que antecede, de forma geral , os processos de mudanças corporais propriamente ditos (seja por meio de hormônios e/ou cirurgias) e que apresenta uma autonomia considerável. Como cobrir o corpo? Como escolher a cor, a roupa, o sapato , o penteado que darão estabilidade ao corpo? Se o corpo-sexuado e um e feito protético das tecnologias fundamentadas na heterossexualidade, a moda constitui-se como prótese desse corpo.

Esse corpo-sexuado fala por intermédio das roupas, dos acessórios, das cores. A importância da estética aparece nas narrativas dos/as entrevistadas como um demarcador entre os gêneros, e e sobre a relação entre gênero e estética que se tratara neste capítulo.[2]

Se o corpo e plástico , manipulável, operável, transformável, o que irá estabilizá-lo na ordem dicotomizada dos gêneros e a sua aparência de gênero. E comum encontrar transexuais que, antes de começarem os processos de hormonização , geram confusão e pas­sam despercebidos aos olhares classificadores, graças a utilização de artifícios para terem a aparência do gênero identificado.

O sentido que se atribui as roupas e aos acessórios liga-se a um campo mais amplo de significados que extrapola a ideia de um “gos­to pessoal “, vinculando-se as normas de gênero que estabelecem determinadas formas de cobrir os corpos-sexuados. As roupas não cumprem exclusivamente um papel funcional. Conforme apontaram Villa­­ça e Fred Góes (1998), as roupas constroem habitus pessoais que articulam relações entre o corpo e o seu meio. Pode-se sugerir que, para a formação dos habitus dos gêneros, a estética participa de forma a dar visibilidade aos treinamentos propriamente corporais.

A importância estética pode ser considerada como uma variável constante nos discursos dos/as entrevistados/as. Quando eram crian­ças, desejavam as roupas e as cores proibidas ; quando começaram a trabalhar, um dos primeiros atos foi comprar suas roupas para “montar” seus guarda- roupas . Nesse momento, é possível observar as idealizações operando as escolhas e as exclusões. A estética também aparece como um indicador de níveis de masculinidade e de feminilidade, além de ser uma variável para a negociação com a equipe medica.

Tentando sistematizar a discussão sobre a estética dos corpos­ sexuados referenciada nas falas dos/as entrevistados/as, propõem-se três movimentos (1) estética, infância e memória, em que as narra­tivas nos levam a um tempo de repressões dos desejos clandestinos de usar uma cor ou uma peça considerada impropria para o seu gênero . A memória aqui e evocada para legitimar a longevidade de um sentimento de conflito que “estava ali desde sempre” ; (2) na composição de um estilo, quando começam a comprar suas roupas, devem realizar o trabalho da citacionalidade. Qual o tipo de roupa apropriada para um/a homem/mulher? A escolha de um determi­nado estilo está vinculada as idealizações dos gêneros (3) a estética no hospital. Mais do que observar as negociações explícitas entre os membros da equipe e os/as “candidatos/ as” sobre a/o verdadeira/o mulher/homem por meio das roupas. Nesse espaço, também se es­tabelece uma comparação entre os/as transexuais sobre os/as que melhor se vestem, estabelecendo-se, assim, uma hierarquia a partir dos níveis de feminilidade/masculinidade que cada um consegue materializar nos estilos eleitos.

 

A ESTÉTICA COMO UMA VARIÁVEL EXPLICATIVA.

Uma das verdades para se classificar uma pessoa como transexual diz que o motivo principal que impulsionaria as/as transexuais a solicitarem intervenções cirúrgicas seria a certeza, desde sempre, de serem homens/mulheres em corpos equivocados. Par essa concepção, a chave explicativa para a existência dos conflitos e para a sua superação estaria no corpo. No entanto, nota-se que há um momenta anterior a descoberta da existência de um “corpo equi­vocado” na emergência dos conflitos entre corpo, sexualidade e identidade de gênero. A consciência do corpo-sexuado aparece em um momento posterior. Não ocorre uma descoberta simultânea do tipo: “Eu tenho vagina, por isso não posso usar cueca” ou “Eu tenho pênis, por isso não posso usar calcinha”. Os relatos invertem essas sentenças. De uma forma geral, apontam que, na infância, sentiam desejo de ter roupas e acessórios do outra gênero. Os conflitos iniciais que aparecem são mais ou menos assim: “Eu quero usar um vestido. Por que não posso?” ou ” Eu quero usar uma calcinha. Por que não posso?”

O que antecede aos conflitos com as genitálias são aqueles com a própria construção das verdades para os gêneros, efetivadas nas obrigações que as corpos paulatinamente devem assumir para que pos­sam desempenhar com sucesso os desígnios do seu sexo. Aqui, o gênero aparentemente está a serviço do sexo. Assumir um gênero e um processo de longa e ininterrupta duração. Nessa pedagogia, uma das lições primeiras e aprender a usar, querendo ou não, as cores e as roupas definidas como apropriadas.

O fascínio por roupas, jogos e cores vinculados ao outra gênero que lhes foram proibidos na infância pode ser identificado como desencadeador dos conflitos iniciais. A infância e lembrada como um período de permanente insatisfação e de aversão as roupas e a outras acessórios generificados que eram obrigados/as a usar. O momento em que passam a comprar suas próprias roupas, ao contrário, e descrito com grande felicidade e com um forte sentimento de liberdade, como narra Manuela.

Manuela: Desde criança, sabe? Eu exerço mais esse lado feminino. Desde criança eu me ocupo mais pelo lado do universo feminino: roupas, brinquedos, tudo sempre foi mais por esse lado. Depois, quando eu já tinha uns 13, 14 anos, eu vestia sempre roupas unissex, que não assim total mente masculinas, que eu não gostava. Sempre gostava de blusinha baby look, sabe? Quando eu comecei a trabalhar, a primeira coisa que fiz foi comprar minhas roupas. Ah, eu achei bom, me senti bem. Porque eu não gostava de vestir uma cueca, eu me sentia estranha. Aí, quando eu comprei uma calça do jeito que eu queria, foi ótimo! Eu tinha 15 anos. Sempre fiz unhas das meninas lá da rua de casa, das mulheres. Eu fui montando meu guarda­ roupa, sabe?

A frequência de depoimentos semelhantes aos de Manuela le­vou-me a concluir que se poderia pensar em termos de uma “forma­ção discursiva” (Foucault, 1985, 1996) que indicava a importância da estética para a compreensão dos processos de organização das performances de gênero, conferindo-lhe uma certa autonomia explicativa para a emergência dos conflitos com as normas de gênero. Afirmações do tipo “Me sentia ridículo usando vestidos. Que coisa horrível, aqueles laços!” ou “Odiava aquelas calças” são imagens recorrentes em suas lembranças.

Uma leitura psicanalítica, nos moldes de Stroller, apontaria que o uso, na infância, de roupas impróprias para o gênero informado pelo sexo seria sintoma de uma sexualidade construída fora do com­plexo de Édipo. Nesse caso, não seria suficiente apontar a estética e os gostos, tampouco dotá-los de uma potencialidade explicativa. A verdade dessa conduta “desviada” deve ser encontrada mediante uma “varredura” no inconsciente, tendo como bussola a sexualidade, que, por sua vez, está referenciada na relação binaria pai-mãe. E nessa díade heteronormatizada que se encontrarão os porquês de a criança desenvolver determinadas identificações. Essa concepção busca a coerência da ação a partir de uma suposta correspondência entre corpo, sexualidade e gênero, conferindo a estética o caráter de epifenômeno da sexualidade.

Vejamos a importância que a estética desempenhou na história de Maria. O desejo de realizar a cirurgia era para usar as roupas de que gosta, sem ter de se preocupar em “esconder nada”. Mais adiante, voltarei a discutir a relação entre cirurgia e estética de gênero. No entanto, vale apontar o caso de Maria para reforçar o argumento da precedência da estética dos gêneros e de que ser reconhecido como homem/mulher está diretamente vinculado a aparência do gênero.

Maria começou sua cirurgia por conta própria aos 14 anos, continuou aos 18 e, aos 45, espera o momento de concluí-la.

Maria: Eu olhava meu corpo e achava horrível, aquele montinho na minha frente. Eu detestava, para mim aquilo era o cumulo do absur­do. A minha cabeça e de mulher, e eu toda feminina, toda maravilhosa e aquele monte ali. E eu vestia uma roupa, olhava nas mulheres, nas colegas, vestia as roupas ficava linda, toda chique. Ai, meu Deus, aque­le monte e eu horas arrumando aquilo. Eu falei: “Não, eu vou tirar, não aguento.” Eu sei que foi um erro meu, em ter começado a minha cirurgia, porque eu me mutilei. Eu tirei os testículos. Eu tirei quando tinha 14 anos, tirei um coquinho. Mas depois sarei, nossa, mas foi um milagre. Comecei a tirar, tirei um, o meu pensamento de criança… Pensei: “Assim eu tiro, aí eu visto a calça e outro fica um pouco de cá, um tantinho de cá e o povo vê que era uma perereca.” Meu pensamen­to, aquele pensamento assim de mulher, de querer ser. Aí, eu tirei, aí as minhas colegas chegaram da boate, eu estava praticamente mona, já tinha perdido meu sangue todo. Aí eu tirei o outro, depois… com 18 anos, lá já em Belém. Aproveitei que estava lá, internei no hospital e aproveitei que eu estava no hospital e falei aqui eu tiro o outro. Tirei o outro coquinho e o povo do hospital ficou tudo louco. Foi com uma gilete. Para dizer a verdade, nem senti dor. Que você vai e aperta, aperta, esquenta você nem sente. Você tem loucura para tirar aquilo, que aquilo tá te incomodando, que você não tá nem aí. Eu só nunca tirei meu pênis, se eu tirasse o pênis, não tinha como fazer a cirurgia. Naquela época, não tinha possibilidade de fazer essa cirurgia. Eu que­ ria tirar porque era uma coisa que estava me incomodando, porque o pintinho ficava murcho ali, podia vestir minhas calças…

Quando Maria afirma “Aquele pensamento assim de mulher, de querer ser”, não está se referindo ao desejo de ter uma vagina, mas em ser reconhecida publicamente como mulher pelas roupas que cobrem e estabilizam o corpo, e “aquele montinho” comprometia qualquer possibilidade de sucesso desse objetivo. A história de Ma ria dramatiza muitas outras histórias que escutei ao longo das entrevistas. Muitos/as não fizeram o corte físico, mas o desejo de serem reconhecidas e viverem as performances com as quais se identificam, levam-nos/nas a realizar os cortes simbólicos usam faixas para esconder os seios, escondem o pênis, usam maquiagens fortes para dissimular os sinais da barba, enxertos para produzir um efeito visual de seios fartos.

Se não existe nenhuma essência interna aos gêneros e ser de um gênero e, antes de tudo, “fazer” gênero, no sentido de ações conti­nuadas, reiteradas, a estética, então, assume um papel importante para ajudar a compreensão dos mecanismos de produção dos conflitos e de entrada no gênero identificado na experiência transexual.

 

INFÂNCIA, MEMÓRIA E ESTÉTICA.

Contar histórias e remeter-se ao passado; e pôr a memória em ação. A infância e lembrada como um período de permanente insatisfação e de aversão as roupas que eram obrigados/as a usar. Mas como esse ato de lembrar é realizado? A organização das lembranças funciona como um recurso para legitimar suas histórias de insatisfação com o gênero imposto.

A infância e uma fase da vida evocada com grande força. No entanto, a memória não pode ser compreendida como um arquivo de imagens que e posto em movimento em suas narrativas. Relembrar e um ato interpretativo, no qual o sujeito atualiza uma leitura sobre o passado e as lembranças são matizadas pelas condições do presente.

Se é o social que fornece as matrizes por meio das quais os indivíduos processam suas lembranças, é ele, o sujeito, quem recorda a partir de uma leitura singular do seu passado. Para Halbwachs (1990), contudo, os membros de um grupo que compartilharam homossexualidade determinada história e habitaram um espaço específico atualizaram igualmente a lembrança de um passado comum.

Para essa abordagem, a autonomia do sujeito em interpretar seu passado estaria condicionada a história do grupo. A memória pessoal dependeria do seu relacionamento com a família, a classe social, a escola, a igreja e a profissão. Porém, como salientou Ecléa Bosi (1998: 411), por muito que se deva a memória coletiva, pois e ela que dá o sentido de pertencimento, temos de considerar que ela sofre com as mudanças de seus membros e, embora tenha um lastro comum, cada membro a interioriza de uma forma singular.[3]

Sugira uma inversão na formulação de Halbwachs a memória não está condicionada aos espaços sociais em que o sujeito transitou, mas sãos espaços sociais em que transita no momento em que essa memória e evocada. Não basta afirmar que recordar e interpretar; deve-se ir além e apontar este “interpretar” como um ato relacional, vinculando-o aos contextos em que são evocados. Quando um/a transexual fala da infância para um membro da equipe, no espaço hospitalar, sabe que deve selecionar fatos significativos que comprovem suas per­manentes e continuas insatisfações com o gênero que lhe foi atribuído. E ai que a estética aparece com grande força argumentativa.

Não se está fazendo uma dicotomia entre memória coletiva e memória individual, até porque a memória coletiva só sobrevive mediante as narrativas de sujeitos histórica e socialmente localizados. A matéria lembrada, a substância social da memória, e tanto individual quanto social. Ao trabalhar as lembranças compartilhadas e transmi­ti das por um grupo, “o recordador vai paulatinamente individualizando a memória comunitária e, no que lembra e no como lembra, faz com que fique o que signifique” (Bosi, 1998: 31). E nesta dialética que nos inserimos no mundo e lançamos luzes no passado; nela, a síntese e sempre provisória, porque novas luzes podem clarear regiões antes obscurecidas, que poderão modificar a primeira região ilumina­da, em um movimento de permanente interpretação e reinterpretação. O tempo do lembrar, como salientou Walter Benjamim, não é vazio e homogêneo, é um “tempo saturado de agoras” (1989: 229).

A definição do diagnóstico de transexualidade está fundamentada, em grande medida, nas narrativas sobre a infância. O terapeuta estaria atento para notar se há uma linha de coerência e continuidade entre o desejo presente de ser reconhecido/a como homem/mulher e o passa­ do. A longevidade dos conflitos e um indicador importante para se definir um diagnóstico favorável a cirurgia. No entanto, quando eles/as afirmam que não gostavam das roupas que eram obrigados a usar não estão afirmando que tenham aversão as suas genitálias.

Pode-se sugerir que a reafirmação de uma identidade, utilizando as lembranças como recurso, cumpre uma dupla função: retira a ideia de culpa, e, simultaneamente, legitima as performances de gênero a partir da essencialização da identidade. Conforme disse Manuela, “a diferença do transexual para um gay é que nós sempre soubemos quem somos”.

Para Patrícia, a infância foi uma época de grandes confusões. Fi­lha de pais missionários, as ideias de pecado, castigo, culpa são os pontos fortes de sua narrativa.

Patrícia: Eu pensava que era pecado eu querer coisas de menina. Eu comecei com a igreja. Fui para a igreja. Tem a parte dos homens e das mulheres, na hora que me punham para sentar do lado dos jovens, mas dos meninos. Ai, meu Deus do céu! Eu tinha que levantar o braço, aí eu via minha mãe levantando as mãos, aí as correntinhas escorregavam do seu braço, as mulheres, aquela coisa mais linda, com correntinha, com relógio, com anel de brilhante e o vento batendo no cabelo delas no ventilador e eu queria estar sentada do lado das mulheres. Eu tinha cabelo curtinho, mas eu me sentia assim como uma delas.

O que desejava Patrícia com essa reconstrução poética das mulheres que frequentavam a igreja? Ser mulher ou usar “aquelas correntinhas” e outros objetos identificados como femininos? Mas, se o corpo-prótese não existe sem as próteses da moda, ser mulher não pode ser desvinculado de uma determinada estilística. Parece­ me que, ao desejar “ser mulher”, Patrícia está reivindicando essa posição para que possa desenvolver as performances femininas. Sobre os presentes e as roupas, Patrícia lembra:

Patrícia: Minha mãe chegava do serviço dela, dava presente de Na­tal , quer dizer, cuequinha pra Patrícia, calcinha para as minhas irmãs, bonequinha, xampuzinho de sereia para as meninas, xampuzinho de cavalinho pra Patrícia. Que ódio que me dava, chorava de raiva, porque eu queria xampuzinho de sereia boniti­nha também. Eu queria aqueles perfuminhos cheirosinhos, talquinho de mulher. Me davam as coisas bruscas, aqueles cavalinhos, aqueles indinhos idiotas, sabe? Nossa, que nervo que eu fi­cava. Aquelas cuequinhas com abertura do lado. Até chorava de nervo, eu ficava com tanta raiva. Eu ia brincar com as minhas irmãs, eu queria ser a mamãe. As meninas faziam aniversário, ti­nha bolinho com velinha de cinco aninhos, balão. A Patrícia nun­ca teve nada disso, tanto que sou apaixonada por torta e bolo. Eu tenho trauma. Eu nunca tive um bolo de aniversário, nunca. Aquilo ali já foi virando um trauma na minha cabeça, já comecei a me sentir rejeitada; quer dizer, então não posso ganhar porque elas são mulheres, elas ganham as coisas mais delicadas e ganham bolo e eu não ganho? Homem, então, e um bicho que foi feito para ralar e sofrer, ter barba e aquela coisa. Eu detesto pelo, odeio pelo, não gosto. Então, quer dizer que eu nunca vou ter, porque tenho piu-piu e nunca vou ser considerada como menina? Mais que droga, ficava com raiva. A vida da mulher e mais colorida.

Quando Patrícia afirma “quer dizer que eu nunca vou ter, porque tenho piu-piu e nunca vou ser considerada como menina?”, está elaborando uma interpretação de sua infância com o olhar de alguém que descobriu a causa das interdições para não ter “o perfuminho” e “a festinha de aniversário”.

 

ASSUMINDO O GÊNERO IDENTIFICADO.

Entrar no mundo do gênero escolhido e encontrar um “ponto de equilíbrio” na composição de um estilo e uma tarefa que exige observação e critérios. Algumas vezes, este processo é lento. Quando saber que não está “demais”, que são muitos acessórios? Como com­ binar as cores das roupas com o sapato? Qual a roupa apropriada para cada ocasião? Qual o estilo que permitirá ser reconhecida/o como mulher/homem?

Annabel: No início, você não sabe o que pôr. Principalmente para mim, que comecei tão tarde. Eu acho que queria recuperar o tempo perdido. Ficava aquele exagero. Você não lembra quando eu comecei a usar roupa feminina? Eu me sentia uma menina de 15 anos e queria me vestir assim. Adoro as cores alegres, os brincos, as pulseiras. Mas, com o tempo, encontrei um ponto de equilíbrio.

Vitória: Quando eu assumi, escancarei, usava minhas bermudas coladinhas, minhas roupas e sala para a festa…

Patrícia tentou muitas vezes desempenhar as performances masculi­nas, usar “aquelas roupas horrorosas” para ser aceita pela igreja. Chegava a simular críticas às mulheres que se vestiam de forma mais livre.

Patrícia: Até com os 14 anos eu era da Assembléia de Deus. Fingia que era rapaz e detestava ver aquelas mulheres com as roupas curtinhas, aquele “shortinho”. Tipo de roupa igual da Carla Perez. Na verdade, eu falava para o colegas “Isso é prostituta.” Eu estava querendo ser igual , estava querendo vestir igual. Eu falava assim: “Isso é prostituta. Isso vai para o inferno se não se converter, aceitar Jesus.” E eu me comendo por dentro de vontade de ser mulher, vestir aquela roupa, ser igual.

Patrícia lembra da admiração que sentia ao observar sua irmã se arrumando para sair de casa: os perfumes, o cabelo muito bem pen­teado, as roupas intimas.

Patrícia: Quando fui morar com a minha irmã em Belo Horizonte, estava com 14 anos, ou 12, 13, não me lembro mais a idade. Ela saia e eu ia mexer nas coisas dela. Aqueles cremes caros dela, que ela com­prava da Avon; aquelas coisas, aquelas areinhas. Ela ia tomar banho, que eu via, colocava a toalha, coisa de mulher, na cabeça. Passava creme branco no rosto, ia lixar a unha assistindo a novela. Na hora que ela saia para trabalhar, eu ia ao banheiro, esquentava a agua, deixava a agua esquentar, aquela fumaça no banheiro, nem cabelo grande eu tinha. Punha a toalha e saia com o roupão dela. Ia para o quarto, me maquiava, passava o negócio no olho, punha um pepino no olho e ficava ia lixando, igual mulher, me sentindo o máximo.

Para Patrícia, Kátia e Helena, a moda masculina e pobre e “sem graça” ‘ enquanto a das mulheres e feita de cores, perfumes e brilhos. Todas falam da tristeza que sentiam quando eram obrigadas a vestir “aquelas roupas sem graça”. “Ser homem é muito sem gra­ça”, comentam.

Kátia e Andreia definem-se como “muito vaidosas”; são fascina­ das por roupas, recusam-se, inclusive, a ir a uma festa se não tiverem uma roupa nova para usar.

 Kátia: Quando eu vou sair, eu me arrumo bem arrumada. Se for para sair mal-arrumada, eu não saio, fico quieta em casa, e outra, eu tenho mania de roupa nova. Eu passo meses e meses sem sair. Adoro perfume, roupa nova, maquiagem eu gosto, me sinto bem. Então, quando eu saio, sou o centro das atenções. Não gosto de ser o centro das atenções, que me deixa com vergonha. Às vezes, surge muita pergun­ta: “É era que ela e homem ou mulher?” Sempre acontece isso. Eu ainda tenho a marca da barba. Mas, quando saio, arranco tudo. Com a pinça, eu tiro todos os cabelos desde que começaram a nascer.

Andréia: Eu gosto muito de me arrumar, mas há muito tempo que estou sem fazer compras, até a unha não estou fazendo todo final de semana. Então, a produção e uma coisa que mexe muito com a minha auto-estima. Se eu estiver produzida, estou maravilhosamente bem. Eu quero ser vista se eu estiver com cabelo arrumado, se eu estiver com roupa bonita, eu quero ser vista. Ao contrário, se eu estiver com as roupas que já vesti, que eu não suporto mais nem ver, se eu pudesse, ninguém me via, eu entrava num buraco que ninguém me achava. Isto mexe muito com a minha auto-estima.

Para os transexuais masculinos, não havia nada mais constrange­ dor do que se ver no espelho com um vestido e um laço cor-de-rosa. Para Chus, era um choque quando estava andando pelas ruas e via sua imagem refletida nas vitrines “Para mim, aquela não era eu. Eu sentia vergonha. Me sentia ridículo.”

Os transexuais masculinos admiram a simplicidade dos homens em se vestirem, o que está intimamente ligado a valorização de uma característica tida como masculina: a objetividade e a praticidade. “As mulheres ficam horas falando de maquiagem, roupas e outras bobagens”, comentou Alec. No entanto, ser simples não significa não ser refinado, não ter “bom gosto”.

Cada uma, pouco a pouco, relatara seus processos para definir um estilo, que está vinculado a um campo mais amplo de significa­dos. Para Alec, James Bond é o tipo que ele tenta seguir, “mesmo sabendo que não tenho dinheiro, eu gosto das coisas boas”. Chus prefere as roupas marcadamente masculinas temo, gravata, relógio grande, cores mais escuras, sapatos.

Para Joel, a construção de sua masculinidade esteve vinculada, inicialmente, a um determinado estilo de roupa. No começo, ainda adolescente, passou a frequentar ambientes masculinos que valorizavam uma estética agressiva e dicotomizada em relação a estética feminina. Essa radicalidade foi amenizada, por um lado, porque encontrou um tipo neutro para as suas roupas e, por outro, porque o contato com a discussão sobre identidade de gênero o fez compreen­der muitos dos “mitos da masculinidade”.

O ato de vestir uma calcinha, combinada com o sutiã, uma saia justa que valorize as nádegas, uma blusa justa, o penteado, o salto alto, o vermelho e o dourado como cores preferidas entre as transexuais femininas, são interpretações que lhes possibilitam inserir-se no campo do gênero identificado. Com isso, não pre­tendo afirmar que se tenha chegado a um tipo estético característico das/os transexuais. Ha muitas divergências sobre este ponto.

Para Manuela, as mulheres hoje em dia seguem um modelo de mulher racional, objetiva na hora de se vestir, sem tempo de ficar diante do espelho. Para ela, uma das características da mu­lher é a vaidade.

Manuela: Adoro me arrumar para sair, gastar tempo comigo. Gosto de mulheres com curvas fartas. Fui criada vendo minha mãe usando salto alto todo dia. Ia ao cinema para ver aquelas mulheres maravi­lhosas como Marilyn Monroe. Hoje, a mulher quer usar cabelo cur­to, pouca maquiagem, roupas discretas, e são magérrimas. Eu acho esta mulher anoréxica horrível. Eu gosto do excesso.[4]

É interessante observar como as identificações de Manuela estão próximas ao imaginário camp, que se caracteriza por uma preferência pelo exagero, pelo excesso, por uma forma de ver o mundo como um fenômeno estético (Maffesoli, 1989), na medida em que evoca a fantasia, o lúdico no cotidiano, e incorpora na composição de um estilo pessoal elementos identificados como próprios do mundo da fantasia, do teatro; rompe, assim, os limites entre real e ficção, paro­ dia e original.

Essas considerações de Manuela foram realizadas em uma reunião do GI GT. Nessa mesma reunião, outras transexuais se posicionaram contrárias a posição de Manuela. Para elas, as mulheres devem buscar a sobriedade e a discrição, adjetivos que, afinal, qualificam o feminino.

A discussão sobre os estilos remete aos processos que cada um vivencia para a composição do seu. Quando perguntados sobre por quais momentos tiveram de passar até definir seu estilo, dois tipos de respostas emergiram. A primeira remete as narrativas da memória, “desde sempre fui assim”, conforme visto anteriormente. Este tipo de construção de sentido foi mais frequente entre os/as entre­ vistados/as que faziam parte do Projeto Transexualismo. O segundo tipo de resposta trabalha com noções claras de mímese, de uma repetição interpretada do que os/as aproximaria de um/a homem/mulher biológico/a. A construção da masculinidade/feminilidade, nesse caso, efetiva-se mediante uma aparente “cópia”.

No entanto, inclusive para os que negam a ideia da “cópia”, como Kátia e Sara, podem-se notar deslizes discursivos. Para Kátia, sua patroa muitas vezes lhe chama a atenção por estar usando roupas “indecentes”.

Kátia: Ontem mesmo ela me disse: “Mas você está depravada. Uma moça da sociedade não anda desse jeito. Isso é indecente.” Eu falei assim para ela: “Ah, mas eu queria mostrar os meus dotes femininos.” Ela falou assim: “Tem outras maneiras de você mostrar seus dotes femininos. Uma calça jeans coladinha, por exemplo.”

As interpelações de sua patroa provocam-lhe um efeito reflexivo que a leva a mudar de roupa; afinal, sua patroa e uma “mulher normal”. Embora Kátia defina que a forma de se vestir é importante para ser reconhecida como “mulher de respeito”, no momento de pôr em movimento essas idealizações, o resultado não refletirá mecanicamente essa construção, haja vista as interpelações de sua patroa. Daí a importância de se perceber que, entre o nível discursivo (cuja articulação dos enunciados vincula-se ao campo social específico em que são proferidos) e a experiência, há discrepâncias. As materializações das idealizações passam pelo e feito do desmapeamento,[5] quebrando a ideia de continuidade, causa e efei­to, retilinearidade entre discurso e prática.

Para Patrícia, as normas sociais não estão erradas. Ela interpreta seu caso como uma exceção. Diz que tem problemas e que, nesse caso, a sociedade deveria ser mais tolerante. Para ela, as travestis, ao se vestirem como mulheres, “não afrontam a sociedade como os gays”.

Patrícia: Pelo menos eles não afrontam. Mesmo que não façam a cirurgia, ninguém vê que é um homem. O pior e ver dois homens com barba e tudo se beijando. É uma pouca-vergonha, dois homens barbudos se beijando. Já O travesti não. Quem vê pensa que e uma mulher, ne?

Para Patrícia, o gênero e a sexualidade estão polarizados na estética e na estilística. O problema não está fundamentalmente em se ver dois homens se beijando, mas no fato de eles terem aparência de homens. Aqui, a dicotomização não se dá em termos das subjetivi­dades, mas sim nas performances que visibilizam os gêneros.

A escolha de um estilo também está relacionada a um outro campo estratégico de negociações. Sara usa roupas femininas mais clássicas, não usa calça jeans ou roupas decotadas, gosta de calças de seda, blusas de algum tecido fino, saltos altos, bijuterias douradas. Segun­do ela, e mais fácil pedirem documentos para uma pessoa que está malvestida do que para ela. Essa foi a forma que encontrou para burlar o controle social: passar como pertencente a uma classe social que não é a sua. Essa composição estética não está limitada por tal estratégia, pois revela a sua interpretação sobre uma moralidade feminina rígida, poutada em valores como “mulher de respeito” e “mulher de família”.

Sara: Da forma que eu me vista, ninguém nem se toca. Só se a pessoa pegar e observar mesmo. Se for uma pessoa muito observadora, curiosa, as vezes sim. Por exemplo, eu não uso calça jeans. Eu uso roupa mais social… Eu estou 24 horas produzida. Geralmente, do jeito que eu ando, as pessoas acabam não pedindo documentos. Até mesmo nas viagens que eu faço, geralmente eles pedem identidade e a passagem, eles não olham nem na minha passagem, muitas vezes nem na minha identidade eles não olham. […] Geralmente as pessoas fi­cam olhando para mim, bocão aberto: um mulherão da minha altura, 1 ,77 m, com salto 13, eu fico com 1 ,90m. Já me confundiram com manequim. Hoje eu entro num lugar, as pessoas que não me conhece­ram antes, que não me viram antes, nunca vão pensar que sou um transexual. Eu me vista e me porto como uma mulher normal. As roupas ajudam demais. Eu já não tenho um corpo de se jogar fora também. Não me sinto a oitava maravilha do mundo, mas também não sou de se jogar fora. Mas consigo passar, mesmo estando com as outras que são desengonçadas [referência as outras “candidatas” do Projeto Transexualismo]. Tem umas desengonçadas…

A estética a ajuda a construir uma auto-imagem positiva. Con­forme discutirei no próximo capítulo, a auto-imagem para alguns/algumas e negativa (quando falam das genitálias) e positiva (quando apontam partes do corpo). Assim, por um momento, depara-se com sentimentos de inferioridade, conforme apontou Kátia: “As vezes, eu me sinto um lixo”; e, em outros, emerge uma considerável auto-estima. A mesma Kátia afirma: “Não é por nada não, mas, quando eu me arrumo e fico bem bonita, não tem para ninguém.”

 

ESTÉTICA NO HOSPITAL.

“Uma estética apropriada para o gênero apropriado.” E isso o que os protocolos exigem quando determinam que “os/as candidatos/as” devem vestir-se com as roupas do gênero identificado (teste de vida real). Nas negociações efetivadas com a equipe médica e com o contexto hospitalar sabre o masculino e o feminino, a forma como o/a “candidato/a” se apresenta é um dos indicadores mais importantes na determinação dos graus de feminilidade/masculinidade que cada um possui, conforme foi discutido no capítulo sobre a opera­cionalização do dispositivo da transexualidade, “A invenção do transexual”.

Entre os/as transexuais, a estética também e valorizada como um indicador de feminilidade/masculinidade. Um dos temas recorrentes entre os/as “candidatos” refere-se as roupas e aos acessórios, gerando muitas vezes uma certa rival idade para se definir a/o mais feminina/ masculino.

Kátia define-se como. a mais feminina de todas, as outras “ainda tem muito que aprender” . Para Marcela, as colegas não sabem se vestir. Sara, por sua vez, afirma que algumas colegas do Projeto pare­cem “umas destroncadas” e que outras se vestem como “putas, usam roupas para chamar a atenção, com a barriga para fora”. Para Sara, uma “mulher de respeito” não se dá a esse “desfrute”.

Os comentários e as pequenas rivalidades eram frequentes, em­bora houvesse momentos ocasionais em que se reuniam para se elo­giar mutuamente.

Um dia, Maria chegou ao hospital com um vestido longo, bran­co, semi-transparente, com um decote profundo, que deixava seus seios insinuarem-se. A admiração das colegas foi grande: “Como você tem os seios bonitos!”, “Meu sonho é ter os seios assim”, “Como você conseguiu?”, “Ah, minha filha, é a natureza” Ela caminhava com ombros para trás, ereta, performaticamente valorizando seus seios, que estavam quase sempre em destaque.

As divergências entre eles/as sobre a forma apropriada de um/a homem/mulher se vestir contribuem para desfazer a ideia da experiência transexual como um todo homogêneo e reprodutor dos “estereótipos” dos gêneros. As versões disponíveis sobre o masculino e o feminino que circulam na sociedade também circulam aqui.

O gênero só existe na prática e sua existência só se realiza mediante um conjunto de reiterações cujos conteúdos são frutos de interpretações sobre o masculino e o feminino. O ato de pôr uma roupa, escolher a cor, compor um estilo, são ações que fazem o gênero, que visibilizam e posicionam os corpos-sexuados, os corpos em trânsito ou os corpos ambíguos na ordem dicotomizada dos gêneros. Vestir­ se é um dos atos performáticos mais carregados de significados para a construção das performances dos gêneros.

Se a estética pode ser interpretada como uma moeda para a inserção no campo do gênero identificado, podendo significar a possi­bilidade de agregar “capital de gênero” aos/as transexuais. Pode-se questionar o porquê de o processo não parar neste ponto e de eles/ elas rei vindicarem as intervenções nos corpos, seja mediante hormônios, silicones ou/e cirurgias.

 

Notas.

1. Jaty Prosser (1998) e outros representantes de comunidades transgêneros e transexuais americanas criticam a instrumentalização da performance da drag queen na teoria de Butler, uma vez que ela a define como exemplo paradigmático da produção de identidade performativa. Segundo Prosser, o que se pode afirmar é que os/as transexuais e os/as transgêneros põem sobre a mesa não apenas performances teatrais ou de cenários através dos gêneros (cross-gender), mas transformações que tem um raio de articulação muito mais amplo: são mudanças físicas, sexuais, sociais c políticas dos corpos que não estão em cena. Butler (2002), no entanto, afirmará que tomou as drag queens como exemplo de performatividade fora de um referente biológico e não como modelo paradigmático.

2. Sobre a relação entre moda e a sexualidade, com ênfase na construção dos fetiches sexuais que algumas peças geram (o sapato, o espartilho, as meias), ver Steele (1997). Em Unissexo, Winick tomará a moda como um indicador das mudanças mais gerais pelas quais passou a juventude norte-americana nas décadas de 1960 e 1970. Os cortes de cabelo, as roupas, a moda esportiva, os gestos, as músicas, as danças vão romper o padrão de separação absoluta entre os gêneros, o que resulta na produção de um estilo unissex. Outros autores analisarão a moda como forma de produzir imagens que participam da organização de um social tribal (Maffesoli, 1987, 1989); outros, como forma de explicitar uma classe social e, nesse movimento, são estabelecidos códigos de distinção em relação a outras classes (Bourdieu, 1983); ou como um indicador do “império da aparência”, que se articula ao crescente processo de personalização (Liovetsky, 1998) ; ou, ainda, como propôs Elias (1997), as roupas como conjunto de códigos de exposição, restrição, autocontrole, que marcarão a vida na corte e o próprio processo civilizador.

3. A discussão sabre a memória e a capacidade de o sujeito imprimir sua marca no ato de recordar está relacionada a uma discussão mais ampla sobre os limites e as possibilidades dos sujeitos produzirem leituras originais sobre o mundo que os cerca. Em Halbwachs, essa capacidade e vista como limitada pelos quadros sociais que estruturam suas lembranças ou, em termos durkheimianos, o ato de lembrar vincula-se à consciência coletiva e só pode ser compreendido nos seus marcos. Em Bergson (apud Basi, 1998), há uma reflexão sobre a memória em si mesma, como subjetividade livre, não havendo uma tematização dos sujeitos-que-lembram, nem das relações entre os sujeitos e as coisas lembradas. Para Bergson, o princípio central da memória seria a conservação do passado que sobrevive, quando é evocado no presente sob a forma da lembrança, como em estado inconsciente. As lembranças, por esta abordagem, seriam as sobrevivências do passado, emergindo através de imagens-lembranças. Para meus estudos sabre memória e construção de sentidos na experiência transexual, aproximei-me, particularmente, das formulações de Basi, segundo as quais “Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva. Nossos deslocamentos alteram esse ponto de vista: pertencer a novos grupos nos faz evocar lembranças significativas para este presente e sob a luz explicativa que convém à ação atual. O que nos parece unidade e múltiplo. Para localizar uma lembrança não basta um fio de Ariadne; é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, e um ponto complexo de convergência dos muitos pianos do nosso passado” (Bosi, 1998: 413).

4. Não entrevistei Manuela individualmente. Essas notas são de uma reunião do GIGT. Manuela é transexual feminina, cantora de Opera, artista plástica e participa eventualmente das reuniões do GIGT.

5. Sérvulo Figueira define desmapeamento como a “coexistência de mapas, ideais, identidades e normas contraditórias nos sujeitos. O desmapeamento não é a perda ou a simples ausência de ‘mapas’ para orientação, mas sim a existência de mapas diferentes e contraditórios inscritos em níveis diferentes e relativamente dissociados dentro do sujeito” (1987: 23). Nesse caso, pode-se observar que há um imaginário camp negociando com as idealizações estéticas para os gêneros.

*Originalmente publicado em: BENTO, Berenice. A Reinvenção do Corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. Rio de Janeiro: Garamond, 2006.

 

 

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