FILOSOFIA PARA SUÍNOS – Peter Pál Pelbart

FILOSOFIA PARA SUÍNOS.

Peter Pál Pelbart.*

 

I

J’écoute ma voix. C’est étrange, j’ai eu l ‘impression d’être passé à la télé. Mais j’ai bien donné une interview à la télé, l’abecedaire. J’y ai parlé sur les animaux, la fidelité, la vieillesse, la mort. D ‘ailleurs on nela passerait qu ‘apres ma mort. Mais est-ce que je suis mort? Et toi Félix, ou est-ce que tu passes ton temps? Et cette soupe là, qui s’est refroidie. Je déteste manger. Surtoui quandje suis seul. Au-rnoins il y a du monde, là. Mais… qu’est-ce qu’onfait aujuste en plein Château de La Borde, emre ces fous qui murmurent entre eux? Est-ce qu’on est venu reécrire L’ Anti­ Oedipe, Félix? Félix, pourquoi tu ne me réponds pas? Est-ce que je suis invisible? Tu m’entends pas? Est-ce qu’on n’a plus rien à se dire? Veux-tu que je par/e une autre langue? Je recommence tout, d’ailleurs je ne finis jamais de recommencer.

Quando você nos apresentou uns aos outros, Félix, na clínica psiquiátrica situada no velho castelo de La Borde, teus pacientes te perguntavam: quem é esse senhor de chapéu? Eu morri de rir com sua resposta, você dizia: Eu lhes apresento nosso professor de patafísica. Eu me sentia o próprio Ubu. Nenhum deles estranhou que eu fosse professor de patafísica, parecia-lhes tão necessário ou inútil quanto a matemática, ou a psiquiatria. Para minha surpresa, um deles resolveu nos convidar a um passeio até o chiqueiro. Tinham razão: o melhor auditório para um professor de patafísica deveria ser um coletivo de porcos. Foi comovente. Grunhimos e os porcos nos ouviam num silêncio profundo, como as ratazanas de Kafka diante da cantora Josefina. Ça va? C’est mieux comme ça? Agora você me compreende, Félix? Um dia eu cheguei a sua casa em La Borde e você estava estendido sobre a imensa mesa da sua sala. O rosto impassível, o corpo petrificado. Você estava morto. Rodeado de porcos por todos os lados. Eu me acerquei da minha sopa insossa, e de vez em quando roçava minhas unhas em sua pele endurecida. De repente seu corpo se esburacou feito um queijo suíço. Abriram-se grandes vãos, e deles saltitavam pequenos parafusos, fios coloridos, chips, eletrodos, graxa, fluidos, pequenos zumbidos. Recolhi as pecinhas caídas, montei com elas trenzinhos, maquininhas inúteis, daquelas de Tinguély que admirávamos juntos. Eram maravilhosas. Emitiam um ruído colossal. Inaudível. Sublime. Concerto em memória de um anjo. Tentei tocá -las. Apenas encostei nelas e se desmancharam no chão, formando majestosas mandrágoras. Não resisti. Deitei sobre a terra, acariciei-as e feito um Robinson Crusoé copulei sofregamente com elas. Você me observava, com indulgência. Parecia um Sexta-Feira . Negro, o torso nu, fumando um charuto espiralado, rodeado de tonéis explosivos e pronto a fazer voar pelos ares toda a ilha que construímos juntos ao longo dos anos, nós, os náufragos de Édipo. “Eu voador”.

Como sempre, nunca sei onde estou eu ou você, sempre disse que ser uma pessoa é algo du vidoso, não temos certeza alguma de que somos pessoas. somos uma corrente de ar, um vento, uma hora do dia. um riacho, uma batalha. um tique, um charme… Eu , eu, eu, eu…

 

II

Foi impiedoso, esse primeiro livro que escrevemos juntos. Deixar de dizer Eu, que alívio, que blasfêmia! Queríamos um pouco de humor. Falar em nome de uma incompetência absoluta , falar pelos esquizos, pelos animais, pelas árvores, pelos fluxos puros. Dar escrita aos que não têm escrita. E ser arrebatado por eles. Escrever para os analfabetos, falar pelos afásicos, pensar pelos acéfalos. Eu sempre achei que era, preciso dar voz ao esquizofrênico que habita o pensamento. Construímos o filósofo esquizofrênico. Como você dizia, Fél ix, ao menos os problemas dos esquizos são verdadeiros problemas, e não problemas de neuróticos. Entre nós havia uma demência circulante, não se sabia quem era o louco e quem o psiquiatra, quem era o bárbaro e quem o civilizado, e não é que alternássemos, é que muita coisa circulava no meio de nós arrastando-nos para outras paragens, e se usamos tantos escritores e poetas ao longo de nosso texto é porque com eles nunca tínhamos certeza: este é médico ou doente? Deus sabe o que sofreu um Kafka, um Lawrence, um Büchner. Poucos souberam extrair de suas vidas tanta saúde, tanto ar puro. Gostávamos de autores que nos puxassem para essa exterioridade, para uma mistura com as coisas, que nos evocassem esse extraordinário acoplamento de corpos e fluxos que você chamava de máquinas desejantes. Lenz e suas máquinas celestes, suas máquinas alpestres, suas máquinas clorofílicas. “Isso respira, isso esquenta, isso come. Isso caga, isso fode. Que erro ter dito o isso. Por toda parte são máquinas, com seus acoplamentos, conexões, fluxos… O seio é uma máquina que produz leite, e a boca, uma máquina acoplada a ela. A boca do anoréxico hesita entre uma máquina de comer, uma máquina anal, uma máquina de falar, uma máquina de respirar. É assim que somos todos bricoleurs: cada um com suas maquininhas . O presidente Schreber tem os raios do céu no cú. Ânus solar.” Primeiro parágrafo do nosso Anti-Édipo. Era ainda mais violento, o seu texto, eu até o suavizei um pouco. Sua escrita era assustadora, você a concebia como um fluxo esquizo que arrasta em seu curso todo tipo de coisas, e se cruza com outros fluxos, fluxos de merda, de esperma, de fala, de ação, de erotismo, de dinheiro, de política. O que nos importava, sobretudo, era dessacralizar o livro. Num livro, assim como numa peça, não há nada a compreender, nada a interpretar, é uma pequena engrenagem, basta conectá-la ao que está fora dela. Questão de maquinação. De ligação elétrica. Qual é a força que lhe dá sentido? Queríamos que tratassem nosso livro como se escuta um disco, como se vê um filme ou um programa de televisão, como se recebe uma canção. Pop’filosofia. Pois os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens. São intensidades: convêm ou não convêm, passam ou não passam, servir-se deles ou jogá-los fora.

 

III

“Você se chama Molloy, diz o comissário. Sim, eu disse, acabo de me lembrar. E sua mamãe? diz o comissário. Eu não compreendia. Ela também se chama Molloy? Diz o comissário. Ela se chama Molloy? Disse eu. Sim, diz o comissário. Reflito. Você se chama Molloy, diz o comissário. Sim, digo eu. E sua mamãe, diz o comissário, ela também se chama Molloy? Reflito”.

Querem sempre nos inculcar um nome, dar-nos uma filiação. “Eu, Antonin Artaud, sou meu filho, meu pai, minha mãe e eu.” … “Eu me recordo desde a idade de oito anos, e mesmo antes, ter-me sempre perguntado quem eu era, o que eu era e por que viver; me recordo com a idade de seis anos em uma casa da avenida de La Blancarde em Marselha (n. 59 exatamente) ter-me perguntado na hora do lanche, pão, chocolate, que uma certa mulher denominada mãe me dava, ter-me perguntado o que era ser e viver, o que era ver-se respirar, e ter querido me respirar a fim de experimentar o fato de viver e ver se me convinha e em que me convinha”. Eis o que as crianças perguntam: o que é viver? O que é respirar? O que é eu? O que é a máquina de respirar sobre meu corpo sem órgãos? Este livro, que por pura provocação denominamos de Anti-Édipo, era destinado às crianças de 7 a 15 anos. Quem conseguiria ter tanta inocência? A quem poderíamos perguntar, senão a elas, “Diga­ me, qual é a sua máquina desejante?” A criança é um ser metafísico. Nem sempre está às voltas com o seu pipi, brincando de esconde-esconde com papai-mamãe. Não necessariamente está buscando as origens. Sim, falamos muito contra Édipo e a psicanálise, a família e o segredinho sexual, na época isso era necessário pois só se falava disso e queríamos dar um basta a tamanha tagarelice. Clamávamos por amores não-edipianos. Talvez hoje fizéssemos outra coisa, tantos pretendentes a Édipo proliferaram, Édipo comunicacional, Édipo genético, Édipo global, Édipo militar. Dizíamos apenas: ao desejo nada falta. O desejo não depende da lei. O desejo não é sinônimo de transgressão. O desejo é pura positividade. Não é que você tenha um inconsciente, você deve produzir o inconsciente. Produzir o inconsciente não é fácil, não é em qualquer lugar, não é com um lapso, um trocadilho ou até mesmo com um sonho que se produz um. Nada que ver com lembranças reprimidas, nem com fantasias. O inconsciente não é um teatro, mas uma fábrica, ele não representa, ele maquina, ele não triangula com papai-mamãe, mas produz e conecta e escoa por toda parte. O inconsciente é uma substância a ser fabricada, a fazer circular, um espaço social e político a ser conquistado. Tudo é uma questão de desejo. Este é o ponto.

Ah, somos todos libido fluida, demasiado fluida, libido libido libido libido, que escorre por debaixo de nossos triângulos familiares, dos corpos orgânicos, dos eus profundos, das instituições burocráticas, das bolsas de valores. Somos todos esquizos! Somos todos perversos! Somos todos Libido muito viscosa… Quem não sente nos fluxos de seu desejo a lava e a água? O que uma sociedade mais teme é que seus fluxos desembestem soltos, num grande dilúvio que arraste tudo.

IV

“De certa maneira, seria melhor que nada andasse, nada funcionasse. Não ter nascido, sair da roda dos nascimentos. Nem boca. Nem língua. Nem dentes. Nem laringe. Nem esôfago. Nem estômago. Nem ventre. Nem ânus”. O presidente Schreber “viveu muito tempo sem estômago, sem intestinos, quase sem pulmões, o esôfago rasgado, sem bexiga, as costelas moídas; tinha às vezes comido em parte sua própria laringe.” O corpo sem órgãos não é a testemunha de um nada original, e nada tem que ver com o que os psicanalistas chamam de imagem do corpo, é antes o corpo sem imagem.

“O corpo é o corpo ele está só/e não tem necessidade de órgão/o corpo não é nunca um organismo/os organismos são os inimigos do corpo.” O corpo sem órgãos é como o ovo cósmico, a molécula gigante onde pululam vermes, bacilos, figuras liliputianas, animálculos e homúnculos, com sua organização e suas máquinas, minúsculos barbantes, cordames, dentes, unhas, alavancas e polias, catapultas, os milhões de espermatozóides nos raios do céu, as almas que levam sobre seu corpo uma breve existência de pequenos homens.

Por isso somos heterossexuais, e homossexuais, e transsexuados, e o único sujeito é o próprio corpo sem órgãos. Schreber é homem-mulher, pai-filho, morto-vivo. “Eu sou Ápis, eu sou um egípcio, um índio pele-vermelha, um negro, um chinês, um japonês, um estrangeiro, um desconhecido, eu sou o pássaro do mar e o que sobrevoa a terra firme, eu sou a árvore de Tolstoi com suas raízes.” “Eu sou o esposo e a esposa, amo minha mulher, amo meu marido.” “Eu sou a carta e a pena e o papel.” “Eu sinto que viro Deus, eu viro mulher, eu era Joana D’ Are e eu sou Heliogábalo, e o grande Mongol, um chinês, um pele-vermelha, um Templário, eu fui meu pai e eu fui meu filho. E todos os criminosos…”

Adoro esses delírios que colhemos ao longo do percurso e fecundamos por nossa conta. O inconsciente não delira sobre papai-mamãe, mas sobre as raças, os continentes, a história, a geografia … Freud nunca entendeu isto. E se aborrecia com os esquizofrênicos. Para nós tudo isso era divertido, aproximar o artista, o vidente, o revolucionário, o filósofo, o esquizo. O esquizo que não foge do social, que faz fugir o social pelos buracos que nele perfura, dispondo em toda parte as cargas moleculares que farão explodir o que deve explodir, cair o que deve cair, fugir o que deve fugir, garantindo em cada ponto a conversão da esquizofrenia em força efetivamente disruptiva. Esses homens do desejo são como Zaratustra. Eles devem reinventar cada gesto.

Mas ouço dizer que os esquizos já não interessam a ninguém. Se nos fosse dado escrever este livro hoje seria preciso criar outra coisa para denunciar a baixeza e vulgaridade crescente, humana, demasiado humana. Que vergonha de ser um homem hoje. E se fizéssemos como o animal, grunhir, fugir, escavar o chão com os pés, nitrir, entrar em convulsão… Tornar-se molecular. Deixar emergir a massa de meus átomos. Desfazer o rosto. Experimentar o que pode um corpo. Afetar. Deixar-se afetar. Voltar a acreditar no mundo. Dirigir-se aos inconscientes que protestam. Buscar aliados. Tramar associações de malfeitores. Fazer pressentir o advento de um povo. Criar, e assim resistir, resistir à morte, à servidão, ao intolerável, vergonha, ao presente.

Um pouco de possível, senão eu sufoco!

 

* * *

 

A PERFORMANCE FILOSÓFICA

 

O texto acima foi lido no seguinte contexto:

Num casarão de São José do Rio Preto especialmente adaptado para abrigar o Festival Internacional de Teatro de 2001, e batizado de Não-Lugar, foi reservada uma ala para performances filosóficas. Eram salas pequenas, com sessões à meia­-noite, uma sobre Platão, outra sobre Descartes, uma terceira sobre Sade, Marx, Exu, e assim por diante. O curador Ricardo Muniz Fernandes fez questão de incluir uma sessão sobre Deleuze, a partir de O Anti-Édipo. O convite para realizar esta performance, que não seria ultrapassar os 20 minutos, foi dirigido a mim e a Ondina de Castilho, bailarina e atriz que trabalhou vários anos no grupo de Antunes Filho. Eis a descrição do que inventamos.

Ao som do Concerto em memória de um anjo, de Alban Berg, a música predileta de Deleuze, um performer está com a cabeça apoiada sobre a cabeceira de uma longa mesa, como se dormisse. Uma dançarina vestida de preto, com fios e eletrodos no rosto e nos braços, como antenas enxertadas num corpo dilacerado, vai fazendo pequenas evoluções. O performer desperta, e num longo solilóquio lânguido, num tom de vivo-morto, dirigido inicialmente à dançarina que ele não vê, aos loucos que ele pressente na sala (pois ele poderia estar na mesa do refeitório da clínica psiquiátrica em La Borde, entre os pacientes-espectadores), e sobretudo a onze porcos vivos que perambulam entre suas pernas, é visitado por personagens conceituais de O Anti­Édipo. Seu monólogo é uma rede de associações pinçadas na obra de Deleuze e Guattari, fragmentos de textos e de autores que os inspiraram, de Beckett a Nijinsky, anedotas de vida, etc. Enquanto isso, a bailarina encarna os personagens conceituais, em paralelo ao texto, com evoluções sobre a mesa, no chão, acoplada aos porcos ou aos catorze espectadores.

Depois de dizer a última frase “Um pouco de possível”, o performer sai em desabalada corrida pelo fundo da sala, e desaparece ruidosamente. Ouve-se o estilhaço de um vidro, o Sargent Peppers dos Beatles, um trenzinho de crianças é acionado ao fundo, enquanto se distribui ao público uma página datilografada, intitulada Pérolas aos porcos (reproduzida abaixo), situando o contexto biográfico e filosófico da performance.

 

 

PÉROLAS AOS PORCOS

 

A performance filosófica em torno de O Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, acontece na presença de onze filhotes de porcos (a presença de humanos é uma concessão a ser negociada).

Filosofia para suínos. Deleuze sempre disse coisas raras a respeito dos animais. Ele afirmou que um escritor sempre se dirige ao animal que existe dentro do homem. Ou seja, o escritor (ou o filósofo) convoca as forças inumanas que habitam o homem e que subjazem à sua forma humana, demasiadamente humana, racional, psicológica, edípica, capitalística.

Deleuze vai mais longe: postula que se escreve para aqueles que não podem ler, para os analfabetos, os animai s, as crianças. Assim, o escritor dá escritura àqueles que são incapazes de escritura (o rato de Hoffmanstahl, os bezerros de Moritz, os vários animais em Kafka, a baleia de Melville, os autistas, os esquizos), e estes dão à escrita devires sem os quais ela seria impossível. É o devir-animal do escritor (mas de qualquer um), seu devir-criança, seu devir-planta (Castañeda), seu devir­molecular, etc.

Dar escritura às forças inumanas que nos rodeiam não significa almejar a uma comunhão romântica com a natureza, mas contestar a separação tradicional natureza/ cultura (que o Anti-Édipo radicalizou na ponta homem/máquina, com o conceito de máquina-desejante).

A formulação mais filosófica e bem-humorada dessa posição com relação aos animais se encontra em várias passagens da obra de Deleuze, tais como: “o rato e o homem não são em absoluto a mesma coisa, mas o Ser se diz dos dois num único e mesmo sentido numa língua que não é mais a das palavras, numa matéria que não é mais a das formas, numa afectibilidade que não é mais a dos sujeitos”. Ou numa versão mais bergsoniana do que espinosista: “uma vida pode retomar uma outra em outro nível: como se o filósofo e o porco, o criminoso e o santo vivessem o mesmo passado, em níveis diferentes”.

Mas por que porcos numa performance em torno de O Anti-Édipo, já que é um livro que fala mais das máquina s e dos esquizos do que dos animais? Aqui vão algumas das pistas, teóricas e cênicas, que orientaram essa opção.

Deleuze insiste que escrevemos “diante” dos animais. Ao falar “diante” deles, que sempre vivem em malta, reencontramos a multiplicidade que o eu soterrou. É a “potência de malta, que subleva e faz vacilar o eu” (Mil Platôs). Na performance fica muito claro: não existe um porquinho isolado, mas muitos, sempre em estado de alerta máximo, numa agitação de contágio que questiona a serena autonomia que a filosofia atribui ao sujeito individual que a enuncia.

Ora, O Anti-Édipo foi uma grande provocação contra o Eu, contra todas as formas de triangulação do inconsciente, da multiplicidade, dos afectos, contra a representação que transforma o mundo em “cena”. Pensamos que uma performance filosófica “diante” de (ou “no meio de”) suínos-bebês seria uma maneira chamativa de prolongar a força de provocação do enunciado presente no livro.

Ademais, a problematização do espaço da representação, transformado num misto indefinido de hospício (La Borde) e pocilga, estaria à altura da polêmica desejada e suscitada por O Anti-Édipo, no tocante à hibridação e à impureza constitutivas da filosofia.

Deixamos de lado, por ora, toda a rede de associações que se poderia evocar a partir da presença dos porcos em cena, desde um livro de um amigo de Deleuze e Guattari, intitulado Pensar e viver como porcos (Gilles Châtelet condena a transformação das massas contemporâneas em gado cyberzumbi, que pasta mansamente entre serviços e mercadorias), até a matança em massa de animais; devido às doenças provocadas pela industrialização da produção agro-alimentar. A manipulação genética dos animais e a crescente introdução de gens humanos em porcos, sua transformação em “fábricas” vivas para a produção de órgãos humanos, fez uma revista perguntar-se, há pouco, em que momento um porco deverá ser considerado humano. De qualquer modo, é inegável que os animais já são as máquinas biotecnológicas do presente.

Num outro registro, poderíamos evocar a transformação de nosso circuito de arte numa pocilga onde consumimos diariamente rações de lixo cultural mastigando nossos enormes sacos de pipoca no cinema (quem hoje pode ir a um filme sem sentir-se num estábulo, rodeado de animais ruminantes?).

Não podemos deixar de lembrar, por último, o que diz Deleuze ao evocar a vergonha de ser um homem, frente à vulgaridade e baixeza contemporâneas, diante do pensamento-para-o-mercado que reina nas democracias ocidentais. “Não somos responsáveis pelas vítimas, mas diante das vítimas. E não há outro meio senão fazer como o animal (grunhir, fugir, escavar o chão com os pés, nitrir, entrar em convulsão) para escapar ao ignóbil: o pensamento mesmo está por vezes mais próximo do animal que morre, que de um homem vivo, mesmo democrata.”

*

Obviamente, esse é apenas um dos aspectos da performance. Um outro diz respeito à relação de O Anti-Édipo com o tema da esquizofrenia (o livro tem por subtítulo “Capitalismo e Esquizofrenia”). Lembremos o mais elementar: um dos autores é filósofo, o outro é psicanalista. Félix Guattari por mais de 40 anos dirigiu, conjuntamente com Jean Oury, a clínica de La Borde, no sul da França. De seu trabalho com psicóticos, de sua freqüentação com a psicanálise (foi analisando de Lacan), também de sua intensa militância política em grupos de esquerda, resultou seu vivo interesse pela relação entre a clínica e a política. Ao associar-se com Deleuze, no início dos anos 70, ganhou fôlego o projeto de repensar o inconsciente à luz da esquizofrenia, não m ais da neurose. Nasce daí o híbrido provocativo presente indiretamente no livro,_ uma espécie de filósofo-esquizofrênico, que deslocou tanto o campo da psiquiatria/psicanálise como o da filosofia.

O Anti-Édipo é o primeiro livro que pensa conjuntamente o domínio do desejo e do social, do inconsciente e da produção, sem passar por uma mera síntese do que na época era dominante, o freudismo e o marxismo. Ao mesmo tempo, inaugurou um novo estilo de escrita, conjugando a filosofia com as vozes da literatura, das artes, das minorias, dos movimentos sociais. Redesenhou, assim, o pensamento sobre a subjetividade, com um forte poder de antecipação para as questões que se colocam hoje.

 

NOTA SOBRE A FRONTEIRA BIOPOLÍTICA

Por que porcos numa performance em torno de O Anti-Édipo, já que é um livro que fala mais das máquinas, por um lado, e dos esquizos, por outro, do que propriamente dos animais? É que nos trinta anos que nos separam daquela obra, a questão maior deixou de ser a relação homem-máquina, tão presente no livro, para tornar-se a relação entre o homem e o animal-máquina. Como diz o texto distribuído ao público, os animais são as máquinas biotecnológicas do presente, de modo que a máquina mais promissora é o próprio vivente. Na esteira dessa idéia, é a fronteira entre o homem e o animal que deveria ser problematizada. Num livro recente, intitulado L‘Ouvert, Giorgio Agamben refaz a genealogia do humano justamente a partir de sua diferenciação com o animal. Desde a Antigüidade assistiríamos a uma exclusão do não-homem no homem, paralelamente a uma antropomorfização do animal. O homem encontra em si, e isola dentro de si, um animal que ele qualifica de não-homem, numa decisão que é ao mesmo tempo metafísica e técnica, e que implica sempre e necessariamente uma zona de fronteira, de indistinção. O que ele isola é uma vida separada, diz Agamben, nem humana nem propriamente animal, uma vida excluída dela mesma, uma vida nua. A história da filosofia poderia ser contada à luz desse esforço, de separar o homem do vivente. Nesse particular, a filosofia de Deleuze está nas antípodas, por exemplo, do empreendimento de Heidegger, em que todo o tema da abertura do Da-sein se contrapõe à não-abertura do animal, ao estupor que ele experimenta em relação aos seus estímulos. Para Heidegger, com efeito, o desvelamento do homem contra o seu velamento seria um a luta intestina entre o homem e o animal. Se por um tempo Heidegger acreditava ser possível, ainda, por uma decisão destinai, dar à história uma tarefa dessa envergadura, a de separar o homem do animal, pressentia também que a pós-história que batia às portas tornava vão esse esforço. Por exemplo, o século 20 realizaria um ideal hegeliano-kojeviano, ao assumir como sua tarefa a mera existência de seus povos, isto é, a assunção despolitizada de sua vida nua. O trunfo da economia seria um indício, da administração da v ida natural e do bem-estar, da gestão integral da vida biológica, daquilo que Gilles Châtelet chamava de “viver e pensar como porcos”. A gestão da animalidade do homem equivale ao mesmo tempo à animalização do homem.

A posição final de Agamben a respeito, na esteira de Benjamin, advoga um novo jogo entre natureza e humanidade. A “máquina antropológica” que separa o animal no homem foi como que bloqueada, mas deixa em suspenso algo que estaria por vir e para o quê não temos ainda uma palavra adequada. “Não é mais humana, pois esqueceu todo elemento racional, todo projeto de dominar sua vida animal; mas tampouco pode ser dita animal, se a animalidade fosse precisamente definida por sua pobreza”…[1] Ora, tornar inoperante a máquina antropológica que governa nossa concepção de homem não significaria tanto buscar novas articulações, mais eficazes ou autênticas, entre o animal e o humano, senão mostrar o vazio central, o hiato que separa, no homem, o homem do animal , e arriscar-se nesse vazio, numa suspensão tanto do homem como do animal.

Já podemos pressentir em que medida o movimento de Deleuze ressoa e destoa dessa posição, que vai, grosso modo, de Aristóteles a Heidegger. Para dizê-lo ainda nos termos de Agamben em L ‘Ouvert, se em nossa cultura o homem sempre foi resultado de uma divisão, de uma articulação do animal e do homem, do inumano e do humano, da vida nua e da vida qualificada , de zoé e bios, Deleuze faz dessa uma cena cômica – por mais que o contexto biopolítico contemporâneo transforme este riso num sinal de alerta. Em todo caso a presença dos animais em Deleuze, desde os devires-animal até a idéia de que o animal é aquele que sabe morrer, culminando com a relação necessária entre o pensamento e a animalidade, deixam entrever uma posição singular, no limite do pensável: uma ontoetologia que beira uma zoofilosofia, nas antípodas da tradição humanista.[2]

 

Notas.

1 – AGAMBEN, Giorgio. L’Ouvert, de /’homme et de /’animal . Paris, Payot & Rivages, 2002, p. 134.

2 – Elisabcth de Fontcnay, num livro de resto instigante, teve dificuldade em compreender o alcance c o sent ido do gesto delcuziano com respeito aos animais. Cf. Le silence des bêres, Paris, Fayard, 1998 (“suspeitei Deleuze de não gostar dos animais, na medida em que a elevação cínica do carrapato il dignidade do conceito poderia fazer temer uma denegação da hierarquia animal , isto é, da surpreendente proximidade de certas espécies com o homem”).

*Este escrito foi originalmente publicado em: PELBART, Peter Pál. Vida Capital: Ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2000.

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